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Rogério Bonato arrasta erudição em Obesus Insanus

por Zé Beto Maciel

Rogério Bonato arrasta seu mobiliário num frenetismo sem par. Agora flerta ao erudito em “Obesus Insanus” – 159 páginas, ilustrações de Leonardo da Vinci, pela Geração Editorial.

Ex-gordo, ou na tentativa de sê-lo, traz novo relicário a La Bonato das aventuras de dietas mal-sucedidas, conversa com o tinhoso, receitas e pratos bem feitos, o cardápio da Santa Ceia, um capítulo inteiro de um mundo pós-apocalíptico sem por qual razão, um pouco de auto-ajuda que ninguém é de ferro e, enfim, a hiperatividade assumida. Não se enganem: o livro é de leitura rápida e recomendável.

Como já fez em “Arapuka” e “Gato Preto, Gato Branco”, Bonato hiperbola e liquidifica tudo ao mesmo tempo agora. Sem qualquer paralelo, Jô Soares em “As Esganadas” – seu último livro -, é cobrado também pelo didatismo histórico e detalhismo pontuado.

Querendo ou não, o livro de Jô Soares, que está emagrecendo, também trata de gordos, mais precisamente de um serial killer que persegue jovens gordas no Rio de Janeiro dos anos 30.

Bonato não é Jô Soares, trata dele mesmo na primeira pessoa e chega ao final do livro contando como cortou boa parte de sua própria gordura. No primeiro capítulo, deixem de lado as referências gastronômicas e etílicas na prosa com o diabo e se atenham a algo, diria, lírico: “Em teoria e na minha forma de expressar, extirpamos o que não é bom, embora alguns arremessem as letras contra o papel como se fossem pedaços da própria carne”. Gosto de me considerar, talvez não o seja, parte deste time.

O segundo capítulo trata de um monte de gente boa, em especial, Orson Welles, do Cidadão Kane, da Marca da Maldade, de 1958 – ano muito bom ao Brasil, de uma efervescência em todos os níveis e de uma penca de personalidades nascidas no em que o Brasil conquistava seu primeiro título mundial nos gramados da Suécia. Lembrem-se, Bonato nasceu em 58 e consegue apontar algumas personagens da literatura e do cinema – todos gordos, de Sancho Pança ao Sargento Garcia.

Esqueçam o terceiro capítulo. Alguém deve ter colocado alguma coisa no chá verde que Rogério Bonato tomava enquanto escrevia aquelas linhas. Também estão overs três prefácios, nota sobre o autor e o agradecimento, além de tantas referências médicas, apesar do livro tratar de como chegar num corpo para agüentar a vida depois dos 50 anos.

E Bonato parece ter chegado lá. No quarto capítulo descreve todas as dietas possíveis e os percalços da vida de um gordo. Problemas de todo o tipo, até sexual: “Não seria constrangedor ilustrar o ato sexual de um gordo, caso a maioria não tivesse a cara de pau ao revelar que não consegue ver o próprio pênis?!”. Dessa eu lembro do músical “Vale Tudo Tim Maia”, com o excelente Tiago Abravanel. Entre os hits, o musical traz os aforismos do gordo Tim Maia. Sobre o sexo: “Se eu beijo, não penetro. Se penetro, não beijo”. Sobre as dietas de emagracer: “Eu cortei a carne, a gordura, o acuçar, as massas, a cerveja e as bebidas. Em duas semanas, perdi 14 dias”. O musical, escrito por Nelson Motta, é muito bom.

Nos quinto e sextos capítulos, lê-se um Bonato assumindo a hiperatividade assistida há tempos por quase todos que o rodeiam e assustado com a perda do pai Benito e de entes próximos como o Selmo Aragão – que o cunhou de Macunaíma iguaçuense – e de Eduardo Dudu Constantinopolos. Como já disse um amigo, Sergio Rizzi, “você conhece algum gordo, velho?”. Não é claro. “Então tome tenência, faça como eu, e emagreça”.

Bonato tomou tenência e listou até todas as suas altas taxas de colesterol, triglicerídios, glicose, entre outras. Para reduzir todas elas, suou a camisa e aderiu a comida japonesa. Qualquer integrante da Boca Maldita diria que não precisava de tanto. Era só falar com o amigo prefeito Paulo Mac Donald que, pelo menos, taxas de colesterol e de glicose, as baixava via decreto.

Bonato termina seu livro falando de algo imaterial e de um sonho de dois minutos que parece caber numa história. É essa toada da vida louca em que Rogério Bonato parece querer abraçar o mundo. Aos 50 descobriu que nem sempre “o caminho do excesso leva ao palácio da sabedoria”, como escreveu Willian Blake em “União do Céu e do Inferno”. Bem que o diabo, na próxima conversa, vai lembrá-lo disto.

Zé Beto Maciel é jornalista em Curitiba