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O abraço dos afogados

13 de fevereiro de 2016
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Espremido pela desaceleração do mercado chinês, o governo Dilma busca apoio comercial nos países vizinhos, que não têm muito a oferecer ao Brasil

evo dilma

IstoÉ Dinheiro

Em menos de dois meses, a presidente Dilma Rousseff realizou dois encontros oficiais que demonstram as intenções do governo brasileiro para aumentar as trocas internacionais e compensar a desaceleração da China, o principal parceiro comercial do País. Ao invés de abrir negociações com países europeus ou melhorar a relação com economias em expansão, como a mexicana, Dilma olhou para os vizinhos e foi conversar com Rafael Correa, do Equador, e Evo Morales, da Bolívia.

Ao procurar latinoamericanos que têm pouco a oferecer, o Brasil deixa de lado países mais relevantes como Chile e Colômbia. “Enfrentamos uma situação bastante adversa no cenário internacional”, afirmou a mandatária brasileira na 4ª Cúpula da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos, no final de janeiro. “Precisamos harmonizar as diferenças. A integração econômica da América Latina é crucial para os nossos países e economias.” O discurso de Dilma ocorre com, pelo menos, uma década de atraso.

O Brasil perdeu dinamismo econômico e se fechou ao mundo, deixando de lado a participação em importantes acordos internacionais. O mais relevante aconteceu no segundo semestre de 2015, quando o presidente dos EUA, Barack Obama, conseguiu levar adiante as negociações com o Japão e outros 10 países sobre o Tratado Transpacífico. Representando cerca de 40% da produção mundial, esse será o maior acordo comercial do mundo e eliminará 18 mil impostos para facilitar a troca entre os associados.

Ao perder a passagem de um transatlântico, resta ao Brasil retomar o diálogo com seus vizinhos e reduzir as diferenças para reanimar as negociações entre os integrantes do Mercosul. “Ao ser indiferente, o Brasil perdeu força em relação a outros mercados e agora ficou para trás”, diz Alexandre Arnone, presidente da Câmara Mercosul Latino América. “O País tem de correr atrás do prejuízo, que ele próprio provocou.” O caminho, porém, parece tortuoso. O equatoriano Correa cobrou a contrapartida brasileira para a compra de aviões militares e máquinas nacionais.

Ele quer que seu país exporte mais produtos industrializados, além de camarão, atum e banana. O encontro com o boliviano Evo Morales, que aconteceu em Brasília na primeira semana de fevereiro, pareceu ser muito mais um agradecimento de Dilma ao que tem caracterizado os governos latino-americanos de esquerda: a troca de agrados políticos prevalecendo sobre acordos comerciais. Morales e Nicolás Maduro, o caudilho da Venezuela, foram os únicos que se manifestaram publicamente sobre os acontecimentos que agitaram o País no segundo semestre do ano passado.

“O presidente Morales e eu não vamos ficar calados diante de uma tentativa de golpe de Estado no Brasil, nem em nenhum lugar da América Latina”, disse Maduro, à época. A presidente Dilma não se encontrou com Maduro nas últimas semanas, mas disse em janeiro que manteria o silêncio sobre a crise venezuelana, respeitando as excelentes e sólidas relações entre os países. Para a Bolívia, o apoio pode ter ajudado a acabar com um jejum de quase seis anos sem um encontro oficial, que remete a lembranças ruins, como o caso da nacionalização da Petrobras em solo boliviano.

A reaproximação, segundo o Ministério de Relações Exteriores, teve por objetivo dinamizar a coordenação política e econômica, assim como discutir a adesão da Bolívia ao Mercosul. O problema é que o resultado dessas relações é praticamente nulo. O saldo da balança com a Bolívia é de US$ 4 bilhões, com o Equador não chega a US$ 1 bilhão e com a Venezuela há queda de 40% nos quatro últimos anos, para US$ 3 bilhões. “Desde o primeiro mandato de Lula, há um caráter ideológico distorcido sobre a integração regional”, diz José Botafogo Gonçalves, ministro da Indústria, do Comércio e do Turismo durante o primeiro mandato de FHC e embaixador do Brasil na Argentina de 2002 a 2004. “Negligenciou-se negociações com União Europeia, EUA e Japão para um acordo misterioso chamado Sul-Sul.”

Na contramão aos acordos de ocasião, o recém-eleito presidente da Argentina, Maurício Macri, cobra maior relevância comercial do Mercosul. Desde que passou a ocupar o lugar de Cristina Kirchner, Macri assumiu a liderança regional e fez avançar um acordo entre o bloco latino-americano e a União Europeia. Seu protagonismo parece ter feito diferença numa negociação, até aqui, inconsistente. Se concretizado, o Brasil pode se beneficiar como nunca ocorreu anteriormente. “O Mercosul perdeu credibilidade ao focar em decisões políticas”, diz Gonçalves. “Mas, se levado à risca, tem muito a oferecer para Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai.”

Foto: André Dusek/Agência Estado

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