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Bandeira eleitoral, Mais Médicos não prioriza municipios do Nordeste

28 de setembro de 2014
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mais medicos

da Folha de S.Paulo

A estratégia do governo Dilma de distribuir ao menos um profissional do Mais Médicos a todas as prefeituras que fizeram essa solicitação manteve no sufoco municípios onde a carência está acima da média nacional.

O programa, lançado em 2013 e uma das principais bandeiras da campanha à reeleição da presidente, está espalhado por 3.780 municípios, com 14 mil médicos, sendo 79% deles cubanos.

A maioria desses profissionais foi para cidades das regiões Nordeste, Sudeste e Sul.

Uma cota de 1.660 municípios, porém, recebeu apenas um novo médico –sendo 539 do Sul e outros 446 do Nordeste, segundo dados obtidos pela Folha por meio da Lei de Acesso à Informação.

Um deles é São Vendelino (RS), a cerca de 90 km de Porto Alegre, onde predominam descendentes de germânicos e só quatro famílias recebem o benefício do Bolsa Família.

O cubano Dixan Escalona Salazar, 32, atua no único posto de saúde da cidade –de 1.944 habitantes e que, antes de sua chegada, já contava com outros cinco médicos.

Lá, a demanda por consultas parece ser atendida com folga, com a ajuda de uma unidade do município vizinho.

“Ele [novo médico] vem atender uma demanda extra que a gente não conseguiria atender com os nossos profissionais. E, com isso, o povo fica muito satisfeito e politicamente dá um retorno”, afirma o vice-prefeito Evandro Schneider (PT).

Situações opostas vivem municípios de Norte e Nordeste, regiões que, antes do programa, tinham 2,21 postos médicos ocupados para cada mil habitantes, quase a metade dos 4,08 de Sul e Sudeste, segundo pesquisa Demografia Médica no Brasil.

Teresina expõe um desses opostos. Com 840 mil habitantes e longas filas em postos de saúde por falta de médicos, a capital do Piauí não tem hoje nenhum profissional do programa federal.

Os dois únicos em atuação na cidade desistiram do Mais Médicos, e o ministério não tem prazo para a reposição.

“É um critério muito aberto. A questão não é negar a quem precisa, mas priorizar quem mais precisa”, afirma o cientista político do FGV-SP, Marco Antonio Teixeira.

SONHO

Garanhuns (PE), com 136 mil habitantes e seis ambulatórios de saúde na zona rural sem médicos fixos, é uma das 446 cidades nordestinas que receberam só um médico.

“É muito pouco perto do que a gente sonha”, disse o secretário da Saúde, Arlindo Ramalho Neto, que se declara “fã do programa” e “sonha” com mais dez médicos.

Para Ricardo Ismael, cientista político da PUC-RJ, municípios com menor demanda deveriam esperar na fila, já que “o objetivo fim do programa é tentar reduzir essa desproporção” pelo país.

Segundo o Ministério da Saúde, ao menos um médico foi enviado a todos os município solicitantes porque o governo atraiu um número suficiente de profissionais para expandir o programa.

Situações como a de Teresina e Garanhuns se repetem no Norte e Nordeste. Há cidades que pediram quatro médicos, por exemplo, mas só receberam um. São os casos de Barcarena (PA), com 112 mil habitantes, Aurora (CE), 24 mil, e Croatá (CE), 17 mil.

“É uma estratégia mais política do que técnica, mas que faz sentido, porque os prefeitos poderiam dizer que está tratando diferentemente os de partido A ou B”, afirma o presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva, Luís Eugênio Portela.

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