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Ideologia acima de tudo

27 de janeiro de 2019
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Mary Zaidan

Nada, absolutamente nada, parece seduzir mais o presidente Jair Bolsonaro do que a missão que ele julga divina de derrotar o “viés ideológico”, cuja frequência em seus discursos rivaliza com a de “Deus acima de tudo”. Não perde uma única oportunidade. Foi assim na posse – no Congresso Nacional e no Parlatório -, em Davos. Fala como se o tal viés fosse um cancro da esquerda, quando, na direita que ele representa e que se multiplica no mundo, os tumores ideológicos são tão ou mais graves.

Na Suíça, ao responder a questões do fundador e presidente do Fórum Mundial, Klaus Schwab, Bolsonaro garantiu que vai tirar o “viés ideológico” dos negócios brasileiros. Isso, um dia antes de a Arábia Saudita barrar a importação de frango de cinco frigoríficos nacionais, sem qualquer nota técnica que justificasse a medida. Especialistas em política externa consideram o embargo um aviso prévio à possibilidade – puramente ideológica – de o Brasil transferir sua embaixada de Tel Aviv para Jerusalém, como fez Donald Trump, de quem Bolsonaro é fã de carteirinha.

Na mesma sessão de perguntas e respostas, Bolsonaro enfiou um “como era” no final da afirmativa de que o Brasil não quer uma América do Sul bolivariana, como se o país tivesse feito parte dos delírios chavistas. Algo que o PT até poderia sonhar, mas que jamais teve coragem de propor por saber que seria rechaçado de pronto.

A cantilena “libertar o país do socialismo”, dita na posse para agradar fieis xiitas, esbarra no fato de o Brasil jamais ter experimentado tal regime. Na mesma linha, “nossa bandeira jamais será vermelha” nada significa diante da fragilidade do petismo, que só poderia enrubescer o pavilhão nacional pela vergonha. Mas nem disso foi capaz.

Em outras frentes, o governo Bolsonaro luta contra o “marxismo cultural”, que seria responsável por destruir os valores tradicionais que fizeram a grandeza do mundo ocidental. O termo integra um conjunto de crenças que prospera na direita desde os anos 1990 em oposição à sociedade global, humanitária e multicultural. Legítimo, mas ideologia do mesmo jeito, com todos os vieses que qualquer ideologia carrega.

Nas questões comportamentais o tal viés mais parece piada. A ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves, o expressa sem qualquer constrangimento. Ela quer “um Brasil sem aborto”, com soluções para lá de simples – “Gravidez é um problema que dura só nove meses”. Tem certeza de que “ninguém nasce gay” e que o país não será mudado pela politica (nem mesmo por seu patrão), mas pela igreja. Acha que a mulher “nasceu para ser mãe” e que tem de prevalecer a tradição: rosa para meninas, azul para meninos.

Na Educação tudo é ainda mais agudo. A ideologia que veio para derrubar o viés ideológico pode ir muito além da discussão da “escola sem partido”, cujo nome correto seria “escola de outro partido”. Estabelece a discriminação de gênero para derrotar a ideologia de gênero e pode lançar o pais na batalha da alfabetização, área que passou a ser coordenada por Carlos Nadalim, mais um discípulo de Olavo de Carvalho, que, dos Estados Unidos, assiste confortavelmente às guerrilhas que fomenta.

Nadalim, autor do Blog “Como educar seu filho”, um título nada modesto, desdenha dos fatores econômicos, sociais e culturais que dificultam o aprendizado e coloca toda a culpa no método. Por birra ideológica, poderá fazer o país gastar energia e tempo que não tem.

No ensino médio, a credibilidade do Enem está por um fio por mero viés ideológico. No último exame, Bolsonaro criticou uma questão que exemplificava um código de linguagem com um dialeto secreto de gays e travestis. Reagiu, criticou, xingou e disse que no seu governo isso ia acabar. Agora, o presidente do Inep, Marcus Vinicius Rodrigues, não só quer ver previamente as provas, como defende que elas sejam submetidas ao presidente da República. “O dono do Enem termina sendo o nosso presidente, que é o único que teve 60 milhões de votos e é quem pode responder, mudar, realinhar.” Pura cegueira ideológica.

Tudo isso tem um nome: fraude. E, se consumada, será em favor da ideologia de quem diz que quer acabar com o viés ideológico.

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