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A ‘Paixão’ de Lula

13 de setembro de 2018
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Tom religioso da carta mal disfarça o verdadeiro sentido da pregação lulopetista: anunciar que, se Haddad for eleito, Lula espera ser beneficiado com a liberdade e tornar-se o presidente de fato

Editorial, Estadão

Ganha cada vez mais contornos místicos a narrativa do PT sobre os dissabores político-penais de Lula da Silva. É verdade que o próprio ex-presidente, em mais de uma ocasião, comparou-se a divindades, mas agora, oficialmente impedido de concorrer à Presidência, o demiurgo faz o que pode para encarnar a figura de um “messias”.

Na carta em que anunciou a candidatura de Fernando Haddad à Presidência, escrita em seu escritório eleitoral em Curitiba e lida por seus fiéis como se fosse a palavra divina revelada, Lula, depois de reafirmar pela enésima vez que se considera vítima de um julgamento político, declarou que “um dia a verdadeira justiça será feita e será reconhecida minha inocência” – e então, como se fosse um versículo sobre a “Paixão” de Lula ressuscitado, emendou: “E nesse dia eu estarei junto com o Haddad para fazer o governo do povo e da esperança. Nós estaremos lá, juntos, para fazer o Brasil feliz de novo”.

O tom manifestamente religioso da mensagem mal disfarça o verdadeiro sentido dessa pregação lulopetista: anunciar que, se Haddad for eleito, Lula espera ser beneficiado com a liberdade e, ato contínuo, tornar-se o presidente de fato, enquanto o ex-prefeito de São Paulo estará lá apenas para fazer figuração.

Uma campanha eleitoral feita nesses termos não tem como ser encarada com seriedade. É absolutamente inútil discutir as ideias do candidato do PT à Presidência, porque se trata somente de um regra-três – mencionado apenas a partir do 12.º parágrafo da tal carta de Lula que, em tese, deveria servir para apresentar Haddad aos eleitores.

Sendo assim, é ocioso especular se Haddad poderá, no decorrer da campanha, moderar o discurso fanático adotado pelo PT desde a prisão de Lula, a fim de conquistar eleitores fora da seita lulopetista. Mesmo na hipótese de que resolva se apresentar como um candidato maleável, disposto ao diálogo e comprometido de alguma forma com a responsabilidade fiscal, o que poderia ser suficiente para acalmar um pouco os que temem a radicalização prometida pelo discurso incendiário lulopetista, Haddad provavelmente enfrentará dura oposição não de seus adversários políticos, mas sim de seus próprios correligionários.

Os primeiros sinais desse atrito não tardaram a surgir. Antes mesmo de ser anunciado como candidato, Haddad, segundo reportagem do Estado, foi advertido pelas alas mais radicais do PT de que só aceitaram a indicação de seu nome para disputar a Presidência porque Lula assim o quis e não admitirão qualquer inflexão na campanha que sugira o abrandamento da retórica vingativa do PT.

Assim, a carta de Lula e o início humilhante da campanha de Haddad indicam um espírito francamente contrário ao que, na campanha presidencial de 2002, resultou na famosa Carta aos Brasileiros – quando Lula se comprometeu a manter os fundamentos da economia para domar a aflição dos mercados e da sociedade ante a perspectiva de sua eleição. Um movimento político como aquele na direção da moderação parece ser impossível hoje, uma vez que o PT é prisioneiro de Lula – cujo único propósito é sair da cadeia, mesmo que, para isso, tenha que desmoralizar a própria eleição, a exemplo do que vem fazendo, aqui e no exterior, com a Justiça brasileira.

Não surpreende, portanto, que haja profunda inquietação com a evolução da campanha eleitoral. Há razões para acreditar que, se as forças do centro político não se unirem e arregimentarem suficiente apoio eleitoral, os brasileiros podem se ver diante da trágica situação de ter de escolher o próximo presidente entre candidatos que se apresentam não como futuros chefes de Estado, mas como representantes de seitas, condição que os impedirá, mesmo que eventualmente queiram no futuro, de dialogar com os brasileiros que não compartilham de suas crenças. Isso serve tanto para o lulopetismo como para o bolsonarismo – cujos adeptos também tratam seu líder, Jair Bolsonaro, como um “messias” e provavelmente não aceitariam qualquer abrandamento do violento discurso que notabiliza sua campanha. Mais do que nunca, o momento é de profunda reflexão sobre os riscos que o País corre caso a razão seja preterida em favor do fanatismo.

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