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“A melhor coisa seria Dilma renunciar”

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"A melhor coisa seria Dilma renunciar"

Murilo Gatti, O Diário de Maringá

Cineasta, roteirista, diretor e produtor de cinema e TV, crítico, jornalista e escritor, Arnaldo Jabor, 74 anos, veio a Maringá a convite da Associação Comercial e Empresarial de Maringá (Acim) e do Sicoob, para participar da festa em comemoração aos 15 anos do projeto Empreender, que envolve mais de 500 empresas.

Antes de subir ao palco do Teatro Calil Haddad, em palestra prestigiada por mais de 700 empresários e convidados, Jabor concedeu entrevista ao jornal O Diário e à Revista ACIM. Jabor lembrou que esteve em Maringá, há dez anos, em outra palestra, quando já prenunciava sobre problemas que o País teria com a chegada de Lula e do PT ao poder. Nessa nova oportunidade, como era de se esperar, o jornalista não poupou críticas à presidente Dilma Rousseff e ao presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB). Figuras públicas que Jabor quer ver longe do poder político brasileiro. Sobre a sétima arte, lamentou as dificuldades do cinema nacional e revelou que prepara um novo filme, “baratíssimo”, conta.

O senhor acredita que o parecer pela rejeição das contas do governo Dilma, aprovado pelos ministros do Tribunal de Contas da União, poderá acelerar o processo de impeachment?
Ninguém sabe nada. Mas se o Eduardo Cunha jogar o julgamento para o ano que vem vai ser chato. O que acho é que estão vindo à tona todos os absurdos que este governo cometeu para se eleger e para ficar. Eles têm uma atitude muito mais de tomar o poder que de governar. Eles consideram que invadiram e ganharam uma espécie de vitória revolucionária. Isso tudo está aparecendo. Este negócio das pedaladas e o que está por traz. Acho que o que é importante a gente ver é o desprezo pela sociedade e até por uma organização melhor das malandragens e dos malfeitos. Eles deixaram muito rastro em muitas coisas que fizeram e isso é um absurdo. Eles pouco se lixaram para a manipulação das contas que fizeram e é óbvio que foi muito importante a condenação, a rejeição das contas pelo Tribunal de Contas da União (TCU). Isso vai se somando a uma série de outras coisas que estão provocando uma mutação na vida brasileira, de alguma maneira. Não é uma crise, é uma mudança no País, é um avanço histórico no Brasil o TCU ter feito isso. Faz parte do conjunto, desse despertar geral sobre o equívoco que foi cometido nos últimos 12 anos no País. Essa é a ideia, porque há 12 anos eles consideraram que tomaram o poder e em 12 anos destruíram, o que é o mais grave.

E a decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) de abrir uma investigação sobre os gastos de campanha da Dilma, é importante ou pode influenciar num processo de impeachment?
Claro que é importante, mas não sei se o impeachment seria a melhor coisa para a gente. Acho que a melhor coisa seria ela (Dilma) renunciar. Esse negócio do TSE, acho que é um pouco remoto. É difícil que consigam. Eu acho até uma certa bobagem isso de voltar atrás para recusar as contas de campanha. Acho um pouco forçação de barra, mas pode acontecer, tudo pode acontecer no Brasil atualmente.

O senhor achar realmente que a presidente Dilma poderá renunciar?
Estou dizendo que seria o ideal para ela e para o Brasil, porque para ela terminaria com dignidade maior. Ela tomaria uma atitude positiva de alguma maneira e evitaria a vergonha de um eventual impeachment, o que é terrível. Agora, eu não consigo acreditar como é que vai ser, como é que ela vai aguentar três anos com o País inteiro criticando ela. Eu não aguentaria. Eu ficaria louco. Você já imaginou o Brasil falando tudo contra você.

A gente percebe nos discursos da Dilma que ela tem usado um tom de defesa?
Ela tem se defendido no discurso, mas você sente uma solidão nela, um desespero de não saber para onde vai. O Lula já tomou conta porque acha que ela não tem jeito e ela é muito precária, muito simplista. É muito raivosa, não tem paciência, dizem que ela é bruta com as pessoas, dizem e parece que é verdade. Eu tenho um conhecido que foi falar com ela, que viu ela dar um esporro num garçom. “Este café tá uma porcaria, vai embora”. Ela assustou todo mundo, foi uma coisa feia de ver, ele me disse. Então, acho ela muito teimosa e orgulhosa, tem aquela cabeça de velha comuna, que não desiste. Agora, o que vai acontecer, mais uma vez, não sabemos.

O presidente da Câmara, Eduardo Cunha, vai cair antes dela?
O Cunha já era, não sei o que vai acontecer com ele, mas ele entrou numa empáfia monumental. Mas é outro também que deixou o rabo preso, de uma maneira óbvia. É sabido que ele era sujo há muito tempo. Eu sou carioca, desde a época da Telerj, da Cedae, que é a companhia de águas. Ele e o Garotinho eram sócios nos esquemas. Aí ele veio com um ímpeto que deu medo no início. Ele está me processando, inclusive. Qualquer pessoa que critique ele, ele processa, automaticamente. Tem mais de 115 pessoas processadas. Ele tem um escritório só para processar, para criar medo. É a estratégia dele. Você viu um dos denunciantes (da Lava Jato) que falou que demorou a dizer porque foi ameaçado. Ele (Cunha), ameaça, “vou matar sua família”. Graças a Deus a máscara caiu. O apelido dele, não sei se vocês sabem, é “Coisa Ruim”. Ele me processou, inclusive, porque eu lembrei do apelido, mas já tinham falado. Agora vai tentar faturar no período de impeachment para ver se obscurece um pouco os escandalos que ele está envolvido. Mas não tem solução, tem o extrato do banco suíço. Como vai dizer que não tem conta? Ele tá querendo fazer igual ao Maluf, que negava tanto, negava tanto, que acha que é verdade.

O senhor enxerga alguma solução para a política brasileira?
Não tem solução, não existe essa palavra na história. Nunca uma coisa se soluciona. Quando é que vem a solução, em 2030 e, então acabou o problema, não. É um processo histórico, em tudo, em qualquer lugar do mundo. As pessoas me perguntam isso. Qual é a solução? Não tem solução. Agora, o importante é transformar o processo vicioso, num processo virtuoso. Por exemplo, o Fernando Henrique Cardoso tinha deixado um processo encaminhado, com uma direção virtuosa e esses caras entraram e jogaram pra traz. E não é porque eles são malvados, é porque eles acham que o Brasil, digo entre outras razões, fora a roubalheira, fora tudo, mas lá no fundo, ideologicamente, eles se conformam com a ideia de que o Brasil tinha que ser governado a partir do centro, que é o Estado, tudo ali, nacionalismo, tudo o que está contra o pensamento moderno, contemporâneo. Países do mundo inteiro não estão fazendo isso. A China mudou. O único lugar que tem assim é a Correia do Norte, Cuba e sei lá, talvez o Vietnã. Não, não, o Vietnã até que é legal. Mas essa visão retroativa é muito forte.

Por conta dessas críticas que faz ao governo, o senhor chegou a ser ameaçado alguma vez?
Já me processaram algumas vezes. Tive cinco processos até agora, mas ganhei todos. Mas recebo e-mails terríveis. Dizem ‘canalha’, ‘filho da p.’ , agora, ninguém me ameaçou, ainda. Eu evito quando tenho uma opinião. Tenho que ter provas. Dizer fulano é ladrão sem provas, eu evito. Mas ameças não, e a maioria das pessoas, graças a Deus, gosta das coisas que eu falo. Tenho inimigos, muitos inimigos, mas basicamente são os cara que pensam assim. Tem coisas inacreditáveis. Este circulo de pensamento atinge muita gente inteligente. Você não viu o Chico Buarque outro dia dando um autógrafo para Maduro e elogiando a Venezuela. Ele está louco? Ele não vê, inclusive não me dou com ele (Chico), briguei com ele há uns cinco anos por outros motivos. Mas esse cara é louco. “Ao Maduro, com amor do Chico”, naquele livro dele. Pô! Aí é de demais. Aí é fé. Não é um fenômeno político, é um fenômeno de fé. Igual comentar sobre a Virgem Maria e que Jesus nasceu de uma mulher virgem. Se você disser que não, você é um canalha, um ateu. É excomungado, é a mesma coisa. Tem que acreditar e eles acreditam, o que posso fazer.

Qual a sua opinião sobre o cinema brasileiro hoje?
O cinema tá um horror, como sempre esteve. O cinema sempre foi uma coisa difícil no Brasil. Você sempre teve o cinema prejudicado no Brasil. Quando encontro com cineastas, eles estão sempre se lamentando, o tempo todo. E depois que parei de fazer cinema, há 20 anos – depois fiz mais um filme agora, há 4 anos – me deu alívio. Porque no cinema você só vive com frustração e com ansiedade, entendeu? Será que vai ter dinheiro? E se não sair? E o cinema, hoje em dia, tá dominado, como sempre esteve, mas agora é mais forte ainda pelos grandes blockbusters, os grandes filmes americanos que entram em cartaz em 400 salas. Aí entram os Transformers em 250 salas e o filme brasileiro fica encurralado. De repente ele consegue um buraquinho, mas do ponto de vista industrial e comercial não fecha a equação. É basicamente isso, nós somos uma atividade falida do ponto de vista contábil. Mas a gente continua a fazer cinema. Estou escrevendo, acabando de fazer um filme agora, acabando de escrever. Mas vai ser um filme baratíssimo, com apenas três pessoas em cena, numa casa, tá entendendo.Aí pode ser.

Esse novo filme vai ter uma história política?
Sim, mas não dá para contar agora.

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