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‘Não há razão para falar com Dilma e Lula após impeachment’, diz Geddel

Geddel

Às vésperas da votação, no Senado, do relatório sobre o impeachment da presidente afastada Dilma Rousseff, o ministro da Secretaria de Governo, Geddel Vieira Lima, já dá a fatura como liquidada e afirma que o governo interino não tem “pauta ou assunto” para tratar com a petista ou com o seu antecessor, Luiz Inácio Lula da Silva, após a conclusão do processo.

“Conversar sobre o quê? Eles voltaram ao sectarismo anterior com o discurso do golpe”, disse. Em entrevista à Folha, Geddel reconheceu que a situação do deputado afastado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) é “difícil” no plenário da Câmara e criticou os partidos de oposição por fazerem “escada em cima da desgraça” do peemedebista.

Ele defendeu que os partidos da base aliada, incluindo PSDB e DEM, formem uma espécie de coalizão para a disputa presidencial de 2018 e acha que o PMDB pode abrir mão da disputa pelo controle da Câmara em 2017.

A fatura do impeachment da presidente afastada Dilma Rousseff está liquidada?
Eu acho que isso já está definido. O meu sentimento é que hoje o impeachment faz mais de 60 votos a favor do relatório aprovado pela comissão especial do Senado.

E a cassação de Eduardo Cunha está definida?
É uma votação difícil para ele em plenário, mas não tenho o número porque não estou contabilizando. Em relação ao impeachment, estou contabilizando. Há assuntos que o governo interino acompanha e há outros que ele não acompanha.

Caso Dilma Rousseff seja de fato afastada, o governo federal chamará a petista para conversar?
Conversar sobre o quê? Eles voltaram ao sectarismo anterior com o discurso do golpe. Essa conversa se dará no Congresso Nacional, na negociação política entre líderes da base aliada de projeto a projeto. Não vejo razão para conversar. A não ser que tenha uma manifestação de líderes da oposição que gostariam de abrir um canal com o governo no sentido de pautas para o país.

E com o ex-presidente Lula?
Não é que [o governo Temer] não conversará de forma preconceituosa. É que não tem pauta ou agenda para conversar.

Há uma avaliação de que seria melhor para o governo interino que a votação da cassação de Eduardo Cunha ocorra depois do processo de impeachment de Dilma Rousseff para evitar uma eventual retaliação do peemedebista.
Oposição que não faz acusação não tem papel, tem de fazer isso mesmo, ficar especulando. Em ano eleitoral, infelizmente ainda tem muita gente que gosta de fazer escada em cima da desgraça dos outros. E isso é para aparecer para as suas bases eleitorais.

Desgraça com quem?
No caso específico, com o Eduardo Cunha, se é sobre ele que eles estão falando. O governo interino não tem participação nisso. Esse é um problema da Câmara dos Deputados. É difícil manter quórum elevado na Câmara dos Deputados e no Senado Federal quando se tem um processo eleitoral em curso. Isso serve para os assuntos de interesse do governo federal como também para o eventual processo do Eduardo Cunha.

O senhor foi congressista e conhece a Câmara. Hoje, se o senhor fosse deputado federal, votaria contra ou a favor da cassação de Cunha?
Eu não sou deputado federal. E se estou dizendo que isso não diz respeito ao governo federal, como você quer que um ministro da articulação política emita um juízo de valor de um assunto que não é da responsabilidade do Palácio do Planalto?

Concluído o processo de impeachment, o presidente interino fará um discurso à nação em rede nacional?
Acho que ele deve, acho que é obrigatório para falar à sociedade brasileira sobre a nova realidade.

Por que ainda não foi indicado o novo ministro do Turismo?
O secretário-executivo está desempenhando bem o seu papel. Não há nenhuma sangria desatada para a nomeação do ministro e o presidente Michel Temer, de uma forma cautelosa, achou melhor aguardar a manifestação da Suprema Corte sobre uma indicação feita pela bancada do PMDB na Câmara dos Deputados.

Se a Suprema Corte arquivar acusação contra o deputado federal Marx Beltrão (PMDB-AL) [réu por falsidade ideológica], ele será o ministro?
Ele será o ministro.

Na eleição para o comando da Câmara, no mês passado, o Planalto defendeu que o PMDB não disputasse, porque o partido já detém o controle do governo federal e do Senado. Para 2017, a posição será a mesma?
Eu acho que 2017 será tratado em 2017, mas acho que o PMDB pode estar disposto a abrir espaço para que outros partidos compreendam que este é um governo efetivamente de todos.

O senhor defende uma coalizão com o PSDB para a disputa de 2018?
Eu defendo que, em dando tudo certo com o país, que a gente construa uma aliança que possa viabilizar a continuidade de avanços e que dê tranquilidade ao Brasil para que ele possa retomar o desenvolvimento, manter a economia estável, gerar emprego e investir na área social.

Uma candidatura do ex-presidente Lula ameaça os planos do governo de fazer um sucessor?
Nada neste processo eu vejo como uma ameaça. Isso é uma decisão que no momento oportuno a população tomará de maneira soberana. Se o país entrar nos trilhos e o governo federal sinalizar à sociedade que está dando um rumo ao país, o natural e o lógico é que o candidato que surgir dessa coalizão tenha favoritismo estampado em sua candidatura.

O Planalto afastou o ex-ministro Romero Jucá (PMDB-RR) por diálogos em relação à Lava Jato, mas escolheu André Moura (PSC-SE) como líder do governo, mesmo ele respondendo a um inquérito por tentativa de homicídio. Foram usadas réguas diferentes para cada caso?
O Romero Jucá pediu para sair do governo de uma forma que ele considerou preventiva quando da divulgação do áudio, não porque ele estava respondendo a um inquérito. A visão do presidente interino é que inquérito é investigar e condenação é outro aspecto. O inquérito do André Moura é anterior a ele ser deputado federal e o povo de Sergipe o elegeu. Ele está no pleno exercício do mandato dele e, portanto, com direito a exercer qualquer função e, aliás, tem feito um trabalho que tem agradado o governo federal.

O senhor defende o retorno do senador Romero Jucá (PMDB-RR) para o comando do Ministério do Planejamento?

Eu defendo que se o senador se sentir à vontade, não vejo nenhum impedimento para ele voltar. Ele que estabeleceu os parâmetros dele com o presidente Michel Temer em relação ao Ministério Público.

O presidente interino se envolverá nas disputas municipais deste ano?

Não, definitivamente não. Em nenhum município, salvo se houver uma disputa entre um integrante da base aliada e um de um partido de oposição. Nos locais onde houver mais de um candidato da base aliada, ele não se envolverá e acho que, fora de seus redutos eleitorais, os ministros não deverão se envolver. Nos estados onde o ministro tiver tradição histórica de militância política, é natural que se ele envolva.