Zeca Dirceu
Quem acorda cedo para trabalhar sabe: a vida não cabe numa planilha. Cabe no salário que precisa chegar ao fim do mês, no negócio que sustenta uma família, na vontade de crescer. É essa vida que fica mais difícil quando o Banco Central mantém a Selic em 13,75% ao ano e interrompe a queda dos juros. Para milhões de brasileiros, a decisão significa mais uma vez ouvir: seu futuro vai ter de esperar.
Esperar por quê? O Brasil precisa de investimento, infraestrutura, tecnologia e empregos melhores. Mas impõe um pedágio pesado a quem quer produzir, enquanto oferece remuneração elevada a quem pode aplicar seu dinheiro. Abrir uma fábrica exige coragem. Desenvolver um produto exige tempo. Contratar exige confiança. Tudo isso precisa disputar recursos com aplicações de retorno alto e risco relativamente baixo. Depois, ainda perguntam por que o investimento não deslancha.
O problema começa aí e chega depressa à rua. A família adia a compra porque a prestação não cabe no bolso. O comércio vende menos e reduz encomendas. A indústria segura a expansão. A contratação fica para depois, o trabalhador perde força para negociar salário e o consumo volta a encolher. O país tem capacidade para avançar, mas encontra o crédito caro atravessado no caminho.
No Paraná, isso pesa no pequeno empresário que precisa de capital de giro, na indústria que quer trocar equipamentos, no produtor que depende de financiamento a taxas de mercado. São decisões adiadas, oportunidades perdidas, planos de uma vida colocados na gaveta. O atraso tem rosto, endereço e conta para pagar.
Enquanto isso, quem dispõe de patrimônio financeiro encontra oportunidades de ampliar seus rendimentos. A distância cresce: de um lado, quem precisa tomar dinheiro emprestado para seguir trabalhando; de outro, quem recebe para emprestá-lo. Essa engrenagem compromete a distribuição de renda. Como defender o interesse público mantendo tamanha pressão sobre quem gera riqueza e emprego?
Claro que a inflação precisa ser combatida. Quem vive de salário sabe o estrago que ela faz. Mas proteger o poder de compra também exige preservar as condições de produção. Juro alto não faz chover, não encerra guerra nem extrai petróleo. Pode conter a demanda e influenciar o câmbio e as expectativas, mas tem limites diante de choques de oferta. Sacrificar investimento por tempo demais pode agravar os obstáculos que precisamos vencer.
É por isso que questiono os que defendem a autonomia do Banco Central. O BC precisa ter maior controle social acompanhado de cobrança pública. Independência para decidir exige responsabilidade para explicar. Qual é o custo dessa política para o emprego? Quanto crescimento estamos adiando? Quem responde pelo futuro que deixamos de construir? Essas perguntas pertencem a toda a sociedade.
E precisamos fazê-las antes que a frustração seja sequestrada por quem vende ódio e discriminação como explicação para tudo. Culpar automaticamente o atual governo ou escolher um inimigo conveniente esconde os mecanismos que apertam a vida das pessoas. A revolta muda de alvo, mas os interesses beneficiados continuam fora de cena. Entender quem decide, quem ganha e quem paga é parte da defesa da democracia.
O rentismo tem beneficiado uma parcela mínima de brasileiros – estima-se em 20 mil famílias – e estrangeiros (três mil bilionários e algumas dezenas de famílias). Capitais especulativos procuram retorno; podem ir embora quando outra praça pagar mais. O compromisso com o Brasil precisa estar nas nossas instituições. Aceitar que o desenvolvimento fique subordinado à conveniência dessas carteiras é abandonar a população justamente quando ela mais precisa de oportunidades.
Defendo a redução responsável dos juros, crédito para produzir e investimento em infraestrutura, ciência e inovação. Quero um país em que trabalhar, empreender e criar abram caminhos para uma vida melhor.
O Brasil não nasceu para ser uma carteira de aplicações. Tem gente demais esperando uma chance para continuar pagando juros sobre o próprio atraso.
Zeca Dirceu é deputado federal pelo PT do Paraná e membro titular da Comissão de Educação da Câmara dos Deputados
(foto: Ascom/Deputado Zeca Dirceu)












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