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Tensão domina fronteira BR-PY

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Lúcio Flávio Moura, Folha de Londrina

Na escuridão da fronteira, o jogo de gato e rato se renova toda madrugada. De um lado, fardas de todos os tipos se espalham pela região com armas em punho, munidas também de muita intuição para identificar o inimigo. O exército da repressão composto por Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal, Receita Federal e Polícia Militar, em franca expansão de homens e de equipamentos, tenta sufocar em algumas das principais portas de entrada terrestre do País um oponente cada vez mais arisco, endinheirado, violento.

Do outro lado, o crime organizado igualmente se fortalece para manter vivo um dos principais mananciais que abastecem a atividade criminosa do Brasil. Para trazer drogas e contrabando do país vizinho, eles bolam rotas de passagem, aliciam com uma pequena parte dos lucros caminhoneiros, barqueiros, jovens desempregados, montam uma rede de informantes, “envenenam” carros, investem em radiocomunicação. Um adversário difícil de enfrentar.

A reportagem da FOLHA percorreu mais de mil quilômetros para entender como está o embate, cada vez mais acirrado. A primeira parada da jornada foi em Dourados (MS), sede da 4ª Brigada de Cavalaria Mecanizada, onde está sendo gerado o embrião do Sistema Integrado de Monitoramento de Fronteiras (Sisfron), o maior projeto de defesa fronteiriça da história. De lá, a viagem seguiu para a conurbação binacional Ponta Porã (MS) e Pedro Juan Caballero (Departamento de Amamby), onde apenas uma avenida separa o território brasileiro do paraguaio.

“Pelo volume de trabalho e pela periculosidade das ações, a delegacia de Ponta Porã é uma escola para se trabalhar na fronteira. Nossa missão aqui é prender os grandes já que a produção não para”, afirma a titular da delegacia, Paloma Brígido. As peculiaridades da fronteira seca, sem barreiras físicas – a avenida principal da conurbação, de 200 mil habitantes, tem letreiros em espanhol de um lado e em português de outro, um truque para saber onde se está pisando – é o maior desafio das forças de segurança, afirma a delegada Paloma, uma comandante que tem à sua disposição um prédio antigo e uma equipe “pra lá de motivada”, embora fontes da delegacia reclamassem do efetivo pequeno diante de tanto trabalho. “Temos que ficar sempre atentos e trocar informações o tempo todo”, explica a delegada.

A fiscalização neste ponto da fronteira é a menos visível no trecho percorrido pela reportagem. Entre a cidade sul-mato-grossense e Guaíra, o caminho é praticamente sem barreiras, incluindo um curto trecho da BR-463 e outro grande trecho da MS 386. Os poucos postos de fiscalização estavam inoperantes. A reportagem não se deparou com nenhuma blitz, tampouco com abordagens individuais. No Mato Grosso do Sul, a fiscalização parecia estar num dia de refresco, o que nunca ocorre na parte paranaense da fronteira, garantem os policiais entre Guaíra e Foz do Iguaçu.

Confrontos entre policiais e criminosos são uma raridade. O quadro de violência não é tão feio quanto muita gente pensa no ponto mais movimentado da parte sul-mato-grossense da fronteira. A repressão baseada mais na inteligência que na presença física vem alcançando bons resultados, ainda que os federais tenham à disposição uma estrutura claramente inferior a Foz e Guaíra.

No balanço da Polícia Federal em 2012, o último divulgado, Ponta Porã aparece nos rankings das maiores apreensões de cocaína e maconha. Naquele ano, a delegacia local apreendeu um total de 20 toneladas de maconha, o maior volume do País. Em volume de cocaína, de 907 quilos, a delegacia da PF na cidade aparece em 7º lugar do País. “Cerca de 90% do trabalho da gente é ligado a narcotráfico. Há muita pistolagem, mas também há muitos homicídios praticados por quadrilhas de traficantes. Os criminosos sabem que a investigação dos crimes é um grande problema por causa da facilidade de se cruzar a fronteira”, afirmou um investigador da Polícia Civil que preferiu não se identificar.

Embora a imagem de cidade violenta, como se fosse uma típica localidade sem ordem e lei habite o imaginário de qualquer paranaense com conhecimento médio sobre a fronteira, Ponta Porã, proporcionalmente tem menos homicídios que alguns municípios banhados pelo Lago de Itaipu. De acordo com dados extraoficiais levantados pela reportagem junto a delegacia regional, foram 76 homicídios no biênio 2012/2013. O índice de 0,8 homicídio por grupo de mil moradores é bem menor que o de Guaíra, São Miguel do Iguaçu Santa Helena e Foz do Iguaçu.

Depois de observar como funciona uma fronteira seca e como o trabalho de inteligência é fundamental para barrar drogas e contrabando antes que os produtos cheguem aos centros consumidores, a reportagem seguiu viagem no sentido sudeste para encontrar um outro tipo de fronteira, ainda mais tensa e com outros elementos, como um lago que separa os dois países, com estradas mais movimentadas e com potencial repressivo muito mais estruturado.

Lago seco dificulta patrulhas

O pedregulho que já está quase aparente na lâmina de água do Lago de Itaipu se tornou um adversário extra para o trabalho das duas unidades do Núcleo Especial de Policiamento Marítimo (Nepom), instalando em bases náuticas localizadas em Guaíra e Foz do Iguaçu. A evaporação provocada pela onda de calor que assolou a região até duas semanas atrás e a necessidade de se reter água da bacia do Rio Paraná no Sudeste fizeram o nível descer quase três metros, um a mais que a menor cota já registrada no reservatório.

Em Guaíra, o agente da Polícia Federal, Carlos Alberto Rocha, olha desolado para a imensidão de água, de onde já se vê a vegetação antes submersa e uma ou outra pedra mais pontiagudas. Ele sabe que as patrulhas diárias do Nepom estão muito prejudicadas, facilitando as coisas para os barqueiros mais experientes contratados pelas quadrilhas. Eles conhecem o rio como ninguém e sabem onde podem passar. “Por questão de segurança e por risco de acidentes, suspendemos as patrulhas por água. Mas intensificamos as ações por terra”, avisa Rocha.

A reportagem acompanhou uma destas operações pelas estradas rurais. O clima é muito tenso e qualquer pessoa encontrada pelo caminho pode estar a serviço dos traficantes ou cigarreiros. Os informantes usam celulares para avisar a chegada dos policiais. Os agentes têm que se deslocar em altíssima velocidade, em uma espécie de rali. É a única maneira de tentar surpreender as quadrilhas que, de acordo com Rocha, mantêm pelo menos 15 portos clandestinos ativos na margem brasileira. Outros tantos foram dinamitados em ações repressivas ou abandonados porque simplesmente com a seca não é mais possível chegar até eles.

Para tentar surpreender um desembarque de drogas ou cigarro, os federais observam, mesmo trafegando com o velocímetro em torno dos 100 km/h, as marcas no chão. Analisam se o rastro é recente e aceleram. Em algumas comunidades de pescadores, é comum os criminosos deixarem a carga em pequenas construções de madeira para carregar carros e caminhões durante a noite. Na operação acompanhada pela FOLHA, muitos destes casebres foram vasculhados, mas nada foi encontrado. A frustração dos policiais é evidente. Mas avisam: a caçada continuará no dia seguinte.

Apreensões de cocaína explodem em Guaíra

Na região onde o Paraná, Mato Grosso do Sul e Paraguai se encontram converge boa parte da tensão que domina a fronteira. Se Foz do Iguaçu é o ponto mais movimentado, com intenso tráfego de veículos e pessoas, Guaíra chama cada vez mais a atenção da repressão contra o narcotráfico e o contrabando por causa do volume de apreensões, além do formato híbrido que conjuga fronteira seca e molhada.

O posto da Polícia Rodoviária Federal (PRF) na BR-163, logo após a monumental ponte Ayrton Senna, é um dos locais estratégicos da Operação Sentinela, que envolve diferentes forças de segurança e que se tornou praticamente permanente nos últimos anos. Ali também transitam com viaturas possantes, os homens fortemente armados do Núcleo Especial de Operações, tropa de elite da PRF e especializados em pegar “peixes grandes”. As vistorias são minuciosas. Qualquer veículo com algum sinal suspeito é averiguado, muitas vezes com partes da lataria e do interior desmontados.

O rigor tem explicação em números. E eles impressionam: de acordo com a Polícia Rodoviária Federal(PRF), foram apreendidas 66 quilos toneladas de cocaína na área de abrangência da Delegacia de Guaíra em 2013, um número 756% maior que o registrado no ano anterior, quando foram barrados apenas 7,7 quilos da droga. O crack também entra cada vez mais pela região. No ano passado, o volume da droga que não passou alcançou quase 220 quilos, contra 54,5 do ano anterior, um aumento de 303%.

Ninguém assume que a movimentação do outro lado da fronteira está relacionado a dados tão contundentes. Ao mesmo tempo, ninguém desmente que possa existir uma nova rota de tráfico viabilizado por facções criminosas brasileiras que estariam se estruturando no Paraguai, instalando inclusive um parque de refino ao norte, nas terras mais despovoadas do país.

Há quem use como argumento contrário a este tese o crescimento robusto também nas apreensões de maconha, que no mesmo período saltou de 3,7 para 11,9 toneladas, índice de crescimento de 222%. Para os céticos da conjectura de uma rota, o crescimento seria explicado pelo reforço na fiscalização – o número de policiais rodoviários federais na região dobrou em alguns anos – e pelo aumento no consumo do lado brasileiro. A favor dos que defendem esta tese, também estão as estatística de apreensões de carga contrabandeada: eletrônicos tiveram alta de 850% no volume apreendido, bebidas de 557% e cigarro de 124,5%.

“O que a gente pode dizer é que o Paraguai, um grande produtor de maconha, também se tornou um corredor de derivados de cocaína”, afirma o inspetor Higor Braga, chefe de policiamento da PRF em Guaíra. “Antes este tipo de droga entrava mais na fronteira com a Bolívia mas não se pode dizer ainda o que está acontecendo”.

Para o delegado da Polícia Federal em Guaíra, Valcley Rubens Vendramin, não é nenhuma novidade o fato de facções criminosas brasileiras atuarem em solo paraguaio. “Creio que uma nova rota é possível porque isso é algo muito dinâmico”. Para o delegado, os rumores podem ter fundamento, embora ele tenha assegurado que não há nenhuma informação objetiva na instituição sobre esta possibilidade. “Contudo, existe sim a chance do refino da cocaína ter migrado para o Paraguai já que, com a forte repressão na Colômbia, as áreas produtoras ficaram mais próximas, na Bolívia e no Peru”, explicou.

Cigarro paraguaio usa mesma logística do tráfico

A Delegacia da Polícia Federal de Guaíra apreende semanalmente duas a três carretas lotadas de cigarro contrabandeado. Cada uma delas leva em média mil caixas de cigarro, com 50 pacotes cada um (uma caixa, portanto, contém, 10 mil unidades). O volume assustador do que não passa é uma pequena parte do que dribla a fiscalização. A produção no Paraguai cresce ano a ano e o principal mercado consumidor é o Brasil.

Com o cigarro brasileiro cada vez mais caro por causa de uma política federal de aumento das alíquotas de impostos, o consumo do produto contrabandeado não para de crescer. “O volume que passa é muito grande. Hoje o contrabando de tabaco tem uma força econômica muito grande”, admite o delegado da PF, Valcley Rubens Vendramin. Só em Guaíra, a PRF apreendeu quase 11,5 milhões de maços de cigarros em 2013, quase sempre transportados em carretas. Em Foz do Iguaçu, o volume é semelhante, mas as quadrilhas preferem trafegar pela BR-277 em veículos de passeio ou utilitários. Nas duas regiões, o Lago de Itaipu é parte da rota, com a ação de jovens barqueiros que abarrotam pequenas embarcações para transpor a fronteira molhada. Nas duas margens, para chegar aos portos clandestinos, as quadrilhas usam veículos com boa tração que se deslocam até a rodovia e seguem viagem ou são usados como intermediários para carregar as carretas.

Todas as autoridades policiais ouvidas pela FOLHA afirmam que contrabandistas e traficantes trabalham em mundo paralelos e que não usam os mesmos portos ou as mesmas embarcações. Mas as fontes concordam que a logística usada pelos criminosos é a mesma, com algumas estratégias em comum. Para evitar perdas, tanto o tráfico contra o contrabando arquitetam rotas e a partir daí montam redes de olheiros, espalhados à margem do lago, nas estradas rurais que ligam os portos clandestinos às rodovias. São normalmente jovens cooptados em favelas e em bairros pobres, que ganham R$ 100 por dia. Eles usam motos e radiocomunicadores. Não portam armas para chamar a atenção. Há ainda os que ficam nas copas das árvores na beira das rodovias, monitorando a movimentação das viaturas. São peças-chave no jogo de gato e rato que se transformou a região.

Outra figura que também marca tanto a logística dos cigarreiros quanto a dos traficantes, é o batedor. Da mesma maneira que os olheiros, os batedores são os olhos das quadrilhas na estrada. Nas abordagens das viaturas, tem a missão de atrapalhar a ação policial. Os policiais rodoviários federais alertam que o trabalho é mais difícil a cada dia, especialmente pela agressividade dos batedores, que jogam os veículos contra as viaturas.

A organização das quadrilhas permitem também o pagamento de fianças quase que automaticamente. Em um dos casos, a pena aplicada foi de R$ 50 mil, conta um patrulheiro, e menos de duas horas após o flagrante, já tinha sido paga. Em muitos casos, presos à burocracia, os policiais ainda nem acabaram de concluir os trâmites do flagrante e um advogado já está a postos para defender o cliente.

‘Raciocínio do tráfico e do contrabando é econômico’

Para o consultor de segurança, o advogado Marcus Vinicius Reis, especialista em estudos de combate ao crime organizado transnacional e em segurança mundial, o grande volume de drogas que circula nas fronteiras da América do Sul é consequência de um bom momento para o negócio. O primeiro, segundo ele, é que o custo de produção ao migrar da Colômbia para a Bolívia e o Peru caiu significativamente, o que deixou o negócio ainda mais lucrativo. Além da mão de obra mais barata na colheita de folha de coca, contribuiu para a redução dos gastos das quadrilhas o preço mais baixo de insumos de refino produzidos no Brasil, como o éter e o querosene. “Desta maneira, as quadrilhas compram drogas no Paraguai por US$ 2 mil o quilo, o que pode gerar um faturamento 25 vezes maior que este nos maiores centros consumidores como São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília”. Reis destaca também uma forte demanda por todos os tipos de drogas no Brasil desde o início deste século, quando o poder aquisitivo de todas as classes avançou. “Não há outro caminho senão no investimento forte em repressão na fronteira, que é o tipo de repressão mais barato e com maiores chances de êxito. O custo é alto mas ainda mais alto é o custo do tratamento de dependentes no sistema de saúde e o das vítimas da violência no país inteiro”.

O especialista criticou a falta de integração das forças de segurança e a lentidão dos governos para elaborarem acordos que permitam políticas conjuntas de repressão.

Para o coordenador do Grupo de Estudo da Criminalidade da Universidade Estadual do Oeste do Paraná, Jorge da Silva Giulian, o efetivo de repressão na região de Foz do Iguaçu, que ele considera “gigantesco”, como diversos tipos de efetivos diferentes, afetou os moradores da fronteira. “Todo este aparato traz uma sensação de insegurança muito grande e não combate a origem do problema, que é social”. Para ele, enquanto a cidade tiver dinheiro de atividades ilícitas irrigando a economia formal, gerando renda para quem não tem perspectiva, os moradores vão continuar fazendo vistas grossas para a situação. “Os governos estaduais e federais nos devem um tratamento diferenciado. Sofremos os efeitos de uma situação nacional e não temos sequer um plano de desenvolvimento para formar uma base econômica capaz de competir com o dinheiro do crime. Quem serve ao tráfico e ao contrabando, deve ter uma alternativa de vida decente. Hoje eles não têm”, criticou.