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Justiça social

13 de março de 2019
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Antonio Delfim Netto

O problema civilizatório de toda sociedade é construir instituições capazes de articular a “justiça social” (um critério fluido: talvez uma distribuição de renda que confortaria o cidadão mais vulnerável da sociedade) com plena liberdade de iniciativa e a criatividade individual. A distância que nos separa de tal paradigma é abissal.

Percorrê-la não será uma linha reta, mas um caminho tortuoso, com avanços e retrocessos experimentais (tentativas e erros), que só são possíveis num regime democrático sem adjetivos, que assegura a transferência do poder em tempo certo e de forma pacífica.

A história é uma sucessão de “acidentes aleatórios”. É o nosso cérebro que, para pacificar-se, constrói narrativas que a organizam em relações de “causa” e “efeito”.

Assim, alguns cérebros peregrinos acabaram acreditando que o “futuro” está, necessariamente, escondido no “passado”. Este, portanto, se suficientemente torturado, o revelaria.

Trata-se de uma crença extremamente perigosa: como acreditam ser senhores do futuro, conhecem o que e quem podem “descartar” agora porque não farão falta. Assim “sabiam” Robespierre, Hitler, Mussolini, Stalin, Mao e outros menores, mas não menos convictos.

Quando tiveram o poder, todos propuseram um radical recomeço (um renascer, uma “palensigenia”) através do qual, depois da necessária punição dos males presentes, a corrupção do passado se transformaria na virtude que traria a “salvação nacional”. Todos falharam miseravelmente.

Primeiro terminaram com a liberdade e estimularam a delação. Depois separaram-se numa “casta” que os afastou da “igualdade” que impuseram ao cidadão comum.

Finalmente, estimularam a produção de canhões em lugar de manteiga para os cidadãos que mandaram morrer na guerra…

Toda essa pobre reflexão histórica é para sugerir que Bolsonaro está longe de ser o “efeito” necessário de uma “causa” eficiente: o desastre Dilma-PT e que, na minha opinião, não representa risco constitucional. É, apenas, mais um evento aleatório com o mesmo propósito de Lula-2003 (“viemos para mudar tudo o que está aí!”) que terminou mal.

O que o governo precisa introjetar é que velocidade e precipitação são coisas muito diferentes que podem gerar muita confusão e consequências antagônicas.

Precisa insistir e concentrar-se na sua maior prioridade: a reforma da Previdência necessária, mas não suficiente, para despertar o espírito que alimenta e
precede o crescimento econômico.

E, finalmente, precisa abandonar o “cezarismo” das mídias sociais. Este vai produzir mais estragos do que o veto à Ilona Szabó, como já foi o coprológico tuíte!

Antonio Delfim Netto
Economista, ex-ministro da Fazenda (1967-1974). É autor de “O Problema do Café no Brasil”.

link artigo
https://www1.folha.uol.com.br/colunas/antoniodelfim/2019/03/justica-social.shtml

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