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Ao Zero Hora, Gleisi se esquiva de falar sobre Gaievski e prisões do mensalão

13 de dezembro de 2013
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"Na gestão pública, não estão acostumados a cobrança", diz Gleisi Hoffmann, ministra-chefe da Casa Civil Robson Cesco/Especial

Com respostas curtas e até escapadinhas de assunto, a paranaense Gleisi Hoffmann concedeu uma entrevista do diário gaúcho Zero Hora. Fez um balanço dos dois anos e meio em que comandou a Casa Civil e um pouco sobre vida pessoal ao longo de cerca de 40 minutos de conversa, só interrompida pelo chamado da presidente Dilma, para recepcionar o presidente francês Hollande.

Segundo o jornal, Gleisi “pretende dedicar mais tempo à paróquia, tentando viabilizar a candidatura retornando ao Senado já no próximo mês. Sobre o Gaiveksi a ministra disse apenas que o caso é lamentável e que espera que as coisas sejam esclarecidas. Já sobre o mensalão, mais uma esquivada: “É um caso que pertence ao Judiciário, já foi julgado” e “Não vou entrar nesta discussão”.

Abaixo a íntegra da entrevista: 

Zero Hora — A senhora vai deixar a Casa Civil para concorrer ao governo do Paraná?

Gleisi Hoffmann — Não há definição. Isso só será feito em 2014. Existe a possibilidade de eu deixar a Casa Civil no início do ano que vem para avaliar.

ZH — Como é a experiência de ser a Dilma da Dilma?

Gleisi — Não sou a Dilma da Dilma. A presidenta tem outra característica. Tentei suprir uma demanda que a própria presidenta passou, de ter a atenção voltada para organização interna do governo, monitorando os programas, coordenando as ações para buscar resultados à população. Jamais pretendi substituí-la.

ZH — O perfil da senhora é diferente dos seus antecessores, como José Dirceu, Antonio Palocci e a própria presidente. Qual a marca que a senhora deixa na Casa Civil?

Gleisi — Não tenho preocupação de deixar marca. Aqui é a antessala do gabinete da Presidência, quem deixa marca é a presidenta. Minha atuação é de retaguarda, para fazer as coisas andarem da melhor forma possível.

ZH — Como a senhora vê as prisões do mensalão?

Gleisi — É um caso que pertence ao Judiciário, já foi julgado. Só espero que o rigor com que esse julgamento aconteceu seja o rigor que permeie todos os demais julgamentos daqui para frente em relação a casos semelhantes.

ZH — A senhora se refere ao mensalão do PSDB?

Gleisi — Me refiro a todos os casos.

ZH — Há presos políticos no mensalão?

Gleisi — Não vou entrar nesta discussão.

ZH — O empresário Jorge Gerdau elogiou as concessões recentemente, mas disse que há defasagem de 20 anos na logística do Brasil. Quando o atraso será superado?

Gleisi — Ele tem razão. Esta falta era tão presente que, em 2007, o presidente Lula lançou o PAC, que a presidenta Dilma organizou e coordenou. Como fazia muito tempo que o Estado não investia, faltavam projetos de engenharia. Como diz a Miriam Belchior (ministra do Planejamento), tivemos de trocar o pneu e melhorar o motor com o carro andando.

ZH — Mas persistem as queixas do empresariado sobre o governo, sobre a falta de diálogo.

Gleisi — Há muita fofoca. Minha avaliação se dá muito em relação ao que é prático. A melhor forma de avaliar são as parcerias. E as concessões de aeroportos, portos e rodovias, o leilão de Libra, as futuras concessões de ferrovia dão uma resposta positiva. Fizemos um chamado para a iniciativa privada participar de forma mais incisiva com as concessões. Vamos dar resposta à demanda.

ZH — Do que a senhora sente mais falta da vida antes da Casa Civil?

Gleisi — Do tempo livre, de ler mais, de sair mais e passear. A demanda é muito grande, o país é muito grande.

ZH — A senhora é mulher do ministro Paulo Bernardo. Conseguem tempo para namorar?

Gleisi — A gente trabalha muito em casa, de vez em quando vamos ao cinema. Leio muitas coisas. Comecei a ler o livro 1889, do Laurentino Gomes.

ZH — O PIB teve a maior queda em quase cinco anos. Isso é normal na economia, ou, como diz a oposição, o Brasil vive uma crise de expectativas?

Gleisi — O Brasil faz parte do mundo, que está em uma crise que coloca os países desenvolvidos em grandes dificuldades. Europa, EUA, China tiveram dificuldades, é natural termos impactos. Agora, é importante analisar a vida do povo. O Brasil conseguiu manter qualidade de vida, temos o menor índice de desemprego dos últimos tempos, não deixamos a renda cair, a inflação e a dívida em relação ao PIB estão controladas, mantivemos programas de inclusão.

ZH — A presidente distribui muitas broncas?

Gleisi — A presidenta cobra muito, e isso é muito positivo. Tem um mito sobre as broncas, mas isso acontece porque as pessoas na política ou na gestão pública não estão acostumadas a cobranças de resultados mais efetivos. E a presidenta é uma gestora, ela cobra resultados.

ZH — Existe um conflito no país sobre a demarcação de terras indígenas e quilombolas. Como equacionar a situação?

Gleisi — Precisamos mediar a relação. Não adianta fazer uma demarcação porque ali há direito de terra indígena, sem considerar o pequeno agricultor ou os quilombolas. Se não dá para demarcar como gostaríamos, vamos fazer uma mediação, uma demarcação que atenda às expectativas de todos. Temos de buscar o equilíbrio, ter procedimentos sobre as demarcações e ouvir todos os envolvidos, não apenas a Funai. Temos de ouvir o Incra, os ministérios da Cidade e Desenvolvimento Agrário, a Secretaria de Direitos Humanos, ouvir todos.

ZH — E a situação da compra de terras por estrangeiros no Brasil, o governo estuda rever o parecer que limita a aquisição?

Gleisi — Por enquanto, o assunto não é prioridade. Temos de ter muito cuidado, terra é questão de soberania nacional. Queremos que este país produza essencialmente para o povo brasileiro e, de preferência, por brasileiros.

ZH — Mas as limitações atrapalham investimentos, como o da celulose no Rio Grande do Sul.

Gleisi — Há questões específicas que precisam de respostas, como a celulose. A AGU(Advocacia-Geral da União) está estudando soluções pontuais.

ZH — Dilma discute alianças com a senhora?

Gleisi — Não discuto esse assunto com a presidenta.

ZH — O recente aumento na expectativa de vida da população reduziu o valor das aposentadorias. O governo estuda mexer no fator previdenciário?

Gleisi — A discussão sobre o tema está em andamento, mas não há definição.

ZH — O projeto de lei do novo indexador da dívida dos Estados está no Congresso e deveria ser votado este ano, mas deve ficar para 2014. Qual a posição real do governo?

Gleisi — É uma posição de cautela, coordenada pelo Ministério da Fazenda.

ZH — Mas o projeto será votado no ano que vem?

Gleisi — O Congresso tem autonomia para fazer sua parte, mas, como existe uma situação econômica externa adversa, temos de trabalhar com cautela todas as medidas com impacto fiscal e na macroeconomia.

ZH — As manifestações de junho mudaram a rotina da senhora e a do governo?

Gleisi — A presidenta foi muito ativa nas ações para responder à população. Focamos em temas que avaliamos que as mobilizações colocavam como prioritárias para o governo. Além das atividades e dos desafios cotidianos com a gestão da máquina, houve foco nos pactos anunciados pela presidenta.

ZH — Preocupa a possibilidade de que as manifestações se repitam na Copa?

Gleisi — O país é livre e democrático, a manifestação quando é pacífica é bem-vinda. Queremos evitar as manifestações violentas, que não contribuem com a democracia. O governo vai estar preparado para o enfrentamento.

ZH — Falando em Copa, permanecem os gargalos de infraestrutura. Eles ameaçam o Mundial?

Gleisi — Não ameaçam. Estamos com aquilo que é essencial para realizar a Copa sob controle, tanto nos aeroportos e na mobilidade assim como nos estádios, que são investimentos privados. Vamos realizar uma boa Copa.

ZH — Como está a relação com Tribunal de Contas da União (TCU)?

Gleisi — O TCU é parceiro no programa de concessões, fez avaliações rápidas, acatamos muitas sugestões. É óbvio que o TCU também trabalha com equipe reduzida e não tem toda a experiência necessária para avaliar todas as propostas. Temos concessões de ferrovia, o que o país não fazia há anos, então é normal o TCU ter dificuldades. É importante ter claro o papel de cada um. Cabe ao Executivo definir e executar a política, enquanto ao TCU cabe fiscalizar.

ZH — Congresso e governo discutem a PEC do orçamento impositivo. As emendas influenciam tanto na relação com os parlamentares?

Gleisi — A emenda é um direito do parlamentar. Particularmente, sou contra o orçamento impositivo. É sempre um risco impor uma despesa sem saber se aquela receita vai se efetivar. O parlamento entendeu que deveria ser assegurada a emenda, mas achamos que deveria ser negociado, mediamos para que uma parte substancial do dinheiro vá para saúde. A proposta é razoável e equilibrada, é passível de ser executada.

ZH — Um ex-assessor da Casa Civil (Eduardo Gaievski) foi preso após denúncia de pedofilia. Qual foi a sua reação?

Gleisi — Foi um momento muito triste. Espero que as coisas sejam esclarecidas, e os responsáveis, punidos.

ZH — A presidente Dilma já disse que sente preconceito por ser mulher. A senhora acha que o preconceito permanece?

Gleisi — Não de forma clara ou expressa, mas ainda tem. A política é um ambiente majoritariamente masculino, as pessoas não estão acostumadas à presença feminina, especialmente em postos de comando.

ZH — A senhora é uma mulher bonita. Recebe muitas cantadas, toma cuidados com a beleza?

Gleisi — Nunca recebi cantadas e sou vaidosa como toda mulher. Procuro caminhar todas as manhãs, mas não consigo ir à academia.

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