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Opção por agronegócio eleva déficit tecnológico a R$ 51 bi

Opção por agronegócio eleva déficit tecnológico a R$ 51 bi

Por Rogério Lessa, no Monitor Mercantil

Em entrevista exclusiva ao MM, o diretor geral da Sociedade Brasileira Pró- Inovação Tecnológica (Protec), Roberto Nicolsky, disse que houve evolução na criação de fundamentos para uma política de desenvolvimento tecnológico e inovação, mas o Brasil patina na sua aplicação por causa de equívocos administrativos e, sobretudo, por culpa da política macroeconômica.

“Criou-se um marco legal, o BNDES entrou no circuito. Mas ninguém vai investir com juros altos para depois não conseguir exportar por causa da sobrevalorização cambial”, criticou, alertando para o que chama de “apagão tecnológico”, que tem como consequência a reprimarização de nossa economia e a desnacionalização do parque produtivo.

Nicolsky ressaltou que nos países desenvolvidos a política econômica está sempre em sintonia com a política industrial:

“No Brasil, o déficit comercial nos setores de média-alta tecnologia e alta tecnologia, saiu de US$ 13 bilhões, em 2006, que era um valor histórico, e saltou para US$ 51 bilhões. É um fenômeno aterrorizante, pois, na medida em que se desindustrializa, há uma perda de domínio tecnológico”, contabilizou Nicolsky, professor do Instituto de Física da UFRJ.

Na sua opinião, quais são os cinco setores mais dinâmicos e/ou estratégicos da economia mundial atualmente?

Em primeiro lugar, tecnologia da informação (TI). É o mais ativo, dinâmico e o mais relevante. Depois, a indústria da comunicação (hardwares, eletrônica de comunicação etc.). Em terceiro lugar, eu diria que é a eletrônica de consumo, sempre com novos produtos.

Em seguida, a indústria farmacêutica. No quinto lugar, a indústria química, sobretudo termoplásticos. Quem domina essas tecnologias está bem, pois muitas delas são transversais. A indústria automobilística, por exemplo, usa eletrônica, produtos químicos e até de comunicação, já que o carro atualmente interage com o meio externo, como é o caso do GPS.

A aeronáutica também usa componentes desses setores. Apenas a farmoquímica é isolada. As demais são transversais e promovem o desenvolvimento.

Como fica o Brasil neste cenário?

Em nenhuma dessas áreas somos geradores de tecnologia. Em TI temos coisas pontuais, como sistemas de automação bancária. Neste setor, a Índia é grande exportador. Nas teles, estamos na estaca zero.

Tudo que se faz aqui é importado. Já houve produção nacional, mas acabou. Na eletrônica básica é igual: temos indústria apenas maquiladora. Na área de química, o déficit comercial supera os US$ 20 bilhões.

Na farmacêutica, temos alguma coisa produzida na área de medicamentos, mas nos farmo-químicos (princípio ativo) estamos muito mal. Somos uma indústria farmacêutica de grande porte, mas com pés de barro.

Em que setores somos fortes?

Geramos tecnologia em aeronáutica (Embraer), extração de petróleo, papel celulose, agronegócios e mineração, mas, em todos os casos, a tecnologia de adaptação é nossa, mas a de equipamentos é importada.

Infelizmente, nossa presença no mercado mundial, exceto aeronáutica, está nas indústrias primárias. Não exportamos equipamentos para extração de petróleo ou produção de papel, produto da celulose.

Isso mostra o quanto estamos reduzidos a aspectos primários do processo econômico. Ou seja, a tendência de retração na indústria de transformação, que agrega valor e está inclusive ameaçada de desaparecimento em setores como o da farmoquímica, no quais restam meia dúzia de empresas que não representam nem 10% da demanda brasileira. E é uma área estratégica.

O senhor tem afirmado em diversos artigos que o Brasil vive um processo de desindustrialização. Quais são as causas?

Os condicionantes macroeconômicos são contra a indústria. Com câmbio apreciado e juros altos, é muito natural que tenhamos um processo anti-industrial.

Já, em 2004, mostrávamos que, praticamente, a indústria farmoquímica estava desaparecendo. De 2006 para cá isso se acentuou, em todos setores, pois, com o país crescendo mais, a demanda interna aumenta e a indústria tem de escolher sobre investir e aumentar a capacidade instalada ou importar componentes.

A área eletrônica já era praticamente uma montadora e isso se expandiu para bens de capital, farmacêutica etc. O déficit comercial nos setores de média-alta tecnologia e alta, passou de US$ 13 bilhões em 2006, que era um valor histórico, para US$ 51 bilhões. É aterrorizante, um verdadeiro apagão tecnológico.

O que fazer para atrair investimento estrangeiro direto (IED) de qualidade ou induzir as multinacionais aqui instaladas a essa produção mais sofisticada?

Obrigar é difícil, pois não temos sistema como o chinês, já que nosso cambio é livre. Teríamos de pensar numa legislação apropriada, pois um IOF de 2% não é nada com real sobrevalorizado, no mínimo, em 15%.

O ideal seria criar mecanismos tributários e fiscais para beneficiar apenas os que seguissem determinadas regras. Mas o IED vem para compra de empresas ou vai para áreas que não trazem tecnologia nem exportações, pelo contrário.

A fabricação exige política nacional de Estado, em qualquer parte do mundo. Não acontece voluntariamente. Indústria diversificada do Brasil é resultado de uma política de Estado que promoveu a substituição de importações.

Sou crítico da reserva de mercado, prefiro desenvolvimento tecnológico local. De qualquer maneira isso promoveu uma industrialização acelerada e generalizada.

Após duas décadas perdidas, como estamos agora?

A pressa de fazer o país crescer a qualquer custo via saldo comercial fez um estrago enorme na área industrial porque não se criou um contrapeso, uma política ousada de defesa da tecnologia nacional.

Cerca de 70% de nossas exportações são commodities (incluindo a baixa industrialização). Em 2009, o PIB 2009 industrial caiu mais de 5%, mas a indústria de transformação despencou quase 10%. Ela hoje representa apenas 13,5% do PIB, quando já foi mais de 20%. Estamos retornando ao Brasil de antes da II Guerra, que se caracterizava por ser agroexportador.

Como as compras governamentais poderiam ajudar nossa indústria de ponta?

Na farmacêutica a compra é 30% governamental. O ministro Temporão (José, da Saúde) está querendo usá-la como estratégia de alavancagem. A Fiocruz, por exemplo, passou a comprar apenas produto nacional. Isso já foi um grande avanço, pois o desenvolvimento tecnológico está implícito.

Na área de Defesa isso também está sendo feito. Mas a compra governamental não cobre todas as áreas. Foi fácil na Defesa e na farmacêutica porque o SUS e o Ministério da Defesa compram muito. Mas na área de eletrônica, TI, teles, como não há uma política nacional, não está produzindo os efeitos. A renúncia fiscal sobre computadores desenvolveu uma indústria apenas montadora, como a de celulares e produtos eletrônicos de consumo.

Como avalia a política industrial do governo?

Por enquanto é apenas uma intenção, mas não há aplicação efetiva porque o ponto crucial, chave para o desenvolvimento industrial, atualmente é a geração de inovações tecnológicas e sua incorporação à produção. Ao mesmo tempo, as condições macroeconômicas não ajudam e estão descoladas da política industrial. A China pratica juros irrisórios e câmbio desvalorizado, com defasagem de 40%. Isso, somado aos 15% de valorização do Brasil, dá um diferencial de 55% somente na área cambial, sem considerar os custos, legislação ambiental.

O senhor acaba de chegar de São Paulo, onde houve reunião da nova Secretaria de Inovação, do Ministério do Desenvolvimento. Qual sua avaliação?

A nova secretaria quer assumir o papel de principal gestora da política de desenvolvimento tecnológico, antes a cargo do Ministério de Ciência e Tecnologia, uma coisa esquizofrênica. Isso não existe nos países geradores de tecnologia. Tivemos na Protec uma reunião com o embaixador do Brasil da Alemanha. Naquele país, a tecnologia está imbricada com a produção. É na produção que se pratica a tecnologia. A universidade produz conhecimento. Não é trivial passar de uma idéia para um produto. A Alemanha tem um ministério apropriado para isto: o da Economia e Tecnologia, cujo ministro vem ao Brasil em abril.