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A voz da incomunicabilidade

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marcio

“Eu quis criar um problema”. É assim que Marcio justifica o nome e apresenta a obra. Em Golegolegolegolegah!, seu novo livro de contos, publicado pela Travessa dos Editores, o autor coloca em pauta a falta de compreensão do outro: “Hoje convivemos com uma enorme dificuldade: a da incompreensão. Ninguém se entende. Ninguém se faz entender”, explica o contista.

A partir deste conflito, o autor criou narrativas que evidenciam personagens solitários. Nos seis contos que compõem o livro, a interação que mais chama a atenção é a que os personagens estabelecem com a própria solidão. Outra presença notável é a chuva, que, de maneira tímida, talvez desperte no leitor a associação com a cidade de Curitiba. Relação duvidosa, pois as histórias podem se passar em qualquer lugar, conforme sugere um dos personagens: “Posso estar em Maringá, Florianópolis, Caxias do Sul ou Campinas. Que diferença faz? Vim aqui para me esconder. Dos outros e principalmente de mim”, diz o personagem do conto que dá nome ao livro.

A ideia de falar da não comunicação vem da identificação do contista com a obra do cineasta italiano Michelangelo Antonioni, autor da trilogia da incomunicabilidade. Golegolegolegolegah! também flerta com o cinema de Fellini, ao retratar o mundo dos sonhos. A relação com os filmes e cineastas fica ainda mais evidente no projeto gráfico, com ilustrações intencionalmente desenvolvidas em P.B., assinado por Marciel Conrado.

Não por acaso, conversas literárias com Vila-Matas, Borges e Machado de Assis também marcam presença no livro. Márcio lê todo dia. Dezenas de livros ao mesmo tempo. Atualmente suas leituras passam por Balzac, Camões e Faulkner.

Discussões e reflexões
Diferente do que aconteceu com Minda-au (2010), o autor quer que o conteúdo de Golegolegolegolegah! seja discutido. Em seu livro de estreia, o fato de ele ser um escritor pouco conhecido e publicar por uma grande editora, a Record, chamou mais a atenção do que os 7 contos selecionados para aquela publicação.

O próprio autor lamenta o fato e conta que pessoas próximas, ao saber da notícia, vinham perguntar sobre a façanha de ter tal espaço na editora. Dificilmente pessoas se aproximavam para repercutir as reflexões propostas na ficção do autor. Como e onde ele publicou pareceu importar mais do que o que foi publicado.

Tal lacuna talvez justifique seu comportamento hoje: enquanto a maioria dos autores torce o bigode para críticas e ressalvas quanto às suas publicações, Marcio espera com certa naturalidade críticas negativas. Mais: uma de suas maiores expectativas com este novo lançamento é ter Golegolegolegolegah! – questionado – no sentido pejorativo. Quer, de fato, críticas.

Para além do julgamento da crítica literária, Marcio espera a resposta do olhar dos outros. Quer interlocuções. O escritor fala de Golegolegolegolegah! como uma obra inacabada, e espera que a opinião dos leitores ajude a construir e a dar um sentido ao livro. “Eu gostaria que o olhar das pessoas dissessem algo sobre minha ficção”, diz o contista, lembrando – empolgado – que Capitu, célebre personagem de Machado de Assis, foi literalmente julgada.

Um final de semana de Golegolegolegolegah!
Às vésperas do lançamento de Golegolegolegolegah!, marquei um encontro com o contista no café do Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba. Conheço Marcio há um bom tempo. Tempo o suficiente para temer virar (ou já ter virado) algum de seus personagens. Já devia imaginar que com ele não funcionaria qualquer modelo de entrevista pronta, tampouco um roteiro ou pauta preparada. Fui ingênuo e apareci com uma dúzia de perguntas formuladas.

Seguindo minhas perguntas, falaríamos sobre tudo: o significado desta nova publicação e os possíveis pontos de contato com Minda-au. De que modo suas leituras – diárias – dialogam com sua ficção e como é o seu processo de escrita. E, ao final, uma pergunta mais pessoal, pra ver se surgia alguma declaração surpreendente.

Não toquei no papel, nem em nenhuma das perguntas formuladas. O papo, que começou no café do MON, no sábado, foi terminar só no dia seguinte, na feirinha do Largo da Ordem, no centro da cidade. E o resultado é mais ou menos este que você, leitor, está vendo.

Pude ver que na divulgação de Golegolegolegolegah!, Marcio Renato lançou mão de um jeito pouco comum de divulgar a sua nova publicação: o autor passou as semanas que antecederam o lançamento do livro abraçando pessoas e tirando fotos. Em tom de brincadeira, ele diz que aquela iniciativa é o abraçaço do Golegolegolegolegah!.

No domingo, na feirinha, a jornada incluiu mais abraçaços: no Plá, figura conhecida do centro curitibano, nos Hare Krishnas da cidade e em quem mais parasse para ouvir Marcio Renato dos Santos falar um pouco sobre sua mais que peculiar ficção.

O autor-personagem
Enquanto o olhar dos outros sobre a recente publicação ainda não aparece, o jeito foi buscar o olhar dos outros em relação ao contista. Um jeito de ser curioso e uma visão de mundo tão particular acabam fazendo com que pessoas próximas tenham impressões distintas quanto à figura do escritor. Mais do que isso, definir Marcio parece ser um exercício sem fim. Exercício esse muitas vezes de ficção, como o de compor um personagem.

Em busca de uma resposta razoável, consultei seus antigos colegas de jornada. Conversei com (ex)companheiros de ofício. Questionei quem já foi e quem ainda é próximo ou de alguma forma ligado ao contista. Quem dividiu mesa de bar e quem dividiu mesa de redação com ele.

Logo vi que o consideram espirituoso. Também disseram que ele é generoso, que nunca se omite e está sempre ali para dar uma mão. Um grande leitor e um ótimo interlocutor intelectual. Como contista, crítico e jornalista, Marcio tem fama de combinar paixão e profissionalismo na sua relação com a literatura, contaram.

Mas a personalidade leve e palatável parou por aí e começou a ruir no relato dos tempos acadêmicos, no início dos anos 90. Dizem que Marcio quase enlouqueceu o então coordenador do curso de jornalismo, que não podia entrar na sala sem ser espinafrado por ele. Mas o que realmente chamava atenção dos outros estudantes é que, na faculdade, todos os argumentos do contista eram apoiados em canções do Caetano Veloso. Ele citava o Caetano em qualquer situação, para provar qualquer coisa que quisesse dizer. O que garantia a ira do coordenador e a diversão dos colegas de curso.

De outros tempos, estes mais recentes, há quem diga que Marcio é um personagem que escreve. Não por acaso, há também quem considere ele um “louco” necessário, que vive a literatura com toda a intensidade que ela merece. Se um viu loucura, outro vê uma pessoa inquieta que enxerga anjos saindo das portas.

Marcio é tendência, disseram. Curioso, com uma visão de mundo diferente, é capaz de preencher três páginas de jornal escrevendo sobre o fim dos tempos. Com bossa, inclusive, completaram. Gosta do rodízio, e não da mesmice.

Por fim, cravaram: Marcio é um clássico.

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