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DEMOCRATIZAÇÃO x LATIFÚNDIO MIDIÁTICO

O período que antecede o golpe militar de 1964 é de grande efervescência política e cultural para os estudantes. Estavam em voga as reformas de base proposta por João Goulart, o primeiro e único presidente a visitar a sede da UNE. Vianinha, Ferreira Gullar e outros agitavam o cenário cultural com as produções do Centro Popular de Cultura. Se por um lado, havia um "grito de liberdade no ar", por outro, o sinal dos tempos sombrios já se fazia presente com inúmeros ataques do Movimento Anticomunistas (MAC) e metralhamentos à sede da UNE. Veja sua matéria na íntegra em Reportagens.

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DEMOCRATIZAÇÃO x LATIFÚNDIO MIDIÁTICO

DEMOCRATIZAÇÃO x LATIFÚNDIO MIDIÁTICO 

O período que antecede o golpe militar de 1964 é de grande efervescência política e cultural para os estudantes. Estavam em voga as reformas de base proposta por João Goulart, o primeiro e único presidente a visitar a sede da UNE. Vianinha, Ferreira Gullar e outros agitavam o cenário cultural com as produções do Centro Popular de Cultura. Se por um lado, havia um "grito de liberdade no ar", por outro, o sinal dos tempos sombrios já se fazia presente com inúmeros ataques do Movimento Anticomunistas (MAC) e metralhamentos à sede da UNE.

Acreditava-se que este era o momento de grandes mudanças para o país. Ninguém estava errado. Alguns já tinham a impressão de que o pior poderia acontecer. Outros acreditavam nas mudanças propostas principalmente depois do Comício da Central do Brasil, no Rio de Janeiro, em 13 de março daquele ano, que acirrou os ânimos da esquerda – que acreditou acabar com a "política de conciliação"– e, principalmente, da direita que "marchou com a família e Deus pela liberdade" reunindo quase 500 mil pessoas em São Paulo, dois dias depois.

Para além da contextualização histórica do período, a idéia deste artigo é trazer ao leitor a memória sobre os acontecimentos desse momento na visão daqueles que acreditavam estar transformando o Brasil num país com mais justiça social e independência econômica. Mas suas intenções foram soterradas por um golpe militar que acabou "reinando" por duas décadas. Os ideais de toda uma geração acabaram, quase que uma ironia, no dia 1º de abril, dia da mentira.

Marcelo Cerqueira, vice-presidente da UNE na época, lembra das movimentações na véspera do Golpe:

"Nós estivemos com ele [Jango] acho que no dia 30, no Palácio Laranjeiras. A UNE esteve com o Jango exortando o presidente a resistir. No dia 30 à noite, a UNE foi metralhada" (1).

No dia 31 de março, Jango estava no Palácio das Laranjeiras depois de participar, na noite anterior, de uma solenidade promovida pelos sargentos e suboficiais da Polícia Militar. E lá recebeu um manifesto à Nação assinado pelo presidente do Senado, Auro Moura Andrade, declarando o rompimento daquela casa com o governo e apelando, ainda, para que as Forças Armadas interviessem no processo político para restabelecer a ordem (2).

Em Minas Gerais, as tropas do general Olímpio Mourão Filho já estavam em movimentação. Com seu ministério desfalcado e com perseguições a líderes sindicais, o presidente se deu conta que a estratégia de confronto das esquerdas não encontraria a mínima sustentação política (3). Os poucos focos de resistência, logo foram desfeitos.

Neste mesmo dia, teve um momento "de festa" na sede da UNE: estudantes e integrantes do CPC comemoravam uma pseudo-informação de vitória sobre o golpe como recorda Cacá Diegues:

"No dia 31 de março, no auditório da UNE, nós estávamos comemorando a vitória sobre o golpe. Tinha sido anunciada uma tentativa de golpe que tinha sido já controlada, tinha sido já derrotada. E a idéia era: botaram a cabeça para fora, a gente cortou a cabeça deles, vitoriosos! Não havia possibilidade de outra coisa. Eu fui dormir pronto para acordar no dia seguinte num novo país." (4)

Carlinhos Lyra já mostra o outro lado deste mesmo 31 de março:

Nós fomos para sede da UNE na noite do dia 31 para dar um apoio aos estudantes. "Havia um movimento policial, um movimento, enfim, alguma coisa cheirava mal no ar. Quando eu chego lá, as pessoas estão conversando na porta da UNE, e eu falei: ‘Escuta, o MAC já nos metralhou antes, acho melhor a gente não ficar aqui na porta, vamos lá para dentro, ficar lá dentro’. No momento que nós entramos nós começamos a ouvir as rajadas de metralhadora. Os caras estavam chegando e metralhavam. E como havia um vão na parede do prédio da UNE, eles atiravam pelo vão para que as balas ricocheteassem e nos atingissem lá dentro. Então, foi uma noite muito angustiante, muito angustiante mesmo. E, até de madrugada, quando vieram os fuzileiros navais e, de certa maneira, deram proteção às pessoas que estavam dentro da UNE, nós saímos vigiados pelos fuzileiros. Cada um foi para sua casa na tentativa de voltar no dia seguinte armados para defender. Nessa altura já estávamos ouvindo a voz do governador Brizola lá do Rio Grande do Sul: ‘Resistam, porque estou chegando com as tropas, resistam!’. E ele mesmo parece que não resistiu, parece que saiu antes". (5)

Concretizado o golpe em 1º de março, uma das primeiras atitudes do governo foi incendiar a sede da UNE. Muitos militantes lembram desta cena com pesar:

"E, no dia seguinte, eu acordo e já não me lembro quem me telefonou dando as primeiras notícias, eu acho que foi o Leon [Hirszman], dizendo que a UNE estava sendo invadida pelos militares. Nós fomos para casa do Luis Carlos Barreto. Ele tinha uma câmera, fomos pegar a câmera para filmar o que está acontecendo. Quando nós passamos na porta da UNE, já estava pegando fogo". (6)

A primeira mulher diretora da UNE, Maria de Nazaré Pedrosa, também recorda o momento:

"Aí quando eu olhei estava começando a entrar em chamas a Praia do Flamengo 132. O MAC, os grandes cabeças da reação, do que havia de mais reacionário no Brasil, tinham tanto ódio daquela célula ali, o que representava aquele prédio…".(7)

Os estudantes atônitos não se encontravam preparados para aquela situação, como atesta Maria Augusta Ribeiro:

"Mas eu me lembro que, no dia do golpe, a gente andava pela rua procurando: para onde que a gente vai, a gente vai fazer o quê? Não tinha organização alguma, na verdade, nos ficamos órfãos de pai e mãe, sem orientação nenhuma". (8)

O então presidente da UNE, José Serra, relembra toda situação com pesar:

"Foi muito difícil, porque uma coisa é você prever, fazer a análise: dois e dois são quatro. Outra coisa é você viver aquilo, você tem de alargar o corpo, não é achar que no fundo aquilo não vai acontecer. Quando aconteceu, parecia um pesadelo, na primeira noite que eu dormi, quando eu acordei, juro, eu pensei que tivesse sonhado! Não aconteceu, não aconteceu foi um sonho ruim… nunca tive essa sensação na vida tão forte quanto nesse caso." (9)

João Goulart sai do Rio de Janeiro para Brasília, no dia 1º de abril e assinou um manifesto à Nação denunciando as forças reacionárias e o poder econômico que reagiam à implementação das reformas de base que levaria à democratização da sociedade. Analisando que a proposta de resistência seria em vão, pois levaria o país a uma guerra civil, já que os militares estavam marchando rumo à capital com 50 mil homens e ainda estavam contando com forças americanas, Jango decidiu ir para o Rio Grande do Sul com Brizola, de onde partiram para o exílio no Uruguai ainda com esperanças de organizar uma resistência, que não existiu.

Deste episódio triste da nossa história, fica um último registro do músico Carlos Lyra:

"A minha lembrança do dia 1º de abril de 1964 é de que foi o dia mais infeliz da minha vida, com certeza. Porque, naquele momento em que nós estávamos, como diria Fernando Pessoa, "na curva de subida", a gente foi abatido exatamente nela e caímos. Em 1963, nós estávamos fazendo o hino da UNE, o CPC estava a mil quilômetros por hora e, de repente, em 1º de abril de 1964, esse país se transformou na comunidade mais medíocre possível. E essa mediocridade, eu digo a verdade, ela não foi ainda sanada completamente. Falta muita coisa ainda para varrer a mediocridade que se instalou em 1964, porque ela anda por aí até hoje." (10)

* Angélica Müller é doutoranda em História Social pela USP e coordenadora-técnica do Projeto Memória do Movimento Estudantil

NOTAS:
(1) Depoimento de Marcelo Cerqueira ao Projeto Memória do Movimento Estudantil.
(2) FERREIRA, Jorge. O governo Goulart e o golpe civil-militar de 1964. In: FERREIRA, Jorge.DELGADO, Lucília de A. Neves. O Brasil republicano: o tempo da experiência democrática. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003. p. 391.
(3) Idem.
(4) Depoimento de Cacá Diegues ao Projeto Memória do Movimento Estudantil.
(5) Depoimento de Carlos Lyra ao Projeto Memória do Movimento Estudantil.
(6) Depoimento de Cacá Diegues ao Projeto Memória do Movimento Estudantil.
(7) Depoimento de Maria de Nazaré ao Projeto Memória do Movimento Estudantil.
(8) Depoimento de Maria Augusta Carneiro Ribeiro ao Projeto Memória do Movimento Estudantil.
(9) Depoimento de José Serra ao Projeto Memória do Movimento Estudantil.
(10) Depoimento de Carlos Lyra ao Projeto Memória do Movimento Estudantil.

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