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A leveza do novo estilo de Lula

A escalada das mudanças no comportamento, no humor, na descontração do presidente Lula desde a reeleição ganhou impulso crescente e foi virtualmente oficializada pelas suas declarações e pelo novo estilo mais solto e desembaraçado do seu comportamento.trecho do artigo de Villas-Bôas Corrêa, repórter político do JB. Leia-o na íntegra em Reportagens. 

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A leveza do novo estilo de Lula

A leveza do novo estilo de Lula

Villas-Bôas Corrêa*

A escalada das mudanças no comportamento, no humor, na descontração do presidente Lula desde a reeleição ganhou impulso crescente e foi virtualmente oficializada pelas suas declarações e pelo novo estilo mais solto e desembaraçado do seu comportamento.

Para fixar sem muito rigor os seus marcos mais significativos, talvez a partida possa ser recuada para a entrevista aos jornalistas, no café da manhã, quando a segurança nas afirmações, a franqueza na abordagem de temas políticos foi registrada e badalada pelos mais atentos. É evidente que Lula analisou os resultados e resolveu ir adiante. Soltou-se: só faz o que quer e o que gosta e fala tudo que lhe vem à cabeça. Algum natural espanto, os muxoxos dos puristas são ciscos que se removem com a sacudidela da roupa.

Convém que os ministros, secretários, assessores, parlamentares e mais os cupinchas que gravitam em torno do Poder atentem para a cambalhota do temperamento presidencial e afinem o tom da cantiga dos bajuladores. Pois o novo estilo pautará o segundo mandato. A maliciosa demora na reforma do monstrengo ministerial enquadra-se à perfeição no Lula-2007. O presidente desdenhou das ameaças do inofensivo PMDB de tantas adesões, descartou o inconveniente da candidatura do ministro Nelson Jobim para a presidência da legenda – ignorando a comoção nacional da renúncia do autor do tríplice aumento do Judiciário – e entre afagos selou o acerto para a reeleição do deputado paulista Michel Temer, que não faz mal a ninguém.

Nos dois atos seguintes, a atuação do presidente, no centro do palco, encantou os 27 governadores reunidos na Granja do Torto. Misturando reeleitos e eleitos na gamela, estendeu a mão no apelo a uma convivência harmoniosa entre os que são "cartas fora do baralho, não vamos nos reeleger mais" e, portanto, como não precisam fazer nenhum confronto, "vamos nos unir".

Os governadores, inclusive ou especialmente os de oposição, entoaram o coro de elogios ao presidente renovado pelo segundo mandato. Faltava o recado para o distinto público, para o eleitorado que o acompanhou em quatro campanhas, fiel nas derrotas do aprendizado e firme nos índices de aprovação das pesquisas do primeiro e do iniciante segundo mandato.

E se raspou no limite da vulgaridade, o show em três tempos sobre samba, sexo e futebol enviou seus recados com endereços certos para todas as faixas. Na visita à Cidade do Samba, na Gamboa, a rajada da metralhadora giratória no improviso em tom veemente declarou guerra à hipocrisia e embalou na defesa do uso de preservativos para evitar a Aids e a gravidez precoce. Sacudiu orelhas em puxões diretos: "Nós temos o discurso moderno, mas deixamos de debater os temas por preconceito. Porque a mãe não gosta, a Igreja não gosta…".

Faltava o melhor da festa. Sem a montagem dos marqueteiros, com a evidência do impulso do improviso. No último ato do programa, a visita às obras do estádio do Maracanã levou o presidente e a comitiva ao gramado. Acompanhado pelo governador do Estado, Sérgio Cabral, Lula começou por afrouxar a gravata e tirar o paletó. O peladeiro dos tempos de torneiro mecânico e de líder sindical e dos rachas na Granja do Torto armou a roda de passes. Em volta, aumenta a assistência eclética. Não se conteve e anunciou que ia realizar o velho sonho de todo o brasileiro: bater um pênalti no Maracanã. Dobrou a bainha da calça, livrou-se do sapato e das meias e, com o governador de goleiro, pronto a colaborar na cena inédita, bateu três penalidades máximas. Acertou um chute na trave e fez dois gols, o último um frango descarado. E foi o primeiro e único presidente da República a pisar o gramado do Maracanã descalço, bater bola e pênaltis.

À noite, na conquista da Taça Guanabara pelo Flamengo com a vitória de 4 a 1 sobre o Madureira, a absoluta incapacidade do ataque do derrotado deixou a impressão de que Lula teria uma vaga no time.

Ao menos para bater faltas e pênaltis.
 

Villas-Bôas Corrêa, é repórter político do JB

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