Boca Maldita: Para os demais políticos, quando casos são distintos, mas conexos, procurador pede um só inquérito. Com o senador mineiro, a história é outra

Para os demais políticos, quando casos são distintos, mas conexos, procurador pede um só inquérito. Com o senador mineiro, a história é outra

Reinaldo Azevedo, Veja

Um mistério — entre muitos, na minha opinião — ronda as decisões de Rodrigo Janot, procurador-geral da República, no que diz respeito ao senador Aécio Neves (PSDB-MG). A que me refiro? Bem, o tucano é investigado agora em… cinco inquéritos, liderando o ranking, ao lado do também senador Romero Jucá (PMDB-RR). Desde logo, surge uma estranheza. Então o presidente do partido que liderava a oposição ao PT seria um dos maiores beneficiários do esquema investigado pela Lava Jato? Ok. Ainda que fosse verdade, pergunto: faz sentido?

Mas essa não é a indagação principal. Vocês vão constatar que Janot não aplicou a Aécio os critérios que aplicou a outros políticos. Apresento cópias de nove pedidos de abertura de inquérito, referentes a 14 políticos, a saber:

1 – José Carlos Aleluia (repasses em 2010 e 2014);

2 – Renan Calheiros, Fernando Bezerra e Renan Filho (repasses em 2009, 2010 e 2013);

3 – João Bacelar (2006, 2010 e 2014);

4 – Bruno Araújo (2010 e 2012);

5 – Gilberto Kassab (entre 2008 e 2014);

6 – Pedro Paulo e Eduardo Paes (2010 e 2012);

7 – Ciro Nogueira (2010 e 2014);

8 – Herberte Lamarck e José Feliciano B. Jr. (2012 e 2014);

9 – Rodrigo Maia e Cesar Maia (2008, 2010 e 2014).

Leiam depois, se tiverem interesse, os respectivos pedidos. Estão ao fim do texto. Casos com datas distintas e delatores distintos foram reunidos num único inquérito. E NOTEM: NÃO ESTOU DIZENDO QUE NÃO DEVERIA SER ASSIM. Acho que é isso o certo. Afinal, distintos, sim, mas correlatos.

E com Aécio?

E no caso de Aécio? Aí Janot decidiu seguir um critério diferente. Três dos cinco pedidos de abertura de inquérito, tratam de questões absolutamente interligadas. Não acreditem em mim. Acreditem nos seus olhos.

Estes três inquéritos, a exemplo do que se fez com outros políticos, poderiam e deveriam ser um só.

A responsabilidade de Fachin

É evidente que o ministro Edson Fachin, relator do petrolão na Segunda Turma do STF, poderia ter corrigido a, como vou chamar?, idiossincrasia de Janot em relação a Aécio Neves. A propósito: o procurador-geral continua a ser assediado para se candidatar ao governo de Minas ou isso já passou?

Notem que não estou aqui a lidar com critérios de culpa ou inocência. Ainda que tudo fosse verdade, Aécio deveria estar sendo investigado em três inquéritos, não em cinco.

Mas Janot parece ter preferido um título com mais visibilidade nos jornais, revistas, sites, becos e botecos.