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“Vou disputar prefeitura nem que chova canivete”, afirma Ney Leprevost

15 de julho de 2015
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“Vou disputar prefeitura nem que chova canivete”

Bem Paraná

No início do ano, o deputado estadual Ney Leprevost (PSD) surpreendeu ao romper com o grupo político do governador Beto Richa (PSDB), depois que a administração estadual decidiu mexer com o fundo de aposentadoria e pensão dos servidores públicos do Paraná. Ao mesmo tempo – apesar de seu partido integrar a base da presidente Dilma Rousseff no plano nacional – manteve-se como uma das principais vozes críticas à administração federal e ao PT.

É justamente como “franco-atirador” – livre dos compromissos com os grupos políticos que comandam hoje os governos federal, estadual e municipal – que Leprevost se sente pronto para apresentar-se como pré-candidato à prefeitura de Curitiba nas eleições de 2016. Até porque, na sua avaliação, com o desgaste sofrido nacionalmente tanto pelo PT, quanto pelo PSDB no plano estadual, e pelos baixos índices de aprovação do atual prefeito, Gustavo Fruet (PDT), a eleição na Capital paranaense estaria aberta a nomes novos, que saibam se colocar como alternativa aos eleitores decepcionados com a política tradicional.

Bem Paraná – Há pouco menos de um ano do início da campanha eleitoral, qual a avaliação que o senhor faz do cenário da disputa em Curitiba?
Ney Leprevost – O cenário da eleição para prefeito de Curitiba está completamente aberto, na minha opinião. Hoje é um cenário indefinido. É evidente que você tem, como sempre, o prefeito (Gustavo Fruet) na condição de favorito, em que pese uma elevada desaprovação à sua gestão. E tem nomes novos que podem se colocar no páreo com chances de vitória. O prefeito ter ou não alguma possibilidade de vencer vai depender de duas coisas. Em primeiro lugar dele melhorar muito a gestão, porque existem reclamações – que não são poucas – em relação à saúde pública; em relação às ruas que estão esburacadas, à manutenção das praças, parques, espaços públicos. Você vê que Curitiba está até certo ponto mal cuidada.

BP – As pesquisas mostram um descontentamento generalizado com a administração, mesmo que se poupe a figura pessoal do prefeito, é isso?
Leprevost – Exatamente. Até porque ele tem um nome respeitado, foi um bom deputado federal, é uma pessoa que até que se prove em contrário, não tem envolvimento com a corrupção revelada até agora nos mais diversos setores. E ele é uma pessoa agradável, respeitador. Mas a gestão é muito criticada. É considerada pelas pessoas que acompanham mais de perto ineficiente.

BP – O atual prefeito alega que herdou muitas dívidas do antecessor e enfrenta uma crise econômica nacional.
Leprevost – Mas já passou um bom tempo. Já dava tempo de ter melhorado. Esse argumento de ‘herança maldita’ serve para ganhar tempo no primeiro ano. Depois as pessoas querem resultados práticos. Por outro lado, me parece que um dos erros cometidos foi abrir mão de técnicos que estavam há muito tempo na prefeitura e que entrava prefeito, saía prefeito, estavam em uma posição importante. Você não pode abrir mão, por exemplo, de um Luiz Fernando Jamur (ex-secretário Municipal de Governo), para mencionar um nome. Mesmo ele tendo sido uma pessoa de confiança do prefeito Luciano Ducci (PSB). Dizia-se antigamente que a máquina da prefeitura de Curitiba andava sozinha. Essa máquina parou de andar sozinha. Me parece que um dos motivos foi a exclusão de técnicos que faziam essa máquina andar. Eles conheciam Curitiba como a palma da mão.

BP – As acusações de corrupção contra o PT – aliado do prefeito – também podem influir na eleição?
Leprevost – Sim. Uma outra coisa que atrapalha o prefeito e deve ser explorado pelos outros candidatos é o vínculo estreito com o PT. As pesquisas mostram que o curitibano tem uma das maiores rejeições do País ao PT.

Bem Paraná – Como o vê a possibilidade do prefeito se descolar do PT para disputar a reeleição?
Ney Leprevost – Eu acho que é uma possibilidade que o grupo dele estuda. Mas até que ponto isso prejudicaria a cidade em relação aos investimentos federais que ele está pleiteando? Deve ser esse o grande enigma que ele enfrenta no momento.

BP – E os outros possíveis candidatos?
Leprevost – O Ratinho Júnior (PSC) seria um candidato forte até pela votação que fez na eleição passada de prefeito. Ele me garantiu que não é candidato a prefeito, que é candidato a governador (em 2018). O Luciano Ducci ficou um período curto na prefeitura, conseguiu fazer algumas obras de relevância, mas está umbilicalmente ligado ao (governador) Beto Richa (PSDB). O que, com certeza, atrairá a ira dos professores contra a candidatura dele. E o (deputado estadual Maurício) Requião Filho (PMDB) fala bem, é articulado. O pai dele (senador Roberto Requião) é um homem forte, poderoso, que influencia uma parcela significativa dos eleitores. Sem dúvida é um candidato respeitável.

BP – O senhor já foi cotado anteriormente para disputar a prefeitura, mas não se confirmou. Porque diria que agora é diferente?
Leprevost – Na eleição passada eu estava cotado para ser candidato a vice do Luciano (Ducci). Nós pertencíamos a um grupo político que vinha há muitos anos administrando a cidade e era liderado pelo Beto Richa. Na ‘hora h’ houve uma opção, até onde eu sei mais por parte do próprio Beto do que do próprio Luciano pelo (deputado federal) Rubens Bueno (PPS) ser o vice. Com isso acabei ficando fora. Quando apoiei o Luciano mesmo estando fora da vice, eu declarei diante de três mil pessoas que na outra eleição, ganhando o Luciano ou não, nem que chovesse canivete, eu iria disputar a prefeitura de Curitiba. E mantenho essa disposição.

Bem Paraná – Porque o senhor acredita que está pronto para ser prefeito desta vez?
Leprevost – Eu tenho um vínculo forte com a cidade. Fui o vereador mais votado de Curitiba. Fui também o deputado estadual mais votado de Curitiba. Nessa última eleição tive quase 50 mil votos aqui. Trago essa experiência. Também já passei por experiência administrativa, fui secretário de Estado. Agora hoje estou rompido politicamente, não pessoalmente, com esse grupo. Que é um grupo que, na minha opinião, deixou de corresponder as expectativas da população de um tempo pra cá.

BP – O que foi decisivo para esse rompimento?
Leprevost – Começou quando o governador mandou um projeto no final do ano passado para a Assembleia que taxava em 11% os aposentados. Eu votei contra. Ele expressou uma insatisfação – não diretamente a mim, mas a aliados políticos meus. Depois veio o episódio do Paraná Previdência. Ele queria mexer na Paraná Previdência, eu fiz um pronunciamento contra. Aí houve o rompimento político. E daí na questão dos professores, quando ele colocou dois mil policiais bombardeando os professores, gastando R$ 900 mil em bombas eu acabei cometendo um ato um tanto imprudente de ir até lá fora junto como os deputados Tadeu Veneri (PT), Rasca Rodrigues (PV) e Chico Brasileiro (PSD). Tentamos nos postar em frente ao Batalhão de Choque para parar o ataque e eu ali senti na pele o que os professores estavam sentindo. O uso desproporcional da força, a forma violenta como o governo estava agindo e voltei muito exaltado, indignado para o plenário. Ali o sangue correu. Ali houve o rompimento definitivo.

BP – O senhor não teme ser cobrado pelo fato de ter apoiado a eleição e a reeleição do governador e ter feito parte desse grupo todo esse tempo?
Leprevost – Não, porque eu pensei como quase todos os paranaenses. Eu achei que o Beto Richa era naquele momento o melhor candidato. Ele tinha a aprovação, tanto que ganhou no primeiro turno. Se eu errei, errei junto com a grande maioria das pessoas que foram votar. E o Beto foi um prefeito de Curitiba que teve uma boa aprovação, e diga-se de passagem, quando prefeito tinha um ótimo relacionamento com os professores.

Bem Paraná – O PSD, seu partido, continua apoiando o governo do Estado, inclusive ocupando cargos importantes, como a Casa Civil. O senhor não teme ser ‘rifado’ pelo partido?
Ney Leprevost – Não vejo esse perigo. Em primeiro lugar quando entrei no PSD – fui um dos fundadores do partido – o compromisso que os presidentes nacional, Gilberto Kassab, e estadual, Eduardo Sciarra – com todos os parlamentares que ingressaram no PSD era de que eles teriam liberdade de consciência para votar e tomar suas decisões. O PSD nunca me cobrou nada em relação ao governo. Se você for ver, o PSD já começou com uma declaração polêmica do Kassab dizendo que não estava no centro, nem à direita, nem à esquerda. Porque? Porque ele queria deixar bem claro que os deputados que estivessem no PSD teriam a liberdade para seguir seus ideais. E não para ficar amarrado a uma ideologia sectária, seja de esquerda ou de direita. Além disso, eu fui reeleito agora presidente do PSD de Curitiba na mesma chapa do Sciarra secretário-geral do PSD do Paraná. E fui aclamado, na convenção em uma proposta do presidente do Conselho de Ética do partido, Luiz Chemin Guimarães, como pré-candidato a prefeito. Então não vejo esse perigo (de ser ‘rifado’). Estive conversando recentemente com o Kassab, ele me deu carta branca para ser candidato. Inclusive me incentivou.

BP – Nessa convenção, inclusive, o senhor foi lançado pré-candidato sob o slogan “nem Dilma, nem Richa”. O que isso quer dizer?
Leprevost – Quer dizer que o meu principal ponto forte é o meu principal ponto fraco. Eu não estou atrelado hoje nem à máquina pública federal, nem estadual e nem municipal. Isso, evidentemente, torna difícil a realização da pré-campanha. Porque você não tem as facilidades de quem está no governo para mobilizar os agentes públicos. No meu caso, eu não tenho nada disso. Eu sou um cara que tenho que montar o meu próprio grupo político. Mas eu acho que isso é um ponto positivo também. Porque dá à população a tranquilidade de que eu não vou ter influência negativa nenhuma desses grupos políticos que estão desgastados e que estão nos governos federal, estadual e municipal. O fato de eu não ter vínculo nem com o PT, nem com o governo do PSDB do Paraná pode ser uma forma de mostrar para o eleitor que o nosso grupo é capaz de reunir aqueles que querem construir a terceira via na política do Paraná.

BP – Curitiba foi apontada durante muito tempo como vanguarda no planejamento urbano do País. Muitos dizem que isso se perdeu. O senhor concorda?
Leprevost – Concordo. Curitiba precisa recuperar a capacidade de ousar. Precisa voltar a ser uma cidade centro de excelência em administração pública e exemplo para o Brasil.

BP – Como fazer isso?
Leprevost – Em primeiro lugar constituindo um secretariado técnico, baseado em critérios administrativos de competência, de mérito, e menos em critérios políticos. Em segundo, buscando as grandes cabeças pensantes da cidade para colaborar com a gestão. Mesmo que algumas delas participem apenas voluntariamente fazendo parte de um conselho de administração. Em terceiro, tendo coragem. Não tendo medo de ser criativo, de ser diferente, de colocar ideias novas em prática.

Bem Paraná – Na questão do transporte coletivo nós tivemos, além de aumento da tarifa, a desintegração de parte da rede. Como o senhor vê essa situação?
Ney Leprevost – Com muita preocupação. Nós vamos fazer, inclusive, no final de agosto uma audiência pública na Assembleia para discutir isso. Vamos chamar os usuários, os prefeitos da região metropolitana, a Urbs, o sindicato das empresas de ônibus, a Comec, para entender o que está causando de fato está desintegração. Porque as informações que vêm de um lado e de outro são diferentes. E até agora não se sabe exatamente quem está com a verdade. Eu vejo o Tribunal de Contas, por exemplo, noticiando algumas coisas na imprensa, no dia seguinte a prefeitura vem e desmente, depois vem uma informação da Comec. Qual é a principal causa da desintegração? Porque os ônibus estão sucateados?O preço da passagem não poderia ser menor? Tudo isso são informações que não estão claras. E em cima dessas informações, aí sim nós vamos chamar os técnicos que vão construir o nosso plano.

BP – O senhor acha que estabeleceu-se um ‘jogo de empurra’?
Leprevost – Exatamente. O que eu vejo é ao invés de uma vontade de resolver o problema, uma guerra de informação entre prefeitura, governo estadual e Tribunal de Contas. E quem está pagando a conta é o trabalhador, principalmente o que circula entre Curitiba e cidades da região metropolitana.

BP – Em relação ao metrô, o senhor acha que vale a pena insistir nessa obra ou seria melhor investir na melhoria do atual sistema, como defende o ex-prefeito Jaime Lerner?
Leprevost – Eu acho que esse é outro grande nó que vai ter que ser desatado pelo próximo prefeito. E também há um desencontro de informações. A primeira coisa que nós temos que descobrir é se Curitiba ainda tem esse dinheiro reservado (do governo federal) para fazer o metrô ou a atual gestão perdeu esse dinheiro? Não se sabe. Segundo, nós temos que ver se o metrô é a principal opção para melhorar o transporte coletivo. O próprio Lerner diz que não. Nós queremos ouvir a opinião deles, quais as alternativas que ele tem. E acredito que também a população tem que ser ouvida. Será que os curitibanos estão dispostos a ter grandes buracos cavados na cidade por um período que será de no mínimo seis anos, podendo chegar a oito, dez. O trânsito hoje já está um caos. Nestes dez anos em que estarão construindo o metrô, os curitibanos terão a compreensão com a cidade ainda mais tumultuada? Eu por enquanto não tenho um compromisso veemente de fazer o metrô. É um assunto que eu quero estudar.

Bem Paraná – Na área da saúde, nós tivemos recentemente o caso de uma mulher que morreu após esperar atendimento durante horas em uma unidade de emergência. É um caso isolado ou o retrato de um problema crônico?
Ney Leprevost – É o retrato de uma situação nacional. A saúde pública há muito tempo no Brasil vem sendo jogada em um plano inferior à sua importância. Vide o fato do governo federal ter trabalhado a sua base no Congresso para conseguir escapar do cumprimento da emenda (constitucional) 29 que estabelecia um investimento mínimo de 10% de investimento da receita líquida em saúde por parte da União.

BP – Como enfrentar isso?
Leprevost – Eu posso garantir uma coisa: como prefeito a prioridade um da minha gestão vai ser a saúde. Eu tenho relacionamento com a classe médica, os profissionais, gestores da saúde, para buscar as melhores cabeças dessa área, fazer uma revolução na área de saúde. Esse é um dos principais motivos pelos quais eu quero ser prefeito. Eu quero fazer de Curitiba, a capital com a melhor saúde pública do Brasil.

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