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Tesouro da ciência mofou no Paraguai; um pouco da história do Museu Bertoni

29 de novembro de 2015
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museu bertoni

de Montezuma Cruz

Na sucursal da Folha de Londrina em Foz do Iguaçu, entre 1991 e 1996, percorri bem as Três Fronteiras (Brasil-Paraguai-Argentina). No interior de Presidente Franco (Paraguai) deparava-me com o abandono do Museu Bertoni, que abrigava numa velha casa de madeira um dos maiores tesouros sul-americanos. O lugar chama-se Porto Bertoni. O acervo mofava em 1994.

Uma máquina impressora e uma de datilografia, livros de botânica, zoologia, mineralogia, linguística e civilização indígena ali estavam, na margem paraguaia do Rio Paraná. Foram deixados pelo cientista Moisés Bertoni. Em 1993, o Arquivo Cantonal do Ticino (cantão onde nasceu Bertoni), em Bellinzona, Suiça, oferecia-se à embaixada daquele país, em Brasília, para restaurar, consertar, catalogar e microfilmar todo o acervo. O governo paraguaio já havia enviado a Bellinzona 17 mil manuscritos do cientista.

Percorria o terreno com mato alto e conhecia os arredores da casa. Um guia contava-me que o ex-dono daquele patrimônio pesquisava não só a tecnologia histórica, mas a diferença fonética da entre a língua do Povo Guarani e a língua japonesa. Por isso, a riqueza de documentos guardados na velha casa era conhecida por “escritos do sábio Bertoni”.

Entre os componentes do tesouro estava a “Descrição Física e Econômica do Paraguai”, com 14 volumes de 177 páginas impressas.

Bertoni havia participado da criação da Escola Nacional de Agricultura do Paraguai, em 1896, onde estudou meios de desviar gafanhotos de áreas cultivadas, utilizando plataformas.

Nascido em 1859, Bertoni morreu de malária, aos 70 anos, em Foz do Iguaçu. Sofreu muito, merece um livro. Giácomo, seu sobrenome original, fora substituído por Santiago. Peregrinando pela fronteira, recebia do governo argentino uma gleba de terras na Província de Misiones, mas só permaneceria ali até 1887. Latifundiários e pistoleiros atacaram dois de seus filhos e a maioria dos 40 homens que o seguiam, dispostos a matá-lo para roubar caixas com documentos que ele trazia da Europa. Frustrava-se, pois o governo argentino negava-se a auxiliá-lo nas pesquisas.

Acolhido pelo governo paraguaio numa gleba em Itapúa, Bertoni abria mão de 12,5 mil hectares de terras que foram oferecidos para fundar uma colônia de alemães-suiços, a Colônia Guilerme Tell. Demorava 20 dias cada viagem dele a Asunción, mas não desistia e, assim, recomeçava as pesquisas, que só foram prejudicadas pela cheia secular do Rio Paraná em 1889/90. Tudo destruído. A cheia, ele previa, se repetiria em 1983, e aconteceu mesmo.

O jornalista Jackson Lima pesquisou mais a respeito da vida de Bertoni, lembrando que o nome completo do museu é Monumento Científico y Natural Nacional Moisés Bertoni. Segundo ele, Monumento Científico é uma categoria dentro da Administração de Parques Nacionais (APN) do Paraguai e a casa onde morou o cientista é parte de uma reserva de alguns (100) hectares que protege o pouco que restou após a invasão gaúcho-brasileira da soja. “Mas o importante é a casa de madeira onde morou um senhor com uma mulher e 13 filhos. A casa-museu é tudo o que restou da antiga colônia encabeçada por Bertoni e de um sonho de justiça que se foi”, assinala o jornalista.

O cientista temido pelos indígenas porque fazia previsões climáticas em uma minúscula estação meteorológica foi o descobridor da Stévia, planta que originou adoçantes a partir de pesquisas feitas em 1987 e 1988 na Universidade Estadual de Maringá.

Já ouviu falar em Nueva Austrália?
Saiba mais do Sábio Bertoni, visitando Blog de Foz, editado pelo jornalista Jackson Lima. Créditos fotográficos, pela ordem: Blog de Foz, Hugo Dias Lavigne e Moisés Bertoni Center.

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