Arquivos

Categorias

Morre Tabaré Vázquez, 1º presidente de esquerda da história do Uruguai

Morreu na madrugada de domingo (6), de câncer no pulmão, o ex-presidente do Uruguai Tabaré Vázquez, que comandou o país por dois mandatos. Ele tinha 80 anos.

Desde que recebera a notícia de que a doença havia se espalhado para outros órgãos, há algumas semanas, ele passou a se despedir de amigos, familiares e colegas da política.

A chegada do médico oncologista à Presidência, em 2005, representou o fim do domínio dos dois partidos mais tradicionais do Uruguai, Colorado e Blanco, hoje mais afinados com a centro-direita

Vázquez, do Partido Socialista, integrante da Frente Ampla —aliança de centro-esquerda que inclui de sociais democratas até remanescentes dos guerrilheiros tupamaros—, foi o primeiro presidente de esquerda da história do Uruguai e responsável por implementar as políticas que tiraram o país da grave crise econômica na qual se encontrava, reflexo da crise argentina de
2000 e 2001.


Neste domingo, a Frente Ampla lamentou a morte de seu antigo líder. “É com grande pesar que informamos a morte de nosso presidente, Tabaré Vázquez. Seu exemplo de integridade política e compromisso inabalável com nosso país e com o povo nos levará a continuar seu legado”, escreveu a coalizão em uma rede social.

O primeiro mandato de Vázquez, entre 2005 e 2010, lançou as bases de um modelo que faria com que o Uruguai tivesse crescimento sustentado do PIB por 15 anos. Além de se beneficiar da alta no preço das commodities, o governo de Vázquez fez investimentos em infraestrutura, energia renovável, serviços e turismo.


Na segunda gestão entre 2015 e 2020, seus níveis de popularidade caíram, embora
tenha terminado a primeira com mais de 80% de aprovação popular. Com a Frente Ampla, o Uruguai se abriu mais a investimentos estrangeiros e, com seus principais parceiros, Brasil e Argentina, em crise, diversificou os sócios comerciais. Passou a exportar matérias-primas em maior volume a países asiáticos.

Biografia

Vázquez nasceu e cresceu no bairro portuário de La Teja, de classe média baixa, e era torcedor do Progreso, clube local de futebol no qual seu avô jogou e do qual seria presidente entre 1979 e 1989.

O ex-presidente era o quarto filho de um trabalhador da indústria do petróleo. Bom aluno, ganhou uma bolsa para estudar medicina em Paris. Tornar-se oncologista, dizia ele, era um desejo, já que o câncer matou seu pais. Durante o primeiro mandato, tentou manter a rotina no consultório, um dos mais procurados do Uruguai, e o fez durante um período, até que as
tarefas presidenciais o impediram.

No cargo, levou adiante várias campanhas contra o tabaco e chegou a falar, em uma de suas intervenções na reunião anual da ONU, em Nova York, sobre os males dos cigarros. Era uma de suas principais bandeiras. Uma trágica ironia que, mesmo sem nunca ter fumado, seria vítima de um câncer no pulmão Vázquez foi casado com María Auxiliadora Delgado, com quem teve cinco
filhos, um deles adotado. A morte da mulher, no ano passado, deixou-o muito abalado.

O líder uruguaio valorizava muito a institucionalidade. Já doente e bastante
debilitado, votou nas últimas eleições e declarou que “tudo o que queria era sobreviver para poder passar a faixa ao sucessor.

O atual presidente inclusive lembrou a boa relação que teve com o antecessor
ao lamentar a morte neste domingo. “Ele [Vázquez] enfrentou sua última
batalha com coragem e serenidade. Tivemos diálogos pessoais e políticos que
valorizo e me lembrarei. Ele serviu seu país e, com seu esforço, obteve
importantes conquistas. Ele era o presidente dos uruguaios. O país está de
luto”, escreveu.