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REPORTAGEM DA GAZETA DO POVO MOSTRA A SEGREGAÇÃO SOCIAL DE CURITIBA

 

A reportagem desta segunda-feira (8) da Gazeta do Povo mostra uma realidade que nos últimos três anos e meio vem sendo varrida para debaixo do tapete da prefeitura de Curitiba. A denúncia do jornal mostra de forma clara e bastante abrangente a segregação social que afeta milhares de famílias que residem nos bairros mais distantes do centro da capital do Paraná.

“Os pobres têm de viver neste quinto dos infernos. Botaram a gente aqui neste fim de mundo”. A revolta é de uma moradora anônima do Moradias Monteiro Lobato no Tatuquara, ao ver a passagem do veículo da Gazeta do Povo, por volta das 10h de quarta-feira (3). A moradora, segundo a narrativa, é magra, negra e carregava uma criança, perfil dos milhares de excluídos pelo poder público e que não aparece nas campanhas publicitárias da prefeitura municipal.

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REPORTAGEM DA GAZETA DO POVO MOSTRA A SEGREGAÇÃO SOCIAL DE CURITIBA

REPORTAGEM DA GAZETA DO POVO MOSTRA A SEGREGAÇÃO SOCIAL DE CURITIBA

 

A reportagem do jornal percorreu os bairros Tatuquara, Sítio Cercado e Cajuru e constatou as dificuldades das famílias das comunidades que formam a região. “Se as estatísticas estiverem corretas, o Tatuquara é o bairro mais pobre de Curitiba. Tem quase 50 mil moradores e crescimento de 3,8% ao ano. Sua renda média em 2008 é de R$ 809,93, a terceira mais baixa dentre os 75 bairros da cidade”, relata o texto.

Mesmo com estes indicativos, nos últimos três anos e meio a prefeitura optou por destinar uma grande parcela dos investimentos em comunidades mais abastadas como o Batel, que tem renda média de R$ 8.972 (superior a 10 vezes dos moradores do Tatuquara). “35% dos tatuquarenses são crianças. Entre os adultos, o analfabetismo funcional beira os 25%. Outra particularidade é que 31,5% da população do Tatuquara é negra”.

Leia a seguir a íntegra da matéria da Gazeta do Povo

Miséria e crime

Notícias da Vila Vintém

Reportagem da Gazeta do Povo circula oito horas consecutivas pelos bairros Tatuquara, Sítio Cercado e Cajuru, em busca das relações entre pobreza, drogadição e violência. Os mais pobres moram longe e estão mais expostos à criminalidade e ao tráfico

José Carlos Fernandes e Rosana Félix

“Os pobres têm de viver neste quinto dos infernos. Botaram a gente aqui neste fim de mundo”, grita a anônima do Moradias Monteiro Lobato, Tatuquara, às 10 horas de quarta-feira. Ela é muito magra, negra, carrega uma criança e amaldiçoa o vento que parece só agravar o maior problema da região: o mau cheiro. É um enigma. Uns dizem que vem da estação de tratamento de esgoto da Sanepar, da qual a vila é vizinha mais próxima do que recomendaria o bom senso. Outros culpam o setor industrial de Araucária – que pode ser visto por detrás da mata, com suas torres gigantescas e labaredas de fogo na ponta. É bonito de ver, mas não é o paraíso.

Se as estatísticas estiverem corretas, o Tatuquara é o bairro mais pobre de Curitiba. Tem quase 50 mil moradores e crescimento de 3,8% ao ano. Sua renda média em 2008 é de R$ 809,93, a terceira mais baixa dentre os 75 bairros da cidade, o que acaba agravado por outras características: 35% dos tatuquarenses são crianças. Entre os adultos, o analfabetismo funcional beira os 25%. Outra particularidade é que 31,5% da população do Tatuquara é negra.

Comparado ao 23 de agosto – área de ocupação no Ganchinho – o Tatuquara não é o pior dos mundos. É recente e está sendo urbanizado. A questão é outra: é melhor ser pobre em outras regiões de Curitiba do que ali. Basta um argumento: o bairro tem 2,5 mil estabelecimentos comerciais, quatro vezes menos do que o vizinho Sítio Cercado. Para quem vive de catar papel – atividade comum na região – é como procurar água no deserto. Encontrar emprego perto de casa, idem.

É o caso da família de carrinheiro Manoel da Silva, 58 anos, pai de quatro filhos, cinco meses de bairro. Antes disso, fazia parte das 30 famílias que viviam na Sociedade Barracão, a favela-pocket do Uberaba. Habilitou-se a sair do local e entrar no financiamento de uma casa popular. Foi como chegou ao Tatuquara, mas não há meio de ele e a mulher, Zilda, saírem do minguado orçamento de R$ 120 do Bolsa Família. “Aqui a gente não tira nada com o papel”, explica a mulher.

O casal pensa em se favelizar novamente, numa área mais comercial, de modo a evitar que os filhos passem fome. No Uberaba, além dos rendimentos com o carrinho, haviam as doações dos vizinhos arremediados. Agora, nem isso. Eis a encruzilhada, que aponta para o nó da pobreza. A casa pode até ser de alvenaria e ter quintal, mas sem programas de geração de renda, não tem foto de gente feliz no álbum de retratos.

No Sítio Cercado, a situação se inverte. Ali, Curitiba não é tão modesta quanto no Tatuquara, porém é mais violenta. Com 115 mil habitantes, a área tinha tudo para ser um Eldorado municipal. Não há quem não se impressione ao cruzar a esquina das ruas Izaac Ferreira da Cruz com a São José dos Pinhais, por onde se espalha a maior parte dos 11,4 mil estabelecimentos comerciais da região. Mas para tristeza geral, o Sítio ficou famoso apenas nas páginas policiais. Só neste semestre foram 46 mortes violentas. “Muitos comerciantes desistem de vir para cá por causa dessas notícias”, lamenta o líder comunitário Jurandir Ferreira, o Alicate.

A região é de fato uma chaleira fervendo. Reza a lenda existirem 100 associações de bairro por ali. Arrisca ser a maior concentração planetária do gênero. Por extensão, não existe na cidade local onde a campanha eleitoral esteja mais animada. A segurança, claro, é a grande bandeira de todas as facções, mas não a única.

Na divisa do Sítio com o Pinheirinho, na Casa do Servo Sofredor, há quem concorde com a tese do líder comunitário. Ali, onde 120 internos, a maioria jovens, são abrigados para tratar dependência química, a voluntária Sueli Maria Borges, 57 anos, fala de cadeira. Há dois anos ela faz terapia da escuta com os rapazes da casa. Seu trabalho é ouvir, de modo que eles possam organizar suas perdas e danos. “Não acredito que a pobreza seja a única causa da drogadição. As histórias desses jovens são histórias de abandono, da família e da sociedade”, defende.

À frente da Secretaria Especial Antidrogas, Fernando Francischini faz um arrazoado de todas as posições recolhidas entre os entrevistados. “A pobreza não explica 100% o problema das drogas em Curitiba. A escolaridade também não”, analisa. Ele aponta para um argumento clássico – a posição da capital na rota Foz do Iguaçu-Paranaguá – e outro nem tanto. “Aqui, a prevenção e a repressão nunca caminharam juntas. Tem de haver um planejamento estratégico entre os dois setores”, defende, mas sem deixar de reconhecer a máxima dos setores especializados: “Tenho certeza absoluta de que o tráfico e a violência estão associados.”

O bairro do Cajuru – última parada da viagem – serve de estudo de caso. Com quase 100 mil habitantes, ostentou 59 mortes violentas desde o início do ano, o maior índice da capital. Os problemas estão concentrados entre o Rio Atuba e a linha do trem. Ali, o bolsão de criminalidade se confunde com o de miséria, formando uma linha que passa pela vilas Autódromo, Reno, União, Icaraí e Audi.

Nesses locais, além da geografia de barracos e becos, impera o silêncio. Em lugares como o Marumbi há toques de recolher. Nos dois parques beira-rio, o Nacional e o Linear, não se vê crianças brincando.

Dados x complexidade

O cruzamento de dados mostra uma triste realidade. Os bairros que estão no andar de baixo da escala de renda são os mesmos onde ocorrem o maior número de mortes violentas da capital. E muitos deles figuram ainda como protagonistas nas operações policiais de apreensão de drogas. Mas esses números, dizem os especialistas, fazem bonito nas planilhas e não tanto na vida real. Eles são insuficientes para explicar as relações complexas que existem entre pobreza, violência, tráfico e consumo de drogas.

O mapa do crime continua o mesmo do ano passado. Os bairros Cajuru, Cidade Industrial de Curitiba, Sítio Cercado, Uberaba e Tatuquara, que em 2007 concentraram 60% dos homicídios da capital de acordo com dados da Secretaria de Estado da Segurança Pública, continuam no topo do ranking em 2008. Com exceção do Uberaba, os outros quatro estão na lista das maiores apreensões de crack.

De acordo com a pesquisadora Joyce Pescarolo, do Centro de Estudos em Segurança Pública e Direitos Humanos da UFPR, não é a pobreza, e sim a desigualdade social que deve ser considerada vilã. Quando os integrantes da classe mais rica e da classe mais pobre se vêem como estranhos, há a possibilidade de um cometer violência contra o outro, pois eles não se identificam, não há empatia. Dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) mostram que o número de pobres do Brasil diminui nos últimos anos, mas os dados municipais mais recentes não são alentadores. Os 20% curitibanos mais ricos se apropriaram de 63,6% de toda a renda gerada pela cidade em 2000, quase cinco pontos porcentuais a mais do que uma década antes. Enquanto isso, aqueles que mais precisavam viram sua situação piorar: os 40% mais pobres ficaram com apenas 8,3% da renda, contra 10,1% no levantamento de 1991.

Joyce diz não concordar com generalizações do tipo que a droga gera violência, mas, que no caso do crack, droga cujo consumo e apreensão tem crescido em Curitiba, a afirmação pode ser verdadeira. O pesquisador Felipe Zilli, do Centro de Estudos de Criminalidade e Segurança Pública, de Minas Gerais, explica porque isso ocorre: “O crack gera uma dinâmica muito mais violenta que as outras drogas. O usuário tem a necessidade de consumo constante, e essa constância acaba gerando muitos conflitos com o fornecedor e entre usuários.”

O coronel Jorge Costa, coordenador do Narcodenúncia, detalha essa dinâmica cruel. “O viciado em crack acaba gastando todo seu dinheiro para comprar pedra. Depois ele passa a roubar da família. Quando os familiares começam a esconder as coisas dele, o viciado vai para a rua.” Segundo o coronel, os crimes têm uma forte relação com as drogas. Ou se comete violência sob o efeito de um entorpecente ou para comprar um. Aqui Joyce discorda. “A droga não vai mudar totalmente a personalidade de uma pessoa e fazer com que ela mate alguém, a não ser que haja uma predisposição.” O remédio, ou seja, a repressão, dizem todos eles, não terá muita utilidade se o poder público não oferecer infra-estrutura, opções de lazer e de qualificação profissional.

***(( BOX ))***

Os violentos
De acordo com dados oficiais da Secretaria de Estado de Segurança Pública, em 2007 Curitiba registrou 589 homicídios. Cerca de 60% dos crimes se concentram em cinco bairros – Sítio Cercado, CIC, Uberaba, Cajuru e Tatuquara. Dados levantados a partir de boletins do IML, de janeiro a agosto deste ano, já têm registrados 583 homicídios.

Os pobres
Dados do Observatório das Metrópoles revelam que o Núcleo Metropolitano – área dos municípios próximos a Curitiba – concentra 75% dos pobres da região. Desses, 40% vivem na capital. O número equivaleria a 42,6 mil famílias.

Os dependentes
A associação entre tráfico e violência é controversa, pois pode levar à marginalização do usuário. Mas é adotada pelos estudiosos de segurança pública. De acordo com a Sesp, 80% da criminalidade em Curitiba está relacionada ao tráfico.

Em baixa
A desigualdade social de Curitiba é gritante e já foi indicada por estudos nacionais, como o Mapa do Crime, da Ritla. Compare: a renda média do Batel é de R$ 8.972, dez vezes mais do que a do Tatuquara.

Em alta
Bairros como Sítio Cercado, onde a renda é baixa e a criminalidade é alta, têm a seu favor uma economia aquecida. No Sítio há cerca de 11,4 mil estabelecimentos comerciais, apontando perspectivas para os moradores.

Para discutir à mesa
Violência está entre preocupações da população e gera sociedade movida pelo medo.

– Pela Constituição Federal, a segurança pública é competência do governo estadual. Mas se os prefeitos não fizerem nenhuma ação nesta área, caem na desgraça geral: de acordo com pesquisa Ibope/ RPC/Gazeta do Povo do mês passado, 68% dos curitibanos vêem a segurança como o maior problema da capital.

– No Paraná, foi apreendido 1,3 milhão de pedras de crack neste ano, entre janeiro e agosto. Mas a maioria não era para usuários do estado. A grande parte das apreensões, de acordo com dados do Narcodenúncia, ocorreu nas proximidades de Foz do Iguaçu – 359 mil pedras, e estavam sendo levadas para outras regiões do Brasil. Em Curitiba, o número apreendido no período foi de 139 mil.

– As ligações dos “super-heróis anônimos”, aquelas pessoas que fazem as denúncias ao telefone 181, do Narcodenúncia, já somam 117 mil, desde que o programa teve início, em 2003. Só neste ano foram 20,4 mil telefonemas, que, de acordo com o DDD da área de origem, caem em uma das seis centrais regionais.

Isso garante rapidez para as operações, que são realizadas pelas polícias Militar, Civil, Federal e as polícias rodoviárias estadual e federal.

– A pobreza por si só não leva as pessoas a cometerem crimes, dizem os especialistas. Mas ela é algo a ser exterminado, porque ela acaba gerando um outro tipo de violência, mais silenciosa e de longo prazo. De acordo com dados do Atlas do Desenvolvimento Humano do Brasil, quanto maior a intensidade da pobreza nos municípios, menor será a longevidade da população.

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Com a palavra

Participaram desta reportagem o sociólogo Felipe Zilli, a psicóloga Joyce Pescarolo, o policial militar coronel Jorge Costa e o bacharel em Direito Fernando Francischini.

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