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O PREÇO DA CRISE

O Banco Central comanda uma adaptação passiva à crise, quando seria necessária uma reação ativa. Reagimos ativamente à Depressão de 1929, iniciando o ciclo de industrialização que alterou a nossa base produtiva e a nossa inserção internacional; fomos os primeiros a nos recuperar e, com o tempo, chegamos a constituir a oitava maior economia industrial do mundo. No choque de juros de 1981, ao contrário, optamos por nos adaptar passivamente, fazendo sucessivos ajustamentos para pagar dívidas ilegítimas e impagáveis; mergulhamos em prolongada crise e até hoje não reencontramos o caminho de um desenvolvimento sustentado. – trecho do artigo "O preço da crise", de Cesar Benjamin. Leia aqui a sua íntegra.

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O PREÇO DA CRISE

O preço da crise

por Cesar Benjamin

A economia brasileira caminha para um período muito difícil, mas há uma recusa quase geral em reconhecer isso. Um retrato desse estado de alienação foi a patética reunião em que o presidente da República e 37 ministros decidiram combater a crise por meio de uma campanha publicitária.

Além deles, boa parte da imprensa, da opinião pública e da intelectualidade insiste em minimizar as dificuldades que se aproximam. Não me refiro a nada que possa vir a acontecer daqui a alguns anos. Refiro-me a meados do primeiro semestre de 2009.

Obtivemos resultados mediocremente bons nos últimos anos porque decidimos tirar o máximo proveito do ciclo ascendente do capital especulativo internacional; altas taxas de juros atraíram esse capital, propiciando algumas benesses, mas criando um passivo externo de curto prazo que paira sobre nós como um pesadelo. Inventamos uma variante da "doença holandesa", de natureza financeira, que manteve apreciado o câmbio, aumentando o poder aquisitivo no curto prazo, mas comprometendo o sistema produtivo e a competitividade internacional. Nós nos beneficiamos do alto preço das commodities, típico do ciclo especulativo, aceitando uma especialização regressiva na pauta de exportações. Deixamos escapar, pela conta de serviços e rendas, quase todo o ganho na esfera comercial. Concluímos a desregulamentação do fluxo de capitais, dissolvendo o espaço monetário nacional e abrindo mão de preciosos graus de liberdade para fazer políticas de Estado.

Formamos reservas atraindo capital de curto prazo. Para compensar o câmbio ruim, estimulamos que as empresas entrassem pesadamente na especulação com moedas.

Obtivemos, assim, um desempenho paradoxal: indicadores conjunturais melhoraram, enquanto a nossa posição estrutural piorava. Fomos mais ou menos bem no período de bonança simplesmente porque o mundo ia bem, mas continuamos a perder posições relativas.

A euforia especulativa acabou. A balança comercial está em queda livre, permitindo antever um grande déficit externo no próximo ano, em um contexto em que seu financiamento será caro e difícil. Ficaremos sujeitos a um ataque fulminante contra as reservas. Os balanços de fim de ano mostrarão quantas empresas tiveram prejuízos em operações especulativas. O investimento diminuirá.

Com a súbita desvalorização cambial, os salários reais sofrerão grande perda.

O Banco Central comanda uma adaptação passiva à crise, quando seria necessária uma reação ativa. Reagimos ativamente à Depressão de 1929, iniciando o ciclo de industrialização que alterou a nossa base produtiva e a nossa inserção internacional; fomos os primeiros a nos recuperar e, com o tempo, chegamos a constituir a oitava maior economia industrial do mundo. No choque de juros de 1981, ao contrário, optamos por nos adaptar passivamente, fazendo sucessivos ajustamentos para pagar dívidas ilegítimas e impagáveis; mergulhamos em prolongada crise e até hoje não reencontramos o caminho de um desenvolvimento sustentado.

Repetiremos a trajetória da adaptação passiva, pois nos tornamos uma sociedade de vontade fraca, incapaz de enfrentar desafios em nome de um projeto de longo prazo, que sempre tem custos. Passamos a valorizar os caminhos de menor resistência, as adaptações oportunistas, as pequenas soluções. Formamos uma geração de políticos espertos, habilíssimos no marketing, porém incapazes de compreender processos históricos, tomar grandes iniciativas e mobilizar as energias da nação. O preço da crise, para nós, será muito alto.

Cesar Benjamin, 53, editor da Editora Contraponto e doutor honoris causa da Universidade Bicentenária de Aragua (Venezuela), é autor de "Bom Combate" (Contraponto, 2006).

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