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João Amazonas, uma vida de lutas

João Amazonas de Souza Pedroso nasceu no dia 1º de janeiro de 1912 no Pará.  Desde jovem se rebelou contra as péssimas condições de vida e de trabalho da classe operária de sua cidade. Em 1935, através da Aliança Nacional Libertadora (ANL), ingressou no Partido Comunista do Brasil. – trecho do artigo de Augusto Buonicore. Leia-o na íntegra em Reportagens.

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João Amazonas, uma vida de lutas

João Amazonas, uma vida de lutas
 
Augusto Buonicore(*)

João Amazonas de Souza Pedroso nasceu no dia 1º de janeiro de 1912 no Pará.  Desde jovem se rebelou contra as péssimas condições de vida e de trabalho da classe operária de sua cidade. Em 1935, através da Aliança Nacional Libertadora (ANL), ingressou no Partido Comunista do Brasil.
 
Sua primeira tarefa foi organizar o partido na fábrica onde trabalhava e, em seguida, organizar o sindicato da indústria de alimentação do Pará. Foi representante desta entidade na União dos Proletários de Belém. Entre 1935 e 1940 foi preso várias vezes; em 1941, realizou uma fuga ousada e viajou para o Rio de Janeiro com o objetivo de ajudar a reorganizar o Partido que havia sido destroçado pela ditadura do Estado Novo implantada em 1937.

Amazonas estava entre os principais construtores da Conferência da Mantiqueira, realizada em agosto de 1943, que reorganizou o Partido Comunista. Por sua destacada atuação, passa a compor a Comissão Executiva, ficando responsável pelo trabalho sindical e de massas. Nesta condição foi um dos organizadores do Movimento Unificador dos Trabalhadores (MUT). Em dezembro de 1945 foi eleito deputado federal constituinte com uma das maiores votações do Distrito Federal. Na Constituinte atuou em defesa dos trabalhadores. Por isso, em 1948, os mandatos comunistas foram cassados e ele entrou na clandestinidade.

Entre 1956 e 1961 participou ativamente da luta contra a onda reformista que atingiu o movimento comunista. Em 1957 acabou sendo destituído da Comissão Executiva do Partido Comunista do Brasil e depois, em 1960, do próprio Comitê Central do PCB. A divergência chegou ao ponto de ruptura em 1961 quando, passando por cima das decisões do 5º Congresso, a direção reformista decidiu mudar o programa e os Estatutos do Partido, e adotou um novo nome criando, na prática, uma nova organização, o Partido Comunista Brasileiro.

Ele e seus camaradas não aceitaram essas decisões. Protestaram e logo foram expulsos. Diante do que acreditavam ser a liquidação do velho Partido, organizaram uma conferência nacional extraordinária que decidiu pela reorganização do Partido Comunista do Brasil, que passou a adotar a sigla   “PCdoB”. Na sua direção estavam Amazonas, Maurício Grabois, Lincoln Oest, Pedro Pomar, Ângelo Arroyo, Elza Monnerat entre outros. Com o golpe militar de1964, as teses reformistas do Partido Comunista Brasileiro foram derrotadas e este partido entrou num rápido processo de desagregação interna.

Entre 1968 e 1972, Amazonas participou ativamente da organização da Guerrilha do Araguaia. No início de março de 1972 ele saiu da região para participar da reunião do Comitê Central que comemoraria o 50º aniversário do Partido. Quando Amazonas voltava para a região, foi surpreendido pelo cerco do Exército que o impediu de reintegrar-se à guerrilha.

A eclosão do movimento guerrilheiro levou a um aumento das perseguições aos dirigentes do PCdoB nas cidades. Entre 1972 e 1975 foram assassinados Lincoln Oest, Carlos Danielli, Lincoln Bicalho Roque, Luis Guilhardini, Armando Teixeira Frutuoso e Ruy Frazão.

Em 16 de dezembro de 1976 ocorreu o último ato da tragédia. A casa onde havia-se realizado uma reunião do Comitê Central, foi cercada e metralhada pela repressão. Neste dia foram friamente assassinados três dirigentes comunistas, Pedro Pomar, Ângelo Arroyo e João Batista Drummond. Era a chamada Chacina da Lapa. Um dos objetivos daquela operação era a eliminação de Amazonas que, no entanto, estava no exterior. O dirigente comunista somente pôde retornar ao país após a promulgação da Anistia em 1979.

Amazonas foi um ardoroso defensor da unidade das forças democráticas e populares contra o regime militar. Apoiando as greves operárias ou nos palanques da campanha das diretas lá estava o velho combatente comunista. Quando a emenda das Diretas-já foi derrotada no Congresso (abril de 1984), Amazonas foi a Minas Gerais conversar com o governador Tancredo Neves, para convencê-lo a enfrentar Paulo Maluf no Colégio Eleitoral.

Ele, também, foi um dos artífices da Frente Brasil Popular, que levou Lula ao segundo turno nas eleições de 1989. Compreendeu que, com a vitória de Collor, a luta contra o neoliberalismo adquirira centralidade. Amazonas defendeu a palavra de ordem “Fora Collor!”, que empolgou a juventude brasileira e levou ao impedimento do presidente da República.

Com a vitória de FHC, o projeto neoliberal recobrou o seu fôlego. Amazonas defendeu a formação de uma ampla frente oposicionista, que tivesse como núcleo as forças de esquerda. Uma frente que se constituísse através de um programa nacional e democrático que apontasse para a superação do neoliberalismo e se sustentasse num amplo movimento de massas.

João Amazonas morreu em 27 de maio de 2002 sem que pudesse assistir a mais uma vitória do povo, vitória que ele ajudou a construir: a eleição de Lula para a presidência da República. Seu último desejo foi que suas cinzas fossem jogadas na região onde tombaram os guerrilheiros de Araguaia.
E assim foi feito. 
 
(*)Augusto Buonicore é historiador e diretor do Instituto Maurício Grabois. 

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