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DESILUSÃO – Parlamentares que não querem se reeleger

DESILUSÃO – Parlamentares que não querem se reeleger

Cynara Menezes – REVISTA CARTA CAPITAL

O Congresso Nacional pode até ser considerado por 39% dos brasileiros como ruim ou péssimo, de acordo com pesquisa recente do Datafolha, mas a insatisfação não se estende aos ocupantes de gabinetes espalhados pelas duas cúpulas projetadas por Oscar Niemeyer e seus anexos. Entre os 513 deputados, pode-se contar nos dedos os que abrirão mão de disputar a reeleição em 2010. No Senado, dos 54 parlamentares cujos mandatos terminam neste ano, nenhum até agora manifestou intenção de não competir. Serem espinafrados e desprezados por parte significativa dos brasileiros não constitui razão suficiente para fazer parlamentares pegarem o boné e irem para casa. Só se desiste do Congresso no Brasil por falta de dinheiro.

O liliputiano grêmio dos que admitem alguma frustração por não terem sido capazes de realizar quase nada como congressistas acaba de receber as adesões dos deputados federais Ciro Gomes, do PSB, pré-candidato à presidência da República, e José Eduardo Cardozo, do PT. Ciro declarou preferir deixar a política do que ter de voltar à Câmara. "Nunca mais vou ser deputado na vida. Não tenho mais paciência de passar nove horas conversando fiado e não fazendo nada pela vida de ninguém", disse o cearense, sem explicitar se tampouco lhe interessa o Senado.

Cardozo divulgou uma carta aos eleitores na qual anuncia sua desistência de se candidatar a um terceiro mandato. O motivo, segundo ele, seriam suas sérias restrições ao financiamento eleitoral. "Desde a eleição anterior falo que se não houvesse financiamento público de campanha, não disputaria", diz o petista. "As campanhas cada vez custam mais, e a relação entre o doador e a pessoa que recebe é complicada. Mesmo quando feita sob padrões éticos é considerada suspeita." De acordo com o deputado, é impossível fazer uma campanha para a Câmara com menos de 1,5 milhão de reais, “por baixo”.

Ao comunicar a um colega de Parlamento que não iria se lançar à reeleição embora acredite ter chances, ouviu o que todo brasileiro gostaria de dizer: “Mas vai deixar esta boquinha?” Quando os próprios parlamentares vêem a coisa assim, fica difícil se solidarizar com Cardozo quando ele argumenta ser esta uma imagem equivocada, que na verdade perdeu dinheiro ao virar deputado pois ganhava mais como procurador da prefeitura de São Paulo. “Sempre tive que dar aulas para complementar. Para ainda ser chamado de ladrão?”, reclama, magoado com a generalização. “A palavra do político não vale nada.”

Há, sim, desilusão com a lentidão na aprovação de projetos, com o excesso de medidas provisórias e com o baixo nível intelectual do debate. Mas a razão financeira é a que mais pesa na decisão de desistir das urnas, mesmo porque ninguém assume ter interesse em abandonar de todo a política por não se candidatar. O petista Cardozo deixará de ser deputado, mas pretende trabalhar na campanha de Dilma Rousseff à presidência, e, quem sabe, algum dia se lançar a um cargo majoritário, onde avalia que o financiamento é um pouco diferente. "Dilui mais, porque a arrecadação é feita pelo partido", diz.

A probabilidade de o político, mesmo desencantado, deixar de vez a política, como ameaçou Ciro Gomes, é rara. Uma vez político, sempre político, acredita a professora da Universidade de Brasília Lúcia Avelar. Inebriados pelo poder, diz a cientista política, os que alcançam um cargo público não se conformam com a possibilidade de voltar ao anonimato do cidadão comum, como um viciado para o qual não foi encontrada cura. "A política é mais do que uma cachaça, como eles dizem. Ao ganhar poder, experimentam a droga mais alucinante que existe. Por isso, mesmo odiados, se recusam a mudar de ramo, a largar o osso", analisa.

Avelar conta que sempre a intrigou certa falta de autocrítica intrínseca à atividade, que faz os políticos serem capazes de tolerar, ao contrário de outros profissionais, a rejeição pública. “Parece que existe um patamar ético na sociedade e outro na política, como se eles vivessem num mundo à parte.” Ela cita o sociólogo Max Weber, que analisou o tema na conferência de 1919 "A política como vocação". Weber divide o homem político em duas espécies: os que realmente se entregam, de corpo e alma, à política, e os que apenas se sentem atraídos pela aura do poder. "No Brasil, ao que tudo indica, há mais políticos do segundo time do que do primeiro."

Especialista em Weber, o professor aposentado da USP Gabriel Cohn aponta outra distinção feita pelo pensador alemão, separando os políticos entre os que se movem por valores e os que se guiam por interesses. “Na perspectiva de Weber, o valor é o que se invoca em última instância, a rocha dura na qual o político se agarra – o bem comum, por exemplo. Já o político movido por interesses não enxergará valor algum. E, se não tem a convicção de que deve haver um valor último, é um homem dos interesses momentâneos, que defende uma coisa hoje, outra amanhã." Cohn acrescenta: "Desconfio que estes atualmente sejam a maioria. Por isso não possuem autocrítica ao ponto de partirem para outra: ‘está ótimo aqui, por que vou largar?’"

Ao longo da história do País, os casos de renúncia à política, de tão incomuns, são lembrados até hoje. Após 15 anos no poder, Getúlio Vargas foi obrigado pelos militares, em 1945, a renunciar, chegou a se retirar para suas fazendas, mas celebrou a volta "nos braços do povo" em 1950.

Jânio Quadros se deu mal em 1961 ao querer provocar o mesmo sentimento nas massas abrindo mão do mandato presidencial e dizendo que iria se dedicar à carreira de advogado e professor. Em 1982, porém, voltaria à vaca fria como candidato ao governo de São Paulo, quando foi derrotado por Franco Montoro. Ao retornar ao poder como prefeito de São Paulo três anos depois, pendurou uma chuteira no gabinete para demonstrar que era diferente dos demais e que poderia largar tudo na hora que bem entendesse. Mas só desistiu de retornar ao Planalto em 1989 por ter adoeceido.

No Parlamento, um caso emblemático é o do ex-deputado federal Vladimir Palmeira, que, após três décadas de dedicação à vida pública, desde o movimento estudantil, nos anos 1960, abandonou a Câmara em 1993 alegando já ter dado sua contribuição. Palmeira não voltou a concorrer ao Legislativo. No entanto, jamais deixou a política. Eterno rebelde, tentou ser candidato ao governo do Rio em 1994 e em 1998, quando o PT carioca sofreu intervenção nacional e foi obrigado a deglutir o apoio a Anthony Garotinho. Em 2006, saiu finalmente ao governo e ficou em quarto lugar.

É comum o político dizer aos quatro ventos que está farto e que vai renunciar à política, mas, na hora agá, voltar atrás. Em abril do ano passado, o governador de Mato Grosso, Blairo Maggi, informou que iria desistir da disputa ao Senado em 2010 e abandonar a vida pública porque não queria ser "escravo" das disputas eleitorais. “A política tem me consumido muito. Agora quero descansar e ter tempo para cuidar da minha família e da vida empresarial”. Cinco meses depois, anunciaria ter desistido de desistir. Deve concorrer ao Senado.

O mesmo aconteceu com o senador Pedro Simon, que tinha marcado até a data para a renúncia ao mandato, para o qual lhe restam ainda cinco anos, em 31 de janeiro. Dizia-se "machucado", cansado de ser voto vencido no Senado e em seu próprio partido, o PMDB. Renunciou à renúncia diante das manifestações que chegaram ao gabinete por sua permanência. “Eu não teria nem como explicar para mim mesmo se renunciasse’, justifica Simon, que admite o próprio vício em política, mas não a idéia de que os políticos continuem políticos por não saberem fazer outra coisa. “Imagina, tem senador dono de emissoras de tevê, fazendas, fábricas…", ironiza.

Entre ser político ou bispo evangélico da igreja Sara Nossa Terra, o deputado Robson Rodovalho (PP-DF), se diz 98% decidido a optar pela atividade religiosa por ser mais compensadora. “Entrei na vida pública por causa do sonho de mudar o meu País. Isso palpita no meu coração e às vezes me faz até chorar. Mas como bispo sou amado e, como deputado, suspeito”, lamenta o parlamentar, secretário do governador preso José Roberto Arruda que milagrosamente escapou da Operação Caixa de Pandora. “Estou em busca de um novo modelo de fazer política. A multidão que me ama aceitará a decisão que irei tomar, seja ela qual for. Só não abrirei mão de meu sonho”.

Mais sincero, o deputado federal Fernando Coruja, atual líder do PPS na Câmara, diz que não pretende voltar ao Congresso simplesmente por não se sentir útil. Coruja, ex-prefeito e vereador em Lages (SC), há 22 anos possui um mandato eletivo e não pretende ter mais nenhum. Raridade no meio, manteve o consultório de médico endocrinologista na ativa durante todos estes anos, e é só lá que pretende dar expediente a partir de 2011. “Sempre tive o cuidado de não ficar dependente da política economicamente. Não é bom ser político profissional, porque se perde a sintonia com o mundo real”.

Cansado do "excesso de lobbies" do Parlamento, onde "o poder econômico manda", Coruja resolveu elaborar duas listas para tomar a decisão se iria ou não concorrer a um quarto mandato. A lista do "sim" ficou em branco. A lista do "não": "Não estou melhorando a vida das pessoas, não sinto prazer no que faço, não há debates importantes. Sou 500 vezes mais útil como médico." Se todos fizessem reflexão idêntica, não ia faltar quórum ao bloco dos desiludidos.

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