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Ao chamar Argentina de ‘eterno mendigo’, Mourão mostra desconexão com novo chanceler, diz analista

O vice-presidente Hamilton Mourão participou de um encontro com empresários nesta quinta-feira (8) e chamou a Argentina de “eterno mendigo” ao dizer que o Brasil deve ter responsabilidade fiscal.

Mourão estava tratando sobre o Orçamento da União de 2021 quando usou a Argentina de exemplo. “A mensagem que eu deixo é esta: nós não podemos fugir da âncora fiscal, porque, senão, o país quebra. E, se o país quebrar, nós vamos ficar igual ao nosso vizinho do sul, igual à Argentina, eterno mendigo”, disse Mourão.

Em entrevista à Sputnik Brasil, Bárbara Neves, professora de Relações Internacionais e especialista em políticas latino-americanas, analisou a declaração de Mourão e disse que o vice-presidente busca construir a imagem do Brasil como um país “neoliberal para garantir um espaço econômico atrativo para investimentos privados”.

“Essa fala do Mourão busca reafirmar e dar força política às diretrizes econômicas neoliberais que o ministro Paulo Guedes vem desenvolvendo e tentando consolidar no Brasil desde o início do governo Bolsonaro”, destacou.

Segundo a especialista, o governo federal quer se distanciar do modelo econômico adotado pelo presidente da Argentina, Alberto Fernández.

“A oportunidade da fala do vice-presidente foi buscar reforçar essa imagem do Brasil como um país que não está de acordo com políticas econômicas adotadas pelos governos de esquerda, ligadas mais às questões sociais, fortalecimento do desenvolvimento nacional, como é defendido pelo governo do Alberto Fernández”, afirmou.

‘Fala de Mourão destoa de tom adotado pelo novo chanceler’

A Argentina é o principal parceiro comercial do Brasil na América do Sul e um dos principais parceiros econômicos no mundo. Segundo um texto do próprio Ministério das Relações Exteriores do Brasil, o comércio bilateral entre os dois países alcançou US$ 26 bilhões (R$ 147,5 bi) em 2018.

​O Itamaraty ainda diz que a “construção de uma relação política de confiança e cooperação com a Argentina contribui para a constituição de um espaço regional de paz e de cooperação. Somadas, as capacidades do Brasil e Argentina representam cerca de dois terços do território, da população e do PIB da América do Sul”.

Em seu primeiro discurso após assumir o cargo, o novo ministro das Relações Exteriores, Carlos França, elogiou o Mercosul e citou a Argentina.

“Outro lugar onde o diálogo se impõe é em nossa vizinhança. Os acordos nucleares do Brasil com a Argentina, por exemplo, que já têm mais de três décadas, são símbolo do predomínio da cooperação sobre a rivalidade. O Mercosul, que também completa três décadas, representa uma etapa construtiva da integração com nossos vizinhos. E é preciso ir além, abrindo novas oportunidades”, disse França nesta terça-feira (6).

O presidente da Argentina, Alberto Fernández, à esquerda, cumprimenta o vice-presidente do Brasil, Hamilton Mourão, durante a cerimônia de posse do presidente argentino.

Bárbara Neves entende que ao chamar a Argentina de um “país mendigo”, Mourão destoa do tom adotado com a troca no comando do Ministério das Relações Exteriores.

“A fala do novo ministro das Relações Exteriores coloca essas relações bilaterais com a Argentina e multilaterais com os vizinhos como um caminho a ser mantido”, analisou.

Para a especialista, a gestão do ex-chanceler Ernesto Araújo acabou isolando o Brasil no cenário internacional e há um esforço recente por parte do governo federal em alterar essa imagem.

“Não existe essa necessidade de aguçar os atritos [com a Argentina]. Na verdade, é o contrário. Existe uma percepção de isolamento do Brasil na América do Sul hoje em dia, principalmente com a Europa, por questões ambientais, e até mesmo com a China. […] Existe uma busca por se afastar dessa imagem ofensiva e não diplomática que o Brasil construiu durante o governo Bolsonaro com o ex-ministro Ernesto Aráujo”, explicou.

Segundo a especialista, a declaração do vice-presidente pode ser “uma faísca que mantém um atrito entre a Argentina e o Brasil”.

“A fala do Mourão, que acaba ofendendo ou falando de modo pejorativo sobre a situação da Argentina, mostra uma desconexão entre as instituições brasileiras”, completou Bárbara Neves.

As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

com informações da Agência Sputink

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