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A vice sindicalista

23 de março de 2014
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Celso Nascimento, Gazeta do Povo

São cada vez mais visíveis as digitais da vice-prefeita de Curitiba, Mirian Gonçalves (PT), no apoio aos movimentos grevistas que infernizam o prefeito Gustavo Fruet (PDT) há pelo menos três semanas. Por trás da participação da vice estariam disputas internas no PT e deste com outros partidos da esquerda, como o PSTU e o PSol, pelo controle das organizações sindicais de categorias que prestam serviços do município à população.

Antes, um breve histórico: em 2012, PT e PDT firmaram aliança para disputar a prefeitura de Curitiba. O neopedetista Fruet era o nome eleitoralmente mais viável para enfrentar a concorrência representada pelo candidato à reeleição Luciano Ducci (do PSB, com apoio do governador Beto Richa) e o popular deputado Ratinho Jr. (PSC). O PT entraria na chapa de Fruet ocupando a posição de vice.

O PT fez então a convenção para escolher o nome. As correntes mais moderadas do partido, lideradas pela senadora Gleisi Hoffmann e pelo ministro Paulo Bernardo, apoiavam a professora e ex-vereadora Roseli Isidoro. As alas mais radicais, representadas pelos deputados Dr. Rosinha (federal) e Tadeu Veneri (estadual), porém, saíram vitoriosas com a indicação da empresária do setor educacional Mirian Gonçalves. O resultado foi apertado: 113 votos contra 100.

Advogada trabalhista e militante com respeitável histórico de participação nos movimentos de trabalhadores, a vice de Fruet tem sido agora frequentemente vista atuando em confrontações classistas com a administração municipal – o que, segundo fontes do seu partido, tem sido fator de desgaste político para o prefeito.

Desde o fim de fevereiro foram pelo menos cinco as greves (ou ameaças de greve) concomitantes ou em sequência que ajudaram a queimar – em fogo amigo – parte do capital político do prefeito. A primeira delas, no fim de fevereiro, foi a dos motoristas e cobradores, que por três dias levou a cidade ao caos com a paralisação do transporte coletivo. A vice Mirian Gonçalves atuou como mediadora informal do dissídio entre patrões e empregados, mas ninguém deixou de notar sua tendência no sentido de proteger as reivindicações grevistas.

Comportamento virtuoso e elogiável não fossem os contratempos a que o resto da população, dependente de ônibus, teve de enfrentar. Do mesmo modo a vice agiu em relação à greve dos professores que veio em seguida e que, por um dia, deixou 400 mil crianças sem aula. Depois, a dos garis e lixeiros, cujos efeitos foram menores porque debelada em razão de decisão judicial obrigando que 40% dos trabalhadores se mantivessem na atividade.

Enquanto os guardas municipais ameaçavam cruzar os braços (ficaram apenas na ameaça), outro movimento paredista ainda persistia parcialmente até a noite de sexta-feira – e este sim com participação mais direta da vice. É a greve dos cinco mil educadores – categoria quase exclusivamente feminina que cuida das 199 creches (Cmeis) que atendem crianças de 27 mil famílias.

Os educadores apresentaram uma pauta de cinco reivindicações. Quatro foram atendidas, mas a primeira – que exigia reduzir a jornada de 40 para 30 horas semanais – foi repelida pelo prefeito. Por uma simples razão: para atender o mesmo número de creches e de crianças, seria necessário praticamente duplicar o número de educadores, gerando dispêndio anual de R$ 120 milhões.

A maioria entendeu a dificuldade e voltou ao trabalho – mas, ainda assim, a vice-prefeita fazia mais uma exigência: que os grevistas remanescentes fossem recebidos pelo prefeito. Contaria ponto para mostrar poder – e contabilizaria o feito como mais um trunfo para evitar que o PT e a CUT continuem perdendo para o PSTU e para o PSol o controle de setores sindicais e de trabalhadores estratégicos para a cidade.

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