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Perfil da família Marinho

Perfil da família Marinho

por Marcelo Salles

As Organizações Globo controlam o maior conglomerado de comunicação do Brasil. O faturamento anual de suas cem empresas chega a 2 bilhões de dólares. Além dos jornais O Globo, Extra e Diário de São Paulo, as rádios Globo e CBN e a revista Época, outras empresas do grupo são Inbasa (Indústria Brasileira de Alimentos), a seguradora Roma, o Banco Roma, a imobiliária Roma, as gravadoras Som Livre e Comercial RGE, a NET e a Sky Brasil.

Em 1911, Irineu Marinho Coelho de Barros fundou o jornal A Noite. Em 1925 lançou O Globo e, em menos de um mês, morreu de infarto. O jornal ficou com a viúva, Francisca Pisani Barros, que não permitiu que Roberto Marinho, o filho mais velho, assumisse a empresa, deixando o comando nas mãos de Euricles de Matos.

Irineu e Francisca tiveram cinco filhos Roberto, Heloísa, Ricardo, Hilda e Rogério. Em 1931, com a morte de Euricles, Roberto assume O Globo, que então não era importante. A importância seria depois alcançada pela conjugação de dois fatores a decadência do Jornal do Brasil e o surgimento da Rede Globo de Televisão.

Em 1962 constitui-se a sociedade por cotas limitadas com capital inicial de 500 milhões cruzeiros (cerca de 2,5 milhões de dólares). Estava oficialmente criada a TV Globo Ltda. Menos de um mês depois de constituída a sociedade, Roberto Marinho assinou com o grupo Time-Life dois contratos em Nova York. Antes disso, entretanto, os dólares começaram a irrigar aquela que se transformaria na maior empresa de comunicação do Brasil. No dia 16 de julho de 1962, a TV Globo recebeu do grupo Time-Life Incorporated a soma de 1,5 milhão de dólares.

Em agosto de 1965, o cidadão estadunidense Joseph Wallach veio trabalhar como “assessor técnico” da Time-Life junto à TV Globo. Segundo o escritor Roméro da Costa Machado, que trabalhou durante dez anos na Fundação Roberto Marinho, Wallach era o homem que defendia os interesses do Departamento de Estado Americano no Brasil. Rubens Amaral, diretor-geral da TV Globo, chegou a se demitir por discordar da ingerência de Joseph Wallach na empresa.

No mesmo ano foi criada uma comissão parlamentar de inquérito (CPI) para investigar as relações da TV Globo com o grupo Time-Life, já que o artigo 160 da Constituição, impedia a entrada de capital estrangeiro em empresas de comunicação brasileiras. Questionado pelo então deputado Djalma Marinho, relator da CPI, sobre qual banco intermediava as remessas de dólares do grupo Time-Life, a resposta de Joseph Wallach foi: “É difícil, eu sei, senhor deputado, mas prefiro não responder. O advogado me disse que não sou obrigado a dizer, falar alguma coisa que seja contra interesse da empresa.”

A rigor, as denúncias eram suficientes para a cassação imediata da concessão. No entanto, o presidente da República, Costa e Silva, e o chefe da Casa Civil, Golbery do Couto e Silva, decidiram que não houve irregularidades. Perante a lei, a parceria foi dissolvida em 1969, quando a Globo já tinha a força e os dólares necessários para seguir adiante. A partir daí observou-se a escalada contínua da TV Globo, que evoluiu para a Rede Globo. Hoje, a empresa possui cerca de 20.000 funcionários, cinco estações próprias de transmissão (Rio, Belo Horizonte, São Paulo, Brasília e Pernambuco) e 118 afiliadas em todo o Brasil.

No ar pela primeira vez no dia 26 de abril de 1965, a Globo teve um salto significativo na audiência a partir da cobertura da enchente que deixou o Rio de Janeiro debaixo da água em 1966. Pouco depois, um incêndio destruiu as instalações da empresa em São Paulo. O seguro pago garantiu um bom retorno, de modo que suas instalações no Rio de Janeiro foram reestruturadas.

Durante a ditadura, a Globo sempre manteve uma relação cordial com o sistema repressor. Isso fica claro nas declarações do então ministro da Justiça, Armando Falcão, no documentário Muito Além do Cidadão Kane “O jornalista Roberto Marinho foi revolucionário de primeira hora e continuou, portanto, como revolucionário a apoiar os governos da revolução”.

No mesmo documentário, Leonel Brizola acusou Roberto Marinho de ser “o Stálin das comunicações. Quem não concorda com ele, ele manda pra Sibéria. A Sibéria do gelo, a Sibéria do esquecimento”. E Chico Buarque ressaltou a disposição da Globo em apoiar a ditadura “A censura proibia algumas músicas. A TV se encarregou de ser mais realista que o rei e proibiu o meu nome”.

As empresas das Organizações Globo exaltaram em diversos momentos o regime de exceção. O expediente do anticomunismo foi usado várias vezes, recurso marcado na manchete do dia 1 o de abril de 1964 do O Globo “Fugiu Goulart e democracia está sendo restabelecida”. Num editorial de agosto de 1961, o jornal da família Marinho refere-se a Che Guevara como “agitador internacional, representante de um governo que financia a subversão”.

Sempre ao lado dos governos, a Globo foi se tornando poderosa. Muito poderosa. Tão poderosa que um dos ministros do governo Fernando Henrique perguntou, em público, numa das renegociações da dívida da empresa “Quanto vale uma empresa que diz como o brasileiro pensa ?” Ele não estava exagerando. Durante o Fórum Social Mundial, em janeiro deste ano, o assessor especial da Presidência da República, Carlos Tibúrcio, disse que o governo Lula não fazia as mudanças que precisava fazer “porque quinze dias de Jornal Nacional inviabilizam o governo nacional e internacionalmente”.

Alguns casos ficaram marcados na memória do país e, em todos eles, a empresa da família Marinho desfrutou de lucros – financeiros ou políticos. No “Escândalo do Pró-Consult”, Roberto Marinho instruiu seus funcionários para divulgar que Moreira Franco estava na frente de Leonel Brizola nas eleições para governador de 1982. A manipulação foi descoberta a tempo, e as equipes da Globo foram hostilizadas nas ruas. Depois, em 1984, um grande movimento toma as ruas Diretas Já. A Globo, enquanto pôde, não transmitiu, chegando ao ponto de sugerir no Jornal Nacional que as 500.000 pessoas que estavam na praça da Sé, em São Paulo, comemoravam o aniversário da cidade.

Outro exemplo marcante foi o caso da NEC do Brasil: antes das eleições indiretas de 1984, Roberto Marinho almoçou com Tancredo Neves e o fez prometer que, se eleito, nomearia Antônio Carlos Magalhães ministro das Comunicações. Tancredo é eleito, mas morre na véspera da posse e Sarney assume em seu lugar, mantém o acordo e nomeia ACM. Uma das primeiras medidas do novo ministro foi suspender as encomendas do governo com a NEC do Brasil. A empresa, que valia cerca de 380 milhões de dólares, passou a valer muito pouco, pois era basicamente sustentada por esse contrato com o governo. Então, a Globo comprou a NEC por 1 milhão de reais e ACM restabeleceu as encomendas. Automaticamente, a empresa voltou a valer o que valia antes. Um lucro de 34.200 por cento.

O último exemplo, talvez o mais famoso, foi a edição do debate entre Collor e Lula, nas eleições de 1989. Na véspera da votação, a Globo exibiu um compacto de seis minutos contendo os piores momentos de Lula e os melhores momentos de Collor, sendo que este teve um minuto e dez segundos a mais que o candidato do PT.

Hoje em dia, muita coisa mudou no gerenciamento das Organizações Globo, sobretudo após a abertura do capital da empresa. Embora os herdeiros até pouco tempo não se falassem, João Roberto segue à frente do jornal, Roberto Irineu da televisão e José Roberto do sistema de rádio. As Organizações Globo possuem, hoje, uma dívida que gira em torno de 6 bilhões de reais e não há nenhum sinal do governo de que pretenda executar a parte que cabe ao bolso dos brasileiros, já que boa parte desse montante foi contraída junto ao setor público. No entanto, isso não significa dizer que a Globo esteja enfraquecida politicamente. Prova disso foi a indicação recente do ministro das Comunicações, Hélio Costa (PMDB-MG), num acordo costurado com José Sarney, o ex-presidente que deu noventa concessões de rádio e televisão, sendo duas para ele mesmo. Sarney é também dono da afiliada da Rede Globo no Maranhão. As medidas tomadas por Hélio Costa envolvem o abandono das pesquisas de um modelo essencialmente nacional de televisão digital e seu posicionamento contrário aos softwares livres, que economizariam 1,1 bilhão de reais por ano aos cofres públicos, segundo o Instituto Nacional de Tecnologia da Informação.

Enfim, o poder que a Globo exerce hoje no Brasil talvez seja melhor compreendido a partir das palavras da psicanalista Maria Rita Kehl, em depoimento ao documentário Muito Além do Cidadão Kane: “A Globo conseguiu, melhor do que qualquer política repressiva, de proibição, de censura, alterar a consciência do brasileiro sobre sua condição”.

Marcelo Salles é coordenador do www.fazendomedia.com e correspondente da Caros Amigos no Rio de Janeiro.

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Perfil da família Marinho

As Organizações Globo controlam o maior conglomerado de comunicação do Brasil. O faturamento anual de suas cem empresas chega a 2 bilhões de dólares. Além dos jornais O Globo, Extra e Diário de São Paulo, as rádios Globo e CBN e a revista Época, outras empresas do grupo são Inbasa (Indústria Brasileira de Alimentos), a seguradora Roma, o Banco Roma, a imobiliária Roma, as gravadoras Som Livre e Comercial RGE, a NET e a Sky Brasil.de Marcelo Salles, na Caros Amigos. Leia artigo completo em Reportagens.

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