Escrito por 12:13 Destaques, Meio Ambiente

De acordo com pesquisador da Unila, pantanal deve levar 40 anos para se recuperar

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Mais de 29.000 quilômetros quadrados de fauna e flora do Pantanal foram destruídos pelo incêndio, o que equivale a quase 19% de um dos principais biomas do Brasil – área equivalente ao Estado de Alagoas. Em 2020, foram registrados mais de 15 mil focos de incêndio, o maior número em 21 anos. Além disso, o Pantanal passa por uma das maiores secas da história. Com a escassez hídrica, o Rio Paraguai, o principal do bioma, atingiu o menor nível em quase cinco décadas.

Uma situação devastadora para a maior área úmida em extensão do planeta, que se espalha também pela Bolívia e Paraguai. “É uma área imensa perdida. Existe a resiliência natural, mas o tempo de recuperação vai ser muito longo, principalmente por conta da proporção desse incêndio. Fisionomicamente, para voltar a ter uma estrutura parecida, para os ciclos específicos voltarem, pode demorar uns 40 anos”, estima o biólogo e professor da Unila Cleto Kaveski.

“O Pantanal é uma região bem especial. É um bioma bem único. É como se fosse o coração dos biomas

O pesquisador, que fez sua graduação em Ciências Biológicas na Universidade Estadual do Centro-Oeste e tem doutorado em Biologia Vegetal, explica que o Pantanal era, até o início dos incêndios, o mais bem preservado entre os maiores biomas brasileiros. “Por ser uma área de grandes nascentes, das nascentes do Rio Paraguai, é um bioma alagado. Essa é a razão de ele ser, até então, um bioma íntegro, porque tinha difícil acesso”, explica. 

O Pantanal é considerado um complexo de ecossistemas. “O Pantanal é uma região bem especial. É um bioma bem único. Tem um conjunto de fisionomias, uma interface muito grande. É como se fosse o coração dos biomas: tem uma ligação com a Amazônia; uma ligação forte com o Cerrado, a região savânica brasileira; tem um pouco de características estépicas, de floresta seca, pelo seu contato com a região do Chaco paraguaio”, descreve Cleto.

Extinção

A recuperação total das características que fazem do Pantanal um bioma tão único é muito difícil, diz ele. “Algumas espécies, seguramente, vão ficar para trás. As grandes espécies, que ocorrem em outros biomas, acabam voltando, mas tem espécies endêmicas, muitas que talvez a gente nem conheça, que vão desaparecer”, lamenta, lembrando que ao redor do Pantanal se encontram áreas agrícolas que dificultam a existência de um “banco de sementes” – sementes que existem no solo e que possibilitam a recuperação natural de áreas degradadas. “Quando se queima essa região, que já é fragmentada, não tem de onde vir sementes, espécies a serem repostas, a própria resiliência do ambiente fica comprometida.”

“O incêndio no Pantanal não é só culpa das pessoas que colocaram fogo, mas é uma culpa humana no sentido das mudanças climáticas que estão acontecendo, principalmente a alteração da Amazônia”, aponta Cleto.

Em um país cheio de recursos naturais como o Brasil, diz o pesquisador, muitas pessoas não conseguem associar crises hídricas, perdas na lavoura e outros acontecimentos, com as alterações do clima e seguem negando sua existência. “A mudança climática é um fato. Ela é polêmica no senso comum, mas cientificamente é um fato. Ninguém dúvida disso”, afirma.

Variações climáticas são naturais, com ciclos de grandes volumes de chuva ou extensos períodos de seca. “Mas uma coisa que é muito clara, que fica bem evidente, é que esses fenômenos de extremos climáticos estão muito mais frequentes. Gerações passadas se lembram, talvez, de quatro ou cinco eventos. Nos últimos dez anos, podemos contar também quatro ou cinco eventos extremos”, comenta, citando como exemplo, os recordes de altas temperaturas desta semana, que superam outros recordes registrados em anos muito próximos.

Atuação política

Para o pesquisador, nossa civilização tem um comportamento completamente predatório, baseado na exploração dos recursos naturais até o seu limite. “Nosso modo de vida planetário, hoje, está fadado ao fracasso total”, afirma. No Brasil, as pessoas estão sendo estimuladas, pela falta de punição, a incendiar e devastar áreas de floresta por interesses econômicos, para a implantação de áreas agrícolas e de pastagem, comenta o professor, lembrando que existem formas mais sustentáveis de exploração. “O início das queimadas é consequência política claríssima. São pessoas incentivadas, que sabem que podem fazer porque não vai haver consequências.”

“Lógico que qualquer coisa que você faz, quando toma alguma atitude, é importante, mas efetivo mesmo não é. Efetivo é fazer pressão” 

A solução para a destruição de nossos biomas – Amazônia e o Pantanal, principalmente –, para Cleto, passa pela atuação política, mais do que por ações individuais de cuidados como redução de consumo de produtos ou alimentos, como a carne, por exemplo, pela reciclagem de materiais ou cuidados com a água. “Lógico que qualquer coisa que você faz, quando toma alguma atitude, é importante, mas efetivo mesmo não é. Efetivo é fazer pressão. Acho que atuar politicamente, para mim, é uma das coisas mais importantes”, analisa. “As pessoas têm a percepção de que temos grandes áreas verdes, que é muito, mas não. O que a gente tem é um capital de biodiversidade absurdamente rico e a gente está colocando fogo. Esse é um patrimônio, um recurso que é público, que é de todos, e nós estamos deixando que seja roubado por poucos. Isso é uma coisa que a gente tem de começar a se conscientizar também como população. É importante atuar politicamente para guardar isso”, estimula.

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