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Que País teremos?

Sob Dilma, revelam os indicadores, os próximos três anos tendem a ser de crise econômica e desarticulação política. A mudança de rumo é o caminho mais curto para a retomada da prosperidade

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Sérgio Pardellas, IstoÉ

“Conduzir uma nação, em momento de tamanhas apreensões, só o pode e deve fazer quem seja capaz de tudo sacrificar pela felicidade comum”. As palavras proferidas pelo líder trabalhista Getúlio Vargas no dia 7 de setembro de 1938, durante o Estado Novo, deveriam servir de inspiração para a ex-integrante do PDT e atual presidente do Brasil, Dilma Rousseff. Não é o caso. Incapaz de um ato de grandeza, Dilma segue com a única agenda assumida com vigor e acuidade por ela desde o segundo semestre deste ano: a de não cair. Os projetos para o País, se existem, repousam em alguma gaveta empoeirada do Palácio do Planalto. As medidas de ajuste fiscal, necessárias ao reequilíbrio das contas públicas, delegadas ao ministro da Fazenda, Joaquim Levy, esbarram na inércia da base aliada no Congresso, incapaz de ganhar uma votação sequer, a não ser quando encorpada pelos deputados da oposição – como ocorreu durante a apreciação da nova meta fiscal.

A cada semana, um novo indicador atesta a completa deterioração das condições macroeconômicas do País. E não há qualquer sinal de recuperação. “Com toda sinceridade, no início do ano, se eu fosse perguntado, diria que o ideal era que ela fosse até o fim. Mas hoje não estou vendo possibilidade de o País suportar três anos com esse nível de desgoverno”, afirma o senador Tasso Jereissati (PSDB-CE).

Após os recentes dados sobre a situação econômica brasileira, o grupo financeiro Goldman Sachs atualizou há duas semanas as suas projeções para o PIB (Produto Interno Bruto), prevendo uma contração de 3,6% para este ano e 2,3% para 2016. Para a financeira, a demanda doméstica deve diminuir 6% ainda este ano e enfrentar outros problemas, como inflação alta e aumento da inadimplência. Sobre a diminuição da demanda doméstica, o economista-sênior do Goldman Sachs, Alberto Ramos, acredita que isto pode agravar a recessão ao ponto de transformá-la em uma depressão econômica: “O que começou como uma recessão devido a uma necessidade de ajuste em uma economia que acumulou grande desequilíbrio macroeconômico está agora se transformando abertamente em uma depressão econômica causada por uma profunda contração da demanda doméstica”.

As desconfianças em relação à presidente Dilma Rousseff fulminaram as nossas já combalidas finanças. O custo da dívida pública alcançou patamares inimagináveis até para os economistas mais pessimistas: 41,4% – quase três vezes a escorchante taxa básica de juros de 14,25% ao ano. O risco de insolvência do País é cada vez maior. Nunca pagamos tanto aos credores. O impacto da dívida pública gera uma despesa de R$ 506,9 bilhões com juros, o equivalente a 9% do Produto Interno Bruto (PIB).

Para variar, quem paga a conta são os mais pobres. A inflação para aqueles que ganham até 2,5 salários mínimos por mês atingiu, em 12 meses, 11,22%. Os alimentos, responsáveis por 80% do orçamento dessas famílias, estão cada vez mais caros nas prateleiras dos supermercados. A imagem da comida sumindo do prato, atribuída na campanha eleitoral aos adversários de Dilma, é real, só que sob a gestão petista. Do total de demitidos em 2015, 70% são trabalhadores menos qualificados. Com sérias dificuldades para se recolocar, quem foi ejetado para o mercado não terá outra saída senão partir para a informalidade. Não por acaso teremos o pior Natal em décadas. E, assim, o ano de 2015 se encerra como o mais dramático em um quarto de século para o País.

E o cenário será ainda mais assombroso em 2016. No próximo ano, além de a inflação não dar um respiro, as demissões tendem a se acelerar com o aprofundamento da recessão. As previsões são de pelo menos mais quatro trimestres de contração de PIB. “Estava na cara que iria dar errado. É muita operação tabajara junta. É muita incompetência”, lamenta a senadora Marta Suplicy (PMDB).

Neste momento, o governo tenta difundir a tese, comprada ingenuamente por alguns, segundo a qual o País viverá um “trauma” caso o processo do impeachment seja formalmente aberto por dois terços da Câmara dos Deputados. Trata-se de uma falácia que se pretende verdadeira por repetida várias vezes. Mas não se pode enganar a todos por todo o tempo. Não há trauma maior do que o próprio legado deixado por Dilma a ela mesma. Ademais, em 1992, quando os mesmos que hoje bradam contra o “golpe” estavam entrincheirados na oposição, o País saiu do processo de impeachment de Fernando Collor muito maior do que entrou. Não tivesse sido esse o desfecho, o vice Itamar Franco não teria assumido, Fernando Henrique não seria alçado ao ministério da Fazenda nem criaria o Plano Real, responsável pela estabilização da moeda e pelo processo de inclusão social, iniciado na era tucana e aprofundado durante o governo Lula.

É cada vez mais profundo o abismo existente entre a Dilma da campanha eleitoral e a presidente reeleita – a do marketing e a real. Se compararmos com o início da era petista, o fosso é ainda mais cavo. Quem assistiu ao filme alemão “Adeus, Lenin”, dirigido por Wolfgang Becker, poderia fazer o seguinte paralelo: se um cidadão brasileiro, eleitor do PT ou não, tivesse entrado em agonia no final do segundo mandato de Lula e despertasse agora, certamente não iria crer no caos político e econômico legado ao Brasil por Dilma, a sucessora de um dos presidentes dono dos mais elevados índices de popularidade do País. No filme, a mãe da protagonista da trama – uma professora identificada com o regime soviético moradora do lado oriental de Berlim – sofre um ataque cardíaco e permanece em coma no hospital durante oito meses, tempo suficiente para que não assista à queda do muro. Quando finalmente acorda, uma inesperada realidade se impõe. Mas, se na Alemanha os novos ventos trouxeram inequívoca prosperidade ao povo, no Brasil ocorreu o inverso.

Hoje, ao contrário do momento vivido há seis anos, o governo petista carrega a marca indelével da desesperança. Não é preciso ter bola de cristal para lançar o vaticínio que se apresenta como o óbvio ululante, para utilizar uma expressão cunhada pelo dramaturgo Nélson Rodrigues. Se nada mudar, e sob Dilma não há qualquer perspectiva de reversão de rumo, o cenário que se descortina no horizonte é catastrófico.

Ao debutar como marqueteiro de Lula nas eleições de 2006, auge do mensalão, João Santana criou o bordão “não troco o certo pelo duvidoso” para o então candidato à reeleição. Funcionou. Hoje, a estratégia não se aplicaria a Dilma. Qualquer pesquisa de opinião é capaz de atestar: hoje, o brasileiro quer trocar o certo – três anos de barafunda política e caos econômico – pela perspectiva de mudança, ainda que duvidosa. Se o Congresso, durante o processo de impeachment, for sensível ao pulsar das ruas, o Adeus, Dilma estará próximo.

Foto: Evaristo Sá/Folhapress

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