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Mobilidade social no governo Lula: a mídia ignora o Brasil

Mobilidade social no governo Lula: a mídia ignora o Brasil

Já se passou mais de uma semana da divulgação, pela Fundação Getúlio Vargas, da pesquisa sobre a mobilidade social no Brasil. As conclusões são interessantes e deveriam estar inspirando debates muito mais ricos do que tem sido admitido pela imprensa sobre o nosso modelo econômico e as chances brasileiras diante da crise mundial.
 
Por Luciano Martins Costa, no Observatório da Imprensa

Aliás, uma leitura cuidadosa do estudo autoriza a jogar no lixo muita coisa que se tem publicado ultimamente sobre macroeconomia, crise, programas de inclusão social e alguns outros temas muito em voga.
 
A principal constatação do trabalho da Fundação Getúlio Vargas revela que a crise financeira internacional vem atingindo com mais força as classes de renda A e B do que a classe média e os mais pobres. O indicador desse fenômeno é a mobilidade social: tomados proporcionalmente ao seu peso no total da população, os indivíduos das classes de renda privilegiadas correm mais risco de cair para uma faixa de renda inferior, enquanto os mais pobres continuam ascendendo às classes médias.
 
Jornalistas distraídos
 
A explicação oferecida pelos coordenadores do estudo é que as pessoas com renda mais alta estão mais vinculadas aos setores impactados mais fortemente pela crise, como as exportações, os setores financeiro e imobiliário. As dificuldades desses setores não afetam tanto a maioria de classe média porque são menos importantes no Brasil em termos de geração de emprego e de indicadores de renda do que em outros países.
 
No extremo inferior da pirâmide social, as classes D e E também estão encolhendo, com maior número de famílias ascendendo à classe C. A informação é de extrema relevância e alguns analistas estranham o fato de que a imprensa não tenha manifestado maior interesse pelo assunto.
 
Um dos aspectos que deveriam estar movimentando os comentadores de jornais e dos noticiários televisivos e radiofônicos é a possibilidade de estarmos assistindo a uma alteração profunda no desenho da pirâmide social do Brasil.
 
Trata-se de um tema fascinante até mesmo para o jornalista mais distraído, mas parece que a imprensa faz questão de ignorar a realidade brasileira.
 
Sociedade em mutação
 
O estudo da Fundação Getúlio Vargas considera que, na última década, as mudanças no modelo econômico brasileiro têm produzido um novo desenho na sociedade, o que acaba por levantar defesas contra a crise internacional.
 
Algumas iniciativas dos dois governos de Fernando Henrique Cardoso, provendo estabilidade aos negócios, estimulando a exportação e facilitando a criação de um sistema bancário sólido e competitivo, criaram as bases para investimentos produtivos de longo prazo e para a modernização de alguns setores, como o das telecomunicações.
 
Os projetos sociais de transferência de renda, criados ou ampliados nos dois governos de Luiz Inácio Lula da Silva, tiraram da miséria milhões de famílias e produziram a nova classe média que agora sustenta em grande parte a economia brasileira.
 
A pesquisa de mobilidade social revela os números dessa mudança de posições. Ela é importante porque pode orientar inovações nas estratégias das empresas e nas políticas públicas. Uma classe ascendente tem sempre um enorme potencial de energia criativa e de consumo.
 
As primeiras gerações das famílias que ascendem socialmente são um fator importante de desenvolvimento, e, conforme observam os coordenadores da pesquisa, 25% dos brasileiros se encontram nessa condição.
 
Pauta esquecida
 
A prosseguir a tendência apontada pelo estudo, teremos em algum tempo não exatamente uma pirâmide social, mas um hectaedro, com uma base e um ápice mais estreitos e uma parte central mais avantajada, formada pela maioria da classe média.
 
Claro que, diante desses indicadores, tornam-se importantes novos negócios dirigidos a essa nova classe média, o que já vem sendo explorado por algumas empresas. A imprensa também se beneficia desse fenômeno, pois quase todas as empresas jornalísticas têm um título popular, e esse é o nicho que mais cresce no Brasil.
 
Por todos esses motivos, torna-se incompreensível que a imprensa, de modo geral, tenha se esquivado de se aprofundar no tema.

A classe média emergente no Brasil

Desde agosto deste ano, quando o Centro de Políticas Sociais (CPS/IBRE/FGV) lançou o estudo "A Nova Classe Média" (vide www.fgv.br/cps/classemedia) este tema ganhou relevância na análise sociológica brasileira. A renda da parcela da classe C subiu 22,8% de abril de 2004 a abril de 2008. Neste mesmo período, a renda de nossas classes A e B subiu 33,6%.

O estudo partiu de duas perspectivas na classificação das classes. Uma primeira épela análise das atitudes e expectativas das pessoas, baseada em George Katona, psicólogo behaviorista. O combustível seria o anseio de subir na vida; o lubrificante seriao ambiente de trabalho e negócios. Neste sentido, o Índice de Felicidade Futura (IFF) é alto no Brasil.

A segunda forma de definir as classes econômicas E, D, C, B e A é pelo potencial de consumo. O Critério Brasil usa acesso e número de bens duráveis (TV, rádio, lava-roupa,geladeira e freezer, vídeo-cassete ou DVD), banheiros, empregada doméstica e nível deinstrução do chefe de família.

Desde 2002, a probabilidade de ascender da classe C para a classe A nunca foi tão alta, e a de cair para a classe E nunca foi tão baixa como agora. A classe C é a classe central, abaixo da A e B e acima da D e E. A nossa classe C sobe de 42% para 52% agora. Segundo o Pew Institute, 53% dos norte-americanos se consideram classe média.

O novo Critério Brasil classificava em 2005 cerca de 43% dos brasileiros de classe C, próximos dos 42% de 2004. A faixa C central está compreendida entre os R$ 1.064 e osR$ 4.561, a preços de hoje na Grande São Paulo. Os estudos internacionais variam o limite superior mensal de classe média de US$ 6 mil (Banco Mundial) a US$ 300 (Barnajee & Duflodo MIT), passando por US$ 500 (Goldman Sachs). O nosso está dentro dos limites deles, que variam muito entre si.

O que importa é compreender que grande parte desses "emergentes" são oriundos de famílias tradicionalmente pobres. Não possuem, portanto, a mesma lógida, representação e imaginário dos tradicionais "formadores de opinião" tão empregados pela grande imprensa tupiniquim. Lêem pouco, desconfiam dos jornais e revistas e são muito pragmáticos (pouco filosóficos ou ideologizados). É muito importante compreender este fenômeno sociológico brasileiro. Acredito ser o tema mais importante deste início de século para nós, sociólogos.

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