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Vacina sem revolta

27 de agosto de 2018
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Convencimento e educação são as melhores armas para aumentar a cobertura vacinal no país

Editorial, Folha de S. Paulo

Em 2001 declarou-se a erradicação do sarampo no Brasil. Menos de duas décadas depois, a doença viral retorna com um surto que já alcançou mais de 1.400 pessoas.

A causa é conhecida: baixa cobertura vacinal. Como regra, epidemiologistas preconizam que 95% do público-alvo deva ser imunizado para bloquear a transmissão de moléstias infecciosas.

Entretanto a taxa de aplicação da tríplice (que também protege contra caxumba e rubéola) despencou desde 2015, após 12 anos perto dos 100%. Em 2017, baixou a preocupantes 84%.

Não estranha que o sarampo esteja em ascensão. Sempre haverá portadores entrando no país, como ocorre agora com refugiados da Venezuela em Roraima, o que não engendraria consequências se o vírus encontrasse aqui condições desfavoráveis para disseminar-se.

Arrombada a porta, governos correm para tentar pôr-lhe uma tranca com ampla campanha de vacinação, que inclui ainda a imunização contra poliomielite. Se o sarampo nada tem de benigno, como atestado nas seis mortes já comprovadas, a paralisia deixa sequelas que se acreditavam erradicadas.

Pouco importa a razão para que os pais deixem de cumprir seu dever. Cabe ao Estado buscar as crianças não imunizadas onde elas estiverem —na escola ou em casa.

Assim promete agir a prefeitura paulistana, e faz bem. Na maior cidade do país, a taxa de cobertura das duas vacinas ainda não havia atingido 60% na quinta-feira (23).

Arme-se então um posto volante em plena avenida Paulista, no sábado, como se fez, para pais sem meios de conduzir os filhos até o posto de saúde em horário de expediente. Apliquem-se vacinas nos colégios, como se planeja fazer na semana que começa.

Também soa prudente a mobilização de equipes para bater de porta em porta, como se anuncia, atrás de quem ainda não foi vacinado. Em hipótese alguma, entretanto, devem-se imunizar crianças e jovens contra a vontade dos pais.

Nesses casos de recalcitrantes, resta o recurso às armas do convencimento. Um médico, agente comunitário ou enfermeiro, face a face com os crédulos nos boatos veiculados em redes sociais, terá autoridade e argumentos para demovê-los da temeridade.

O pior cenário para um sistema de saúde estaria em lançar mão de autoritarismo e revoltar pais e filhos com a imposição de procedimentos sanitários (ou, como é mais frequente, com a negativa ou morosidade de atendimento).

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