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Xuxa, por Marta Suplicy

Folha de São Paulo

Pobre menina. Os olhos profundamente tristes, a capacidade de encantar e cativar a solidariedade, a falta de expectativa com um futuro amoroso e a enorme solidão foram as marcas que parecem indeléveis do desabafo de Xuxa, domingo último.

Como ela é maior que o relato de abuso sexual, fica essa imagem doce sem horizonte e eixo, com as marcas da tragédia vivida. No formato escolhido para o depoimento, Xuxa mergulha no oceano das frustrações de sua vida privada e nas fantasias (vividas e reescritas) de suas histórias de amor.Sobre a vida pública, temos um caminho de elaboração da dor, da humilhação e da culpa. Quem acompanha sua carreira desde o início percebe a autodesvalorização e o resgate da autoestima e de “uma limpeza” subjetiva pelo trabalho com crianças. O que a torna “presa” ao caminho televisivo para a manutenção do seu equilíbrio.

Talvez o desabafo seja o ponto final de uma demorada e penosa trajetória. Muitas vezes, vítimas de abuso só conseguem falar abertamente sobre o que aconteceu quando sublimam, de alguma forma, a violência. Este parece ser o caso de Xuxa. As feridas, que impedem ainda pensar uma vida amorosa sem ser num encontro com Ayrton Senna no pós-vida, ainda estão expostas.

Feita essa “análise”, só ousada pela corajosa abertura da própria Xuxa, pensemos nos milhares de crianças que estão sendo abusadas -e que tal exposição propiciou que isso viesse à tona. Sempre forte nos depoimentos das vítimas são a culpa, o medo e a solidão. Pode ser complicado de entender a culpa. Ela vem mais tarde. Primeiro, chega a indagação solitária sobre o que estaria acontecendo. O significado de atos tão estranhos, o porquê daquilo e o “errado”, percebido no escondido, funcionam como mordaças. Torna-se difícil pedir ajuda se não houver abertura para tal. Vide o caso Xuxa, que enaltece a mãe amorosa mas que não percebia o que ocorria. Com a não compreensão do que se passa vem o medo da cumplicidade e a indagação: por que eu? E, por fim, com o entendimento, vem a culpa e a vergonha. O primeiro sinal deveria ser percebido no lar. A criança muda de comportamento com alguma pessoa. Estranho? Tem que saber o que há. Pode também aumentar a agressividade ou, ao contrário, o isolamento. O outro passo tem que ocorrer na escola, com professores preparados para detectar as mudanças de comportamento e sabendo como conversar com a criança e encaminhar o caso à família ou ao Conselho Tutelar. Geralmente, o molestador é conhecido. Xuxa, que se conecta com crianças, ajudou-as e a seus pais ao falar de forma tão pessoal de um tema tabu. Haja vista que as denúncias cresceram 30% após seu depoimento. Mas será pouco o ganho se a criança não tiver para quem apelar.