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Brasileiros presos por tráfico no Egito podem ser condenados à morte por enforcamento


A família conta a história dos três jovens brasileiros presos por tráfico de drogas e a atual situação na prisão de Torá

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Quando fomos recebidos na casa de Airton Ferreira da Silva a chuva deu uma daspoucas tréguas no período em que a reportagem da GQ Brasil esteve em Foz do Iguaçu. O servidor público pode até não ter muitos motivos para sorrir no momento, mas transmite a sensação de ser uma pessoa mais acostumada a ver a vida sob um ângulo positivo do que soterrado em desespero.

“Pelo menos não está tão quente durante essa sua estadia na cidade”, ele nos disse, gentil, como se fosse um de nós quem precisasse ser confortado. Mas, por trás dos modos calorosos, é possível notar a melancolia permanente no sorriso desse homem corpulento. Somos apresentados à numerosa família e, pouco depois, chegam outros dois convidados, pai e filho.

Descobrimos que os chefes dos dois grupos são amigos de longa data, se conhecem por apelidos de juventude. Airton é Talão e, o outro, Wilson Stormorsky, é o Maverick (em homenagem ao carro que ele um dia teve). Os dois jogaram bola juntos –“por uns três anos” – nos campinhos de terra da região, no começo do século. Costumavam levar seus moleques para ver as partidas. “Eles devem ter até brincado juntos”, arrisca Maverick. Impossível, porém, dizer se os dois garotos, Lucas Stormorsky e Cezar de Melo, sabem dessa conexão. Ambos estão detidos em Torá, a mais famosa prisão do Egito, acusados de tráfico internacional de drogas, infração punível, segundo as leis do país, com uma sentença de 25 anos de prisão ou morte por enforcamento.

Eles fazem parte de um grupo de brasileiros detidos com cocaína recentemente, em datas diferentes, no aeroporto do Cairo. Cezar (23 anos, 2 quilos), Lucas (19 anos, 3,5 quilos) e André Victor Guimarães dos Santos (26 anos, 3 quilos) são de Foz. Ednaldo Bruno Filho (30 anos, 1,3 quilo) saiu de Corumbá e Erika dos Santos Oliveira (3 quilos), de São Paulo. Foi confirmada uma sexta pessoa, ainda não identificada.

“A rota para o Egito começou a ser utilizada quando, neste ano, perceberam- se fragilidades ocasionais na segurança dos aeroportos do país”, diz José Gnaspini Jr., da Polícia Federal de Foz do Iguaçu. Até então, rotas regulares de drogas do Brasil para o continente, só pela África do Sul.

O que torna o Egito interessante para o crime organizado é a proximidade com o Oriente Médio, região que conta com elites extremamente ricas de países produtores de petróleo. Graças a elas que a dinâmica do tráfico de drogas na Tríplice Fronteira vem mudando.“O preço do quilo da cocaína na Bolívia chega a US$ 1 mil. Ao chegar à Argentina, sobe para US$ 5 mil, e alcança US$ 15 mil em Buenos Aires. Calcula-se que na Europa seja US$ 40 mil e no Oriente Médio, o dobro”, diz Gnaspini.

Antes era mais comum a figura dos engolidores, geralmente jovens pobres do Paraguai seduzidos pela promessa de ganhos entre US$ 1 mil e US$ 2 mil, que embarcavam no aeroporto da cidade, rumo quase sempre aos Estados Unidos, com dezenas de cápsulas de cerca de 10 gramas de pó cada uma, armazenadas goela abaixo.

Mas esse perfil não é mais tão valorizado e quem ganha a preferência dos traficantes da região da Tríplice Fronteira são os jovens brasileiros, muitos de Foz do Iguaçu, de classe baixa, com boa aparência e, portanto, maiores chances de não levantar suspeitas em aeroportos internacionais.

Exatamente como os três jovens brasileiros presos recentemente no Egito. Procurada, a família de André Victor Guimarães preferiu não se pronunciar. Lucas e Cezar largaram a escola cedo, estavam desempregados. Gostam de baladas e são considerados bonitos. O problema é que as baladas eram pagas por gente em quem eles não deveriam ter confiado e, em pouco tempo, os jovens se viram obrigados a retribuir os favores. “Aqui se mata por R$ 10 ou R$ 20”, diz Valdecy Longonio, advogado da família de Cezar que, assim como a de Lucas, acredita que os garotos toparam a malfadada aventura pressionados por alguém– além, claro, de ter sido seduzidos pelo dinheiro fácil.

Os três estão no presídio localizado no bairro do Maadi, longe das pirâmides, da área nobre de Zamalek ou da Praça Thahrir. Os brasileiros se queixam de falta d’água e de roupas apropriadas. Lucas pediu lápis e papel para desenhar. Solicitaram a Bíblia, mas livros lá só em inglês ou árabe, idiomas que não falam. O baralho também foi negado. Usam apenas roupas brancas, típicas de quem espera julgamento. Pedem emprestada a panela de outros presos para fazer macarrão instantâneo, escutam rádio e assistem à TV, sempre em árabe. Só vão poder ter acesso a áreas para exercícios ou banhos de sol após o julgamento. Por ora, ficam restritos a um grande dormitório com dezenas de outros detidos. Cezar, com tuberculose, esteve isolado dos outros durante a maioria do tempo, mas já está junto com Lucas, após exames médicos. A prisão não fornece roupas apropriadas para o inverno, sabonete ou cobertor. Os prisioneiros dependem de caridade para ter esses luxos.

Levar drogas a países muçulmanos costuma ser jogada tão perigosa quanto lucrativa. Neste ano, Rodrigo Gularte (também de Foz, mas preso em 2004) e Marco Archer foram executados na Indonésia. O Egito não é muito diferente no tratamento a traficantes. Lá o combate às drogas também é uma bandeira do governo.

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