Escrito por 10:56 Brasil, Educação

Professora brasileira de ensino bilíngue em libras e português está entre os finalistas do Global Teacher Prize

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A professora Doani Emanuela Bertan está entre os dez finalistas do Global Teacher Prize 2020, feito pela Varkey Foundation em parceria com a Unesco. O anúncio foi divulgado nesta quarta-feira (4). A brasileira é professora de educação inclusiva e português e foi selecionada entre 12 mil inscritos, de mais de 140 países. O anúncio do vencedor será em 3 de dezembro. O prêmio é de US$ 1 milhão.

Além de Doani, outros dois brasileiros estavam entre os pré-selecionados ao Global Teacher Prize: Francisco Celso Freitas, professor do sistema socioeducativo do DF; e Lília Melo, da periferia de Belém (PA).

“Parabéns para Doani Emanuela Bertan por estar entre os 10 finalistas de uma lista extensa de professores talentosos e dedicados. Espero que sua história inspire aqueles que desejam se tornar professores e também destaque o incrível trabalho realizado diariamente pelos professores brasileiros e de todo o mundo”, afirma Stefania Giannini, diretora-geral adjunta da Unesco para a Educação, entidade parceira da premiação.

Ensino bilíngue libras-português

Doani dá aulas em turmas mistas do ensino fundamental em uma escola municipal de Campinas (SP). Este ano, ela leciona em uma turma do terceiro ano que inclui nove alunos surdos e dois com déficit de audição, que precisam usar aparelhos para ouvir melhor. Com eles, está tornando a alfabetização bilíngue em Língua Brasileira de Sinais (Libras) e português possível. Seja para alunos ouvintes ou surdos, todos aprendem a se comunicar por sinais.

A grande estratégia usada por Doani foi gravar vídeos para responder às dúvidas dos alunos, que chegavam por WhatsApp. Sem ter tempo de responder a todas na hora em que chegavam, ela passou a bolar roteiros de vídeos educativos em Libras sobre o conteúdo de sala de aula, ganhando assim tempo e fazendo com que o conteúdo chegasse a mais pessoas.

Com a aceitação de estudantes e pais, que diziam aprender cada vez mais vocabulário em Libras, ela foi aprimorando a ideia. Assim, estudantes surdos passaram a compreenderem melhor o conteúdo da sala de aula. A narração em português sobre as imagens tornaram possível que os ouvintes associassem o conteúdo aos sinais em Libras, fechando o ciclo da inclusão e do ensino bilíngue.

“Vivemos uma sociedade hoje com um pouco mais de empatia do que antes. A gente tem uma luta muito grande para quebrar o paradigma de que a pessoa deficiente é uma pessoa ‘não eficiente’. Ela tem sua eficiência, mas também tem que saber olhar onde está essa eficiência”, reflete Doani.

“Hoje temos uma proposta de educação bilíngue voltada para surdos porque ele não escuta, é fato, mas essa não é a maior limitação. A maior limitação é o fato de eles não fazerem parte do grupo que fala Libras. O entrave acontece na barreira da comunicação”, afirma a professora.

“Quando é oferecido ao sujeito surdo a proposta ter libras como primeira língua e português como segunda, existe o prestígio linguístico entre elas. No caso das crianças, [o ensino ocorre] com maior prazer possível, com bastante alegria, para que eles tenham autonomia e queiram voltar para sala de aula no dia seguinte”, fala.

As iniciativas de Doani não estão restritas aos alunos da escola de Campinas. A prática que nasceu na sala oito, de Doani, na Escola Municipal Julio Mesquita Filho, foi “transportada” para a internet. Virou o canal de vídeos Sala8, que existe há três anos. Segundo a professora, os vídeos contam com mais de mil visualizações diárias.

Caso seja anunciada como a grande vencedora do Global Teacher Prize, Doani diz que pretende aplicar o prêmio na expansão do canal da internet, ampliando conteúdo, e também treinar e profissionalizar surdos em produção e edição de vídeos, tornando a própria confecção do canal em uma ferramenta de inclusão, e abrindo portas para o mercado de trabalho.

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