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Tese revisita anos 80 para mostrar como a juventude contribuiu para o debate político por meio da música

7 de fevereiro de 2019
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“Que país é este?”, perguntava Renato Russo, da Legião Urbana, num dos maiores sucessos do rock brasileiro dos anos 1980. De diversas formas e pontos de vista, muitos outros compositores e bandas da então nova geração também tentavam entender e discutir o Brasil. As canções dialogavam com a transição política e falavam de uma nova maneira de apropriação da cidade. As informações são de Itamar Rigueira Jr., da UFMG no Diário do Poder.

“A década de 80 ganhou a fama de década perdida, e os jovens eram tidos como alienados, porque foram criados sob a censura do regime militar e a cultura de massa. Mas não era bem assim, como demonstram as canções críticas, povoadas de personagens que procuravam caminhos para se colocar no mundo público”, afirma o pesquisador Bruno Viveiros Martins, que defendeu, em dezembro, na Fafich, a tese Pro dia nascer feliz: a Nova República e o rock brasileiro na década de 1980.

De acordo com o pesquisador, o rock foi o fio condutor da participação da juventude na vida do país. “As bandas não cantavam apenas o universo dos jovens, os eventos políticos eram abordados no calor da hora. As músicas misturavam bom humor, ironia, crítica ácida e direta, otimismo ou pessimismo, e bebiam em fontes variadas, do reggae ao progressivo e ao punk”, comenta Bruno Viveiros, que compõe a equipe do Projeto República da UFMG. “Em grande parte, por meio do rock, a juventude contribuiu para a democratização do debate no país.”

Bruno acrescenta que a diversidade era um dos grandes trunfos daquela geração. A influência do rock inglês e norte-americano era naturalmente forte, mas grupos como os Paralamas de Sucesso buscaram o diálogo com os ritmos do Caribe, da África e da América do Sul. “Ao mesmo tempo, compositores como Cazuza, Arnaldo Antunes e Renato Russo usavam sua farta bagagem cultural para conversar com as linguagens de outras artes”, diz o autor da tese.

De acordo com Bruno Viveiros, as narrativas do rock dos anos 1980 tinham relação estreita com o cinema – em filmes como Bete Balanço, Rock estrela e Rádio pirata –, os quadrinhos de Angeli, a série de TV Armação ilimitada, os artistas da exposição Como vai você, Geração 80, a literatura de Marcelo Rubens Paiva, autor de Feliz ano velho, e a poesia de Antônio Cícero, que compunha com a irmã Marina Lima.

Personagens nas ruas
Bruno Viveiros adquiriu LPs, CDs e DVDs, consultou arquivos públicos, publicações na imprensa e na internet e assistiu a videoclipes e programas de televisão como o do Chacrinha. Dos cartazes de divulgação e capas de discos, o pesquisador extraiu informação que vai dos signos visuais às dedicatórias dos artistas.

A tese também revela como a canção refletiu a relação dos jovens com os centros urbanos, que cresciam de modo vertiginoso e desordenado, e a cidade – mais moderna e multicultural – como lugar de protesto e agitação política. “Os compositores criaram personagens, como Marvin (Titãs), Katia Flávia (Fausto Fawcett) e o casal Eduardo e Mônica (Legião Urbana), que flanavam pelas ruas e no underground, transpiravam tédio e melancolia e, sobretudo, se manifestavam”, diz Bruno Viveiros.

Como afirma o autor na conclusão de seu trabalho, desigualdade econômica, injustiça social e luta por direitos inspiram narrativas carregadas de inconformismo, crítica e, por vezes, desilusão e pessimismo. “As contradições e ambiguidades da sociedade brasileira aguçam um olhar dotado também de estranhamento”, ele escreve. “Ao mesmo tempo, o encantamento diante de alternativas próprias do país possibilita que uma nova geração de compositores, cada um a seu modo, ainda aposte que o caráter instável dessas mesmas contradições pode evitar a nossa ruína.”

Ainda em seu texto, Viveiros ressalta que o rock, aliado a outros suportes de circulação de ideias, “articulou uma nova gramática política com as linguagens da imaginação cultural brasileira. Dessa forma, os roqueiros oferecem sua contribuição para um novo projeto político para o Brasil. Um projeto mais democrático, que valoriza a participação popular na cena pública”.

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