por 10:40 Política

Terceira via: o que Ciro pode fazer para conseguir eleitorado?

Para compreender melhor a estratégia de Ciro em busca da consolidação como candidato alternativo a Lula e Bolsonaro, a Sputnik Brasil conversou com Graziella Testa, da Escola de Políticas Públicas e Governo da FGV.

Comentando se a publicação de Ciro faria parte de uma estratégia política para consolidar sua candidatura, Graziella Testa afirmou que o ex-ministro pretende alargar seu espectro político de voto em busca de um eleitorado que ele ainda não tem.

“Ao que tudo indica, a estratégia do Ciro Gomes está sendo alargar o espectro político de voto dele. Isto está sendo um pouco delicado na política brasileira por conta deste processo de polarização, mas o que o Ciro está buscando é um eleitorado que ele ainda não tem, o que é um movimento natural para um candidato que já tentou, mas não conseguiu se eleger”, explicou.

Graziella também afirmou que este movimento “foi o mesmo que o Lula fez ao longo das tentativas dele para assumir a Presidência da República. Então, a ideia dele é alargar a possibilidade de eleitorado, e por isso ele quer se aproximar de um eleitorado que é tradicionalmente bolsonarista, e daí ele vai buscar quais são as características destes eleitorados bolsonaristas para poder buscar alcançá-los”.

Chance de Ciro ser um candidato aceitável ao eleitorado evangélico

A gravação de Ciro surgiu logo após o ex-presidente Lula (PT) se encontrar no Rio de Janeiro com Manoel Ferreira, bispo primaz da Assembleia de Deus, uma das maiores igrejas do País.

Falando sobre as possibilidades de Ciro se tornar um candidato aceitável ao eleitorado evangélico, Graziella Testa afirmou que o “eleitorado evangélico, por incrível que pareça, é diverso”.

“A gente tende a alocar os evangélicos como se votassem em conjunto em todos os momentos, em todos os casos. Existe uma estrutura de algumas igrejas evangélicas muito consolidadas que ajuda a orientar o voto, sobretudo em relações proporcionais. Mas a eleição para a Presidência da República, ela é menos dominada por estes grupos […]”, ressaltou.

Além disso, Graziella adicionou que é preciso “pensar sobre quais são os evangélicos que são parte destes grupos, que têm uma forma muito institucional de ver a política […]”.

“Não são todos os evangélicos que fazem parte de grupos deste tipo. Então, dependendo de como for, há inclusive a possibilidade de haver uma racha entre o que alguns evangélicos consideram ser o melhor para o país e o que outros consideram ser outra ideia”, comentou.

Investida religiosa pode fazer com que Ciro perca eleitorado tradicional?

De acordo com a Graziella Testa, o Ciro Gomes está correndo o risco de perder o eleitorado da centro-esquerda, contudo, o cálculo do ex-ministro muito provavelmente tem a ver com o vácuo que é deixado hoje no Brasil no espaço da centro-direita.

“A centro-esquerda já tem lideranças importantes, inclusive lideranças que estão se articulando e que estão conseguindo chegar a conclusões comuns. Na semana passada, nós tivemos um movimento muito interessante, que foi a filiação do Freixo, do Dino e do Molon, então, esta possibilidade de construir uma aliança conjunta na centro-esquerda está se delineando”, explicou.

Para Graziella, o Ciro não quis participar destas conversas e procurou ocupar um espaço que é deixado, sobretudo, pelo eleitorado do PSDB.

“O Ciro não quis participar destas conversas e procurou ocupar um espaço que é deixado, sobretudo, por aquele eleitorado psdbista, por aquele voto muito tradicional em oposição ao PT, mas não de uma direita-conservadora, como é o caso do Bolsonaro, do PSL, enfim, destes partidos que têm uma agenda muito clara do ponto de vista social”, ressaltou.

Além disso, ela afirma que “Ciro corre o risco de perder, mas o cálculo dele é que ele não está disposto a compartilhar na centro-esquerda com as outras lideranças que estão se organizando”.

Doria e Ciro podem concorrer à Presidência da República

O governador de São Paulo, João Doria, também confirmou sua intenção de concorrer à Presidência da República, contudo, Graziela acredita que ele não vai concorrer caso não tenha uma chance real de eleição.

“Eu não acho que ele vá fazer isso se ele não tiver uma chance real de eleição, ele tem buscado, ele tem, inclusive, colocando-se muito claramente em oposição ao governo, muito diferente do que foi em sua campanha, e muito disso é o objetivo eleitoral dele […]”, comentou.

Graziela também apontou as principais vantagens e desvantagens que Ciro tem em relação a Doria.

“O Ciro vem de uma tradição trabalhista, então ele tem mais facilidade de atingir o voto do nordeste, que o Doria não consegue alcançar, e ele está ligado mais a uma centro-esquerda, enquanto que o Doria está localizado à direita, mesmo dentro do contexto do PSDB. Além disso, tem uma questão regional também, que o eleitorado do Doria está bem concentrado em São Paulo, e o Doria enfrenta um desafio de comunicação, que é conseguir expandir sua popularidade para fora do sudeste”, explicou.

Perspectivas dos candidatos Eduardo Leito e Tasso Jereissati

Graziela ainda falou sobre as perspectivas de candidatos como Eduardo Leito e Tasso Jereissati nas próximas eleições presidenciais.

“Tasso Jereissati e Eduardo Leite não podem e nem conseguem lançar de forma contundente suas candidaturas porque sabem que há uma grande resistência dentro do PSDB, que é muito diverso e é um partido que tem tido muita dificuldade em conseguir se articular e formar lideranças que despontassem de forma consensual […]”, comentou.

“Não acho que nenhumas destas decisões vão ser tomadas tão cedo, acredito que vamos conseguir ver configurados estes candidatos de forma efetiva no final deste ano ou no início do ano que vem […]”, afirmou.

Desistência de Luciano Hulk e João Amoedo

Recentemente, Luciano Hulk e João Amoedo desistiram de suas respectivas candidaturas. Estas desistências poderiam favorecer uma “terceira via” para as eleições de 2022?

Sobre o Luciano Hulk e o João Amoedo, eles são candidaturas certamente pouco ligadas aos partidos políticos, o que não significa que elas sejam uma terceira via.

A terceira via é um conceito que vem para vencer a dicotomia entre comunismo e capitalismo, que seriam as únicas pontas possíveis do espectro político na década de 90. Então, ela é muito usada, sobretudo, no final da década de 90, início dos anos 2000, para conseguir definir este estado, que se coloca para algumas coisas, mas não se impõe para tudo em relação ao mercado, neste sentido nós temos opções de terceira via, que são de centro-esquerda e de centro-direita, segundo Graziela.

O apresentador de Tv, Luciano Hulk, participa do Forúm Exame 2019, no Hotel Unique na avenida Brigadeiro Luís Antônio, região dos Jardins em São Paulo

Graziela afirmou que Luciano Hulk e João Amoedo são pessoas que vêm de fora da política, com menos tradição partidária, e que eles têm muito a perder na esfera privada.

“O João, sobretudo, também tem a perder dentro do seu partido, em que tiveram alguns conflitos recentes, e eles estão começando a lidar com as diferenças que aparecem quando você começa a fazer política em conjunto, isso é natural”, explicou.

“O Luciano Hulk deve ter feito um cálculo também que tem muito a ver com a possibilidade de ser eleito ou não, então acho que em um determinado momento, talvez nas eleições passadas, ele tenha visto como uma possibilidade real de ser eleito, agora ele deve ter sentido que esta perspectiva não é tão real, e não topou arriscar tudo aquilo que ele já tinha em prol de algo que seria, talvez, não tão provável”, adicionou.

Ela ainda ressaltou, que nós estamos “enxergando minguar um pouco aquela perspectiva das últimas eleições, de descrédito dos partidos políticos e das instituições”.

Bolsonaro e Lula devem temer candidatura de terceira via?

Sobre a possibilidade de uma terceira candidatura forte para o ano que vem, que não seja o Bolsonaro, nem Lula, ela está aberta e não é algo impossível.

“Acredito que ela [a candidatura] esteja aberta, não é algo impossível. O que temos hoje de intenção de voto muda muito até o ano que vem, isto está muito em aberto”, afirmou.

Até o momento, a maior surpresa foi o fim da “lua de mel” com o governo Bolsonaro, que é algo natural nesta altura do mandato, segundo Graziela.

“A maior surpresa foi o fim da ‘lua de mel’ com o governo Bolsonaro, que é algo natural nesta altura do mandato, [quando] começa a perder apoio popular, mas, por outro lado, houve também um processo de grande descrédito em relação ao presidente por conta da pandemia, em outros lugares do mundo frequentemente foi possível observar que o eleitorado conseguisse medir e recompensar àqueles políticos que fizeram uma boa gestão da pandemia e, por outro lado também, punisse àqueles políticos que não fizeram”, ressaltou.

Graziela também recordou que ainda é cedo para falar sobre as perspectivas, citando que Bolsonaro, até o momento, segue sem partido.

“Para ter estas configurações todas, precisamos saber onde ele vai se alocar politicamente, isso não é trivial, isso vai determinar o tempo de televisão dele, temos que ver também como serão as novas regulamentações das redes sociais, que mudaram muito […]”, recordou.

“Acho que todas as possibilidades estão abertas, não existe apenas Bolsonaro e Lula em nosso momento eleitoral. Há várias possibilidades abertas, e há sim uma possibilidade de ter uma terceira candidatura viável para o segundo turno e, quem sabe, até para a eleição”, concluiu.

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