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Jaime Lerner celebra 80 anos com projeto em mente para Curitiba

19 de dezembro de 2017
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Fechar a parte mais central da Rua XV para os carros em 1972 era algo tão controverso quanto enfiar um calçadão na Visconde Guarapuava hoje. Os motoristas estavam irados, iriam perder o roteiro pela via mais importante de uma ainda tímida Curitiba. Era o fim dos passeios observando as vitrines das lojas mais importantes da cidade. Os comerciantes então… Estavam possessos. Para lidar com o chumbo que vinha de todos os lados, Jaime Lerner – um jovem prefeito de 34 anos, em primeiro mandato e indicado pelo governo militar – precisaria ser rápido. Esperou o comércio fechar as portas, exatamente às 18 horas de uma sexta-feira, e mandou descer toneladas de pedrinhas de petit-pavé. Nas 48 seguintes, centenas de trabalhadores montaram um mosaico de calçadão em uma sinfonia regida pelo promissor urbanista, no entanto, um rosto quase desconhecido de parte da população. Quando os comerciantes voltaram à labuta, na segunda-feira seguinte, já não dava tempo de barrar a obra: a XV era dos pedestres.

Os motoristas, porém, não iam deixar barato. Um clube de automóveis armou um protesto para um dos sábados seguintes ao calçamento: iriam enfiar os carros por cima do petit-pavé a qualquer custo. Lerner foi mais petulante. Uma hora antes da manifestação, espalhou folhas de papel e canetas coloridas pelo novo calçadão e colocou crianças para pintar. Uma diversão para o sábado. Quando o primeiro motorista embicou o carro, se deparou com os pequeninos se divertindo em meio àquilo que parecia um novo parque urbano. O protesto acabou sem nem mesmo começar. “Esse prefeito não dura mais um ano”, bradava aos jornais da época um dos desafetos da obra. Lerner permaneceu mais 14 só no Executivo Municipal. A Rua XV segue fechada para carros.

O líder da revolução

Andar pelo calçadão da Rua XV já não é mais um prazer viável para Jaime Lerner. Às vésperas de completar 80 anos – marca a que chegou no último domingo (17) –, o arquiteto e urbanista paranaense caminha com dificuldade pela sala de seu escritório, no Cabral, onde recebeu a equipe da Gazeta do Povo para uma entrevista. A idade o limita, assim como uma cirurgia de nervo ciático feita há poucos meses. O bom humor e as frases de efeito, porém, estão intactos. Lerner mora exatamente em frente ao trabalho. Para chegar, só precisa cruzar os 7 metros da Rua Bom Jesus. “Quando eu chego tarde, tenho uma desculpa: falo que o trânsito estava terrível”.

O ex-prefeito e ex-governador está há mais de uma década afastado da política, onde construiu uma das maiores dinastias políticas do estado, rivalizando principalmente com Roberto Requião e Alvaro Dias. Mas seu maior legado está em Curitiba. O fechamento da XV(uma adjacência do plano diretor que havia ajudado a moldar anos antes, o sistema de transporte por canaletas exclusivas (o BRT), os parques urbanos são todas criações suas que ajudaram a moldar a cidade. Lerner deu aos curitibanos algo para se orgulhar: a cidade. Com ele, a capital paranaense foi parar na boca de colombianos, coreanos e chineses – que copiaram o modelo que aqui deu certo. “[Curitiba] É uma reposta para uma pergunta que de outra forma seria hipotética: como as cidades seriam se urbanistas, e não políticos, estivessem no poder?”, elogiou o The New York Times em 2007.

Nada disso seria possível sem a base intelectual que fundamentava oineditismo e o tom vanguardista de suas propostas. Filho de imigrantes judaico-poloneses, ele estudou em escolas israelitas até ingressar na Universidade Federal do Paraná (UFPR), onde cursou Engenharia e Arquitetura, após a abertura da primeira turma do curso pela universidade, nos anos 1960. Ali, Lerner conheceu e firmou laços com muitos dos profissionais que estariam ao seu lado na criação e estruturação do Instituto de Pesquisa Planejamento Urbano de Curitiba (Ippuc), em 1965, e na revolução urbana que realizaria à frente da prefeitura de Curitiba. Eram nomes como Lubomir Ficinski Dunin, Domingos Bongestabs, Abrão Assad, Manoel Coelho e Osvaldo Navaro. “O Jaime era em rapagão bacana, com a cabeça cheia de ideias e, principalmente, com uma determinação em empreender e realizar as coisas sem medo, simplesmente acreditando nos seus sonhos. Qualidade que pouca gente tem”, avalia Coelho.

A indicação de seu nome para a prefeitura, em 1971, deu então a Lerner a oportunidade de concretizar todas elas, colocando definitivamente Curitiba no mapa. Isso porque, pouco tempo depois de fechar a Rua XV de Novembro, sua gestão inaugurou o sistema de canaletas exclusivas para os ônibus e implantou o Sistema Integrado de Transporte Coletivo. O objetivo era dar conta do rápido crescimento da cidade, que a época contava com cerca de 750 mil habitantes. A solução: transportar o conceito do metrô para a superfície, por meio de um embarque rápido, poucas paradas e frequência dos veículos. Simples e eficiente, a solução foi adotada pelos curitibanos e replicada em cerca de 250 cidades mundo afora. Na capital, evoluiu com a inserção dos veículos articulados e biarticulados, mas, passados mais de 40 anos, foi engolida pela descontinuidade das gestões que se sucederam e está aquém das atuais necessidades de mobilidade dos curitibanos.

Como um pai que protege um filho, Lerner ainda defende a viabilidade do modelo. Mais do que isso, enxerga nele uma solução mais viável do que a do lendário metrô. “O metrô é caro”, diz.

Nos anos 1990, a menina dos olhos de Lerner passou a ser o meio ambiente. Em sua terceira gestão como prefeito, ele inaugurou obras inovadoras, como a primeira Rua 24 Horas do país. Neste período, uma nova linguagem arquitetônica, erguida em metal e vidro, também foi apresentada à cidade com a inauguração de parques como o Jardim Botânico e a Ópera de Arame. Nascia ali a Curitiba do cartão-postal. Além dos parques, as soluções ambientais chegaram, também, aos lares curitibanos. Com a implantação do programa “Lixo que não é lixo”, a cidade aprendeu a separar o lixo orgânico do reciclável e, cada vez mais, foi moldando a cara da “Capital Ecológica”.

Hoje, Lerner continua um revolucionário. Os grandes eventos de urbanismo ainda se digladiam por um dia da agenda do mestre. O conceito de cidade do ‘arquiteto da transformação’, como ele gosta de ser chamado, é um espaço de convivência que possa ser trilhado essencialmente a pé. Para todos degustarem os pedacinhos dos espaços públicos. Ergue a bandeira das soluções analógicas, que respeitam a dimensão mais humana das cidades. Vai na contramão do mundo, que prega soluções cada vez mais tecnológicas, inteligentes. “Esses termos cheios de adjetivos não me convencem. A resposta para a mobilidade não está na tecnologia. Está em tudo ser perto: lazer, moradia e trabalho”, defende. É totalmente contra o uso desenfreado do carro. “É o cigarro do futuro”, critica.

Lerner não fumava deste cigarro. Era barbeiro dos bons. Sempre que pegava no volante, em pouco tempo conseguia despertar um coro de buzinas. Não se intimidava. Abria um sorriso porque achava que estavam reconhecendo o famoso arquiteto e acenando pedindo um tchauzinho. Prova de que é um otimista de carteirinha. O que explica em boa medida a maneira quase blasé como ele enfrentou todos os ataques a suas principais ideias na revolução urbana que liderou a partir da década de 1970 em Curitiba. Nunca deu muita bola. “Tem gente que não leva desaforo. Eu tenho um armário cheinho de desaforo lá em casa”, esbanja.

Era necessário para fazer acontecer. Esse jeitão de caçar com gato, de achar soluções simples e baratas, aprendeu ainda guri, quando encasquetou que queria montar o próprio circo. A inspiração foi o picadeiro dos Irmãos Queirolo, que estacionou por um tempo a poucos metros da sua casa na Rua Barão do Rio Branco. Ia toda noite assistir e ajudar a enrolar os tapetes ao final das apresentações. Para ter sua própria arena, Jaime foi batendo de loja em loja atrás de lonas estragadas. Depois de reunir um bocado, pediu para um alfaiate vizinho costurar todas. Pronto. Conseguiu o circo que tanto queria. Foi seu primeiro projeto bem sucedido. Anos mais tarde, nas intervenções que catapultaram seu nome para a lista da revista Time dos 25 pensadores mais influentes do mundo, continuou com a mesma lógica: respostas simples e baratas para os desafios.

Jaime não dá o braço a torcer, mas seu encantamento pela cidade começou na mesma época. Gostava da diversidade que via na Barão da década de 1950, que efervescia com estações de transporte, jornais, rádios, fundições, comércios de todos os tipos e casas. “Ali foi a minha escola de realidade e fantasia, em que observava as pessoas que vinham do interior e que conversavam com os meus pais na loja sobre os problemas da vida”, confidencia. Seu gosto pela arquitetura também nasceu ali, na loja de armarinhos e roupas feitas dos pais Elza e Félix. Foi fisgado pelos desenhos dos ladrilhos hidráulicos e das latas de fermento Royal. Com os manequins, tomou gosto pela escala humana. Só havia espaço para ser arquiteto.

Como uma Maria Fumaça de ideias, Jaime encontrou um porto seguro em Fani, que com um senso de ‘pé no chão’ exemplar, sempre o puxava para a realidade. Era devota da crítica sincera. “Quer fazer uma Ópera de Arame, mas por enquanto só tem um arame”, brincava na mesa de jantar quando o marido começou a aventar a hipótese de construir o teatro. Nos três mandatos de prefeito e nos dois de governador do marido, Fani comandou a área de assistência à criança das gestões. O casal se conheceu em uma das festividades da comunidade judaica e oficializou a união em 1964. Juntos tiveram as filhas Andrea e Ilana, e os netos Ben, Liana, Tobias e Sophie. Seu falecimento precoce aos 63 anos em 2009, depois de 15 anos sofrendo de câncer e às vésperas de completarem Bodas de Ouro, foi um momento de escuridão para Lerner. Por meses não lidou bem com a perda. Sua válvula de escape foi o trabalho.

Ainda tem um projeto engavetado para Curitiba. O único plano para a cidade que não conseguiu realizar. Em seu segundo mandato como prefeito, queria trazer as melhores cabeças do país para passar um tempo por aqui. Cerca de seis meses, com casa, comida e roupa lavada. Em troca, deveriam deixar algum tipo de contribuição para a cidade. Um dos convidados seria o arquiteto capixaba Paulo Mendes da Rocha, figura de proa do modernismo brasileiro. Quase conseguiu fazer, mas não deu tempo.

Imperfeito

Lerner termina de desenhar mais uma tartaruga, a quinta, enquanto a entrevista vai chegando ao fim. Sua estranha obsessão pelo longevo animal é quase uma metáfora para a vida. A ele, garante, só falta uma coisa: “mais vida”. O genial escritor Millôr Fernandes, por anos seu amigo íntimo, costumava dizer que “quem mata o tempo não é assassino, é suicida”. O arquiteto não será acusado nem de uma coisa, nem outra. Adentrando mais uma década de vida, ele segue na ativa. Trabalha atualmente na reestruturação do centro de São Paulo, a pedido do prefeito tucano João Doria. Para o novo centro da maior cidade do país, as novidades são claramente inspiradas nas criações curitibanas das décadas passadas. E recentemente também foi procurado pelo presidente de Angola, João Lourenço, que encomendou bairros planejados para diversas cidades do país africano.

O que parece ter ficado de lado hoje é apenas sua vida pública. Há 15 anos não participa ativamente da política. Nela, seu legado é tão importante quanto no urbanismo, ainda que sua trajetória seja cheia de altos e baixos. Não faz mal. É como ele mesmo define: “para fazer algo, há que se ter um certo compromisso com a imperfeição”.

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