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POR QUE A REELEIÇÃO DE LULA. Por Mino Carta

POR QUE A REELEIÇÃO DE LULA

 

O presidente até agora não aproveitou as melhores chances, mas ainda tem a de ser mediador no País dividido abruptamente entre ricos e pobres. Por Mino Carta

 

Há quatro anos CartaCapital fez sua opção, declarou explicitamente preferência pela candidatura Lula no confronto com José Serra. Agora volta a escolher o presidente no embate contra Geraldo Alckmin. Em 2002, não faltou quem condenasse nosso comportamento, por considerá-lo impróprio de um jornalismo isento e pluralista.

 

Essas definições às vésperas de uma eleição são comuns, no entanto, nas melhores mídias do mundo. De resto, aqui mesmo, o O Estado de S. Paulo apoiou abertamente a candidatura de Serra, ao contrário dos demais que alardeavam, e impávidos alardeiam, uma eqüidistância inexistente. Isto, em castiço, chama-se hipocrisia.

 

Dependesse dos donos da mídia nativa, não sobraria pedra sobre pedra do governo que se encerra. Outros senhores, mais céticos, afirmam que tudo dá na mesma. CartaCapital entende que a prática da política há de ser pragmática, donde encaramos a reeleição como mais conveniente para o País.

 

Esta revista não se furtou, nos últimos quatro anos, às críticas, às vezes contundentes, ao governo de Luiz Inácio Lula da Silva. Fomos desabridamente contrários à política econômica da parceria Palocci-Meirelles e não hesitamos em expor a nossa insatisfação com a política social, tímida demais do nosso ponto de vista na terra vice-campeã mundial em má distribuição de renda.

 

Condenamos peremptoriamente a política relativa aos transgênicos, a favorecer a Monsanto, a qual, está claro, nunca mais anunciou em CartaCapital. Na área da comunicação denunciamos amiúde a submissão aos interesses da Globo, tão bem defendidos pelo ministro Hélio Costa, e nunca deixamos de exigir a apuração rigorosa das malversações de todos os gêneros.

 

Política, contudo, não se faz para bochechar sangue humano. Tampouco jornalismo. Justiça, em compensação, impõe fidelidade canina ao preceito inalterável: in dubio pro reo. Ninguém haverá de ser sentenciado sem provas, e estas faltaram à inquisição antimensalão, conduzida pelos torquemadas de plantão com o transparente propósito de solapar a reeleição. Ou mesmo de impedi-la por alguma forma jurássica de violência, como ainda hoje invoca Fernando Henrique, saudoso de Carlos Lacerda.

 

O governo Lula ficou longe daquele que teríamos desejado. Tem, entretanto, seu trunfo, a própria eleição de um ex-metalúrgico, retirante nordestino, para a Presidência da República, a despeito da ojeriza, quando não o ódio, que nutrem por ele graúdos de vários calibres, e aspirantes a graúdos.

 

O povo brasileiro identifica-se com um igual, e isto explica a reeleição iminente. Já escrevi, e repito: a mídia que se diz isenta deveria meditar sobre seu fracasso. Esforçou-se com empenho máximo para fazer buracos n’água.

 

Volta e meia, alguém aparece para nos acusar de “lulistas” e “petistas”. Não somos nem uma coisa nem, muito menos, outra. Pessoalmente, tenho a honra de ter sido o primeiro profissional a perceber no presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo e Diadema, faz 29 anos, o poder de liderança, o QI alto, o carisma de alguém habilitado a fazer história.

 

Antes de mais nada, sinto por Lula uma ótima amizade, embora nem sempre em perfeita concórdia. O apoio de CartaCapital nasce apenas da convicção de que Lula ainda dispõe de documentos em dia para exercer a mediação, mais cedo ou mais tarde inevitável, entre ricos e pobres, poucos aqueles, muitíssimos estes, até a exorbitância.

 

Quem não percebe a gravidade da situação a meu ver vive em um limbo atroz. O conflito de classe, como se deu na Europa, entre 1800 e 1900, nem seria imaginável por aqui. A industrialização por lá criou um proletariado que almejava as benesses burguesas e, portanto, partidos de esquerda autênticos e sindicatos fortes. Em boa parte, conseguiram o que queriam.

 

Observa-se, aqui, outro fenômeno. Retas opostas que miram no infinito e na incerteza, uma é o caminho dos privilegiados, de matizes bem distintos, neste canto onde quem ganha dez salários mínimos tem direito a se apresentar como classe média. Média? E os donos do poder? E os grandes executivos, os grandes jornalistas, os grandes publicitários, os grandes futebolistas? Grandes? Bah…

 

Eis a aristocracia verde-amarela. Outra reta é caminho de todos os demais, maioria de formigueiro, enquanto no meio, entre a primeira e a segunda, fermenta a miséria, avassaladora, implacável, com o impulso negativo, e decisivo, do crescimento pífio. Insuficiente. A cada ano, o abismo aprofunda-se, e é nele que medram o PCC, o tráfico dos morros, a espantosa insegurança das nossas cidades.

 

E medram o desalento, o desencanto, a desilusão. E o ressentimento, o rancor, a raiva. Soletra-se que o povo brasileiro é cordial, para significar resignado. Submisso. Não será para sempre, e claros sinais da insatisfação estão no ar, em meio à despolitização progressiva.

 

O Brasil não precisa de salvadores da pátria, precisa é de um mediador. Para tanto, na arena, Lula é o mais qualificado. Resta ver se saberá estar à altura da tarefa, de verdade imponente. CartaCapital faz a sua aposta, com a devida cautela. Há quem sustente que pretendemos compensações. Troca alguma, é óbvio.

 

Do governo gostaríamos apenas de isonomia na distribuição da publicidade governista. Foi o que esperamos em 2003. Vínhamos de largo período de vacas da savana, graças ao democrata FHC, que praticamente nos negou seus anúncios oito anos a fio. Não é que a isonomia tenha sempre vigorado durante os quatro anos lulistas. Por exemplo, CartaCapital faturou menos junto ao governo do que Exame, da Editora Abril, revista quinzenal de business. A nossa é semanal de política, economia e cultura. Que, aliás está a ser inventada nos Estados Unidos pela Time.

 

O novo diretor do news magazine anuncia a mudança radical em tempos de internet: vai investir em opinião e análise, eventualmente em informação exclusiva, e sair às sextas-feiras, em lugar das segundas. Bem, o mundo se curva. Já o Brasil… Experimento o impulso de recontar uma história deplorável, capaz de mostrar certas dificuldades da nossa relação com um governo que, segundo nossos solertes detratores (caluniadores?), nos beneficia com generosidade infinda.

 

Quando Tarso Genro ocupou a pasta da Educação, a Editora Confiança apresentou o projeto de publicação mensal destinada ao ensino médio. Foi recebido com entusiasmo. Mas quando chegou a hora de pôr os pingos nos is, ente atônitos e perplexos, os representantes da editora de CartaCapital tiveram de sentar-se ao lado dos colegas de Veja, Época e IstoÉ.

 

O coordenador ministerial da reunião extraiu da pasta o número zero daquela que teria de ser Carta na Escola e disse: eis o modelo, façam igual, cada um a cada semana. A quadratura do círculo: o mês, como se sabe, tem quatro semanas. Claro incentivo à cópia e consagração da falta de ética. E demonstração da subserviência aos interesses dos senhores da mídia.

 

A Editora Confiança decidiu bancar Carta na Escola por conta própria, e a mensal completa nestes dias nove meses de vida. Do Ministério da Educação queremos distância.

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