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Empresários brasileiros presos na Suíça por lavagem milionária

Hugo Marques, Veja

Eles levavam uma vida de luxo, com investimentos milionários em contas bancárias, apartamentos sofisticados na Barra da Tijuca e passeios turísticos. Donos de duas empresas de transferência interbancária de moedas na Suíça, Anelise Monteiro da Silva e seu marido Sebastião Monteiro da Silva criaram as duas filhas na Europa. Mas de repente, a vida do casal virou de cabeça para baixo. Anelise e Sebastião estão presos na Suíça desde o dia 29 de maio, acusados de envolvimento em um esquema de lavagem de dinheiro do tráfico internacional de cocaína. As duas empresas de money transfer do casal, Sebi Express e Saturno GmbH, teriam operado grandes quantias de dinheiro em espécie, provenientes da venda de droga na Europa. O dinheiro da cocaína, segundo a investigação, era transferido da Suíça para outros países, incluindo o Brasil, através de três bancos. A Sebi Express opera na Suíça desde 1996 e tem lojas de atendimento nas cidades de Genebra, Zurique, Basileia e Lausanne.

A prisão do casal se deu na Operação Burnout, que significa cauterizar, queimar alguma coisa até desparecer. As polícias do Brasil, Suíça e Alemanha apreenderam documentos em vários endereços, incluindo Brasília, já que uma empresa sediada no centro da capital do país, a três quilômetros do Congresso Nacional, é investigada por lavar dinheiro do esquema. No Brasil, a operação contou com o apoio da Secretaria de Cooperação Internacional da Procuradoria-Geral da República, da Procuradoria da República no DF e Polícia Federal.

Desde o início das investigações na Europa, em 2009, quando a polícia da Alemanha apreendeu 1,3 tonelada de cocaína, as transferências bancárias do grupo foram rastreadas em quatro investidas policias: as operações internacionais Burnout, Crazy Hill, Vento e Trabandan. A Sebi Express teria lavado diretamente dinheiro derivado da venda de meia tonelada de cocaína, segundo os relatórios da polícia suíça. Nas quatro operações policiais, foram identificadas transações bancárias que ultrapassam 32 milhões de reais, dinheiro oriundo do comércio de droga. Além das lojas em quatro cidades da Suíça, a Sebi Express opera com sete “subagentes”, empresas que teriam redistribuído o dinheiro. A investigação mostra que o casal teria recorrido a faturas falsificadas e prestação de serviços fictícios para operar com dinheiro do narcotráfico.

No ano passado, a Suíça pediu cooperação ao Brasil e em maio desse ano foram deslanchadas as buscas no Rio e em Brasília. Os acusados, no entanto, foram monitorados e presos somente quando as provas já eram fartas, na Europa e no Brasil. Uma das testemunhas do esquema de lavagem é o paraguaio Miguel Anibal Duarte Lezcano, que já foi preso no Brasil por lavagem de dinheiro do narcotráfico e depois foi extraditado para a Alemanha. Ele revelou em depoimento, em Hamburgo, ter usado a rede da Sebi Express para transferir dinheiro. Ele pegava as malas de dinheiro em um hotel em Genebra e levava para a Sebi Express transferir. O traficante disse em seu interrogatório que: “O Sebastião Fernandes da Silva tinha conhecimento de todo o negócio”.

Anelise e o marido tiveram bens e contas bancárias bloqueados no Brasil, no valor de 10 milhões de francos suíços, o correspondente a 32 milhões de reais. O casal possui imóveis de luxo na praia da Barra da Tijuca. Somente no Banco Itaú foram bloqueados 3,3 milhões de reais do casal. Anelise e Sebastião não declaravam seus bens regularmente no Brasil. Em favor de Anelise e do marido há um despacho sigiloso do Ministério Público Federal no Brasil, de maio, dizendo que ainda não existia nos autos em poder do MPF brasileiro prova material da participação do casal no esquema internacional, embora o pedido de cooperação suíço, diz o documento, mencionasse inúmeras operações em que estaria demonstrada a participação de ambos na atividade do grupo criminoso investigado.

O pai de Anelise, Abel Monteiro, diz que só se comunica com a filha por cartas, obrigatoriamente escritas em alemão, para que haja monitoramento da polícia. Ele diz que nunca conseguiu acesso aos processos judiciais que envolvem Anelise e Sebastião no Brasil e na Suíça. “Eu soube que existe um processo na Justiça Federal no Brasil, mas nunca tivemos acesso ao conteúdo”, diz Abel. Os advogados de Anelise na Suíça se recusam a dar informações até para a família, diz Abel. No Brasil, o processo é secreto e os nomes nem aparecem no sistema digital da Justiça. “Estamos passando por um problema complicadíssimo, pois não temos como dar assistência para nossa filha”, lamenta Abel.

Anelise e Sebastião têm dupla cidadania. As duas filhas do casal moram na Suíça. Abel defende sua filha Anelise e seu genro: “É possível que, sem querer, alguém que lavava dinheiro tenha depositado na conta deles para que o dinheiro fosse para outra pessoa. Se fosse um traficante, aí estariam enredados no esquema, sem saber e sem querer. Eles sempre foram trabalhadores”, diz Abel. Ele acredita que a filha vai provar sua inocência. “Na internet, ela adotou o nome de Anelise ‘Guerreira’”, diz Abel.