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Ex-chefe de gabinete denuncia Barbosa Neto

Ex-chefe de gabinete denuncia Barbosa Neto

Ricardo Brito

Correio Braziliense

Há duas semanas, o londrinense Luciano Ribeiro Lopes desembarcou em Brasília portando um envelope lacrado que revela detalhes de quem testemunhou de perto a ascensão do deputado Barbosa Neto (PDT-PR). Afinal, Luciano coordenara sua campanha à Câmara, chefiou seu gabinete e, nos últimos meses, preparava o caminho para eleger o radialista prefeito de Londrina, no interior do Paraná. O envelope entregue ao procurador-geral da República, Antonio Fernando Souza, contém um dossiê com 40 páginas, um DVD com gravações, notas fiscais e contratos que, segundo Luciano, mostram o lado “desconhecido” da atuação de Barbosa Neto. Antonio Fernando não abriu investigação contra o parlamentar, mas o ex-braço direito dele é categórico sobre o que o deputado fez no Congresso. “O gabinete do Barbosa Neto se transformou num balcão de negócios”, dispara.

Luciano narra ao procurador a forma como o parlamentar se apropriava de salários dos funcionários. Contou detalhes ao Correio. Com uma câmera escondida, o então homem de confiança do deputado colheu em abril a confissão de Rogério Bertipaglia. Amigo há 20 anos do deputado e ajudante-de-ordens na campanha de 2006, Rogério disse a Luciano, na gravação, que o cartão para sacar seu salário da Câmara, no valor de R$ 7,8 mil, ficava com a esposa do parlamentar, Ana Laura Lino Barbosa.

No primeiro semestre do ano passado, Rogério teve que ser internado por intoxicação com drogas, foi exonerado, e sua mãe, Conceição, nomeada em seu lugar. E a prática continuou, disse Luciano. “A Ana Laura dá R$ 400 por mês”, admite na gravação o pai de Rogério, Anísio Bertipaglia, ao ex-chefe de gabinete. “Os que eu pari estão em casa, o Rogério não é meu filho”, respondeu Ana Laura segundo conta Luciano.

Além de Rogério, Luciano disse que o deputado nomeou funcionários que sequer trabalhavam. Tinha comissionado que despachava na sede da rádio que Luciano afirma ser do deputado, a Brasil Sul. Ele aponta Valtair Silva, vulgo Café, como uma das pessoas que estavam nessa situação. Café era organizador do campeonato de futebol amador da rádio do deputado, conta ele. “Fui eu quem indiquei o médico para o Café fazer o teste admissional”, afirmou o ex-assessor. “Mas ele nunca apareceu para trabalhar.”

Segundo o braço direito do parlamentar pedetista, não havia 10 pessoas que efetivamente trabalhavam para o deputado, metade na capital e a outra parte em Londrina, o reduto político dele. Mas, contabiliza Luciano, havia o dobro de nomeados. Desde novembro, o Supremo Tribunal Federal (STF) investiga Barbosa Neto por ter se apropriado de recursos de funcionários da época em que era deputado estadual.

Rádio e ONGs
Luciano contou que o deputado se valia da rádio para fazer acertos financeiros. O chefe de gabinete disse que, com os recursos da verba indenizatória, pagava-se combustível para três automóveis da rádio e da mulher do parlamentar. Desde o início do mandato, o deputado já gastou R$ 38 mil — embora ele tenha apenas, segundo Luciano, um carro à disposição do gabinete. “Até eu já abasteci o meu carro”, admite o ex-funcionário.

O homem forte do deputado testemunhou as negociações que culminaram na assinatura de um convênio entre a ONG Centro Integrado de Apoio Profissional (Ciap), presidida por Dinocarme de Oliveira, com o Ministério do Trabalho no fim do ano passado. Segundo ele, foi o deputado quem escolheu a entidade, apesar de seu chefe de gabinete tê-lo alertado das suspeitas de irregularidades sob investigação. “O Dino me ajuda eleitoralmente. E se tiver problema, é com ele”, afirmou o deputado ao seu chefe de gabinete.

O convênio de R$ 3 milhões, segundo afirma, é uma forma de compensação financeira pela ajuda que Dinocarme deu a Barbosa Neto na campanha passada e para a rádio, que é deficitária. Luciano conta que, numa certa ocasião, viu a mulher do deputado abrir a bolsa no carro. Dentro dela, estavam R$ 50 mil para pagar os funcionários da rádio. Luciano ficou no carro, mas notou quando o deputado, a mulher e o presidente do Ciap voltaram com o dinheiro. O ex-assessor político sustenta que uma das formas para justificar esses recursos da ONG era superfaturar o valor dos anúncios da faculdade Inesul, ligada à Ciap, na rádio. A parceria era tamanha que o deputado usava o jatinho particular de Dinocarme para se deslocar no estado, de acordo com o ex-funcionário.

A reportagem enviou, por e-mail, detalhes da denúncia à assessoria do deputado na sexta-feira de manhã. Às 16h, o deputado retornou a ligação e disse que estava sendo “vítima de uma chantagem”, “uma armação eleitoral”. Às 17h54, mandou uma carta em que nega que Luciano era seu chefe de gabinete e o demitiu por seu “comportamento amoral”, sem explicar qual. O deputado acusa o ex-funcionário, a quem ele diz que responde a inquérito por tráfico de entorpecentes, de ter dado drogas para Rogério no dia da gravação. Refutou ser sócio oculto da rádio.

“Eu saí a pedido, nunca tive envolvimento com drogas e reafirmo na frente dele o que disse”, rebate Luciano, que também é filiado ao PDT. Ele deixou as mesmas denúncias nas mãos do senador Osmar Dias, presidente do partido no Paraná. A reportagem não localizou as demais pessoas citadas por Luciano.

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