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A partir de agora

10 de janeiro de 2019
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Diego Vera, Ideias

O Paraná tem chances de alcançar a contemporaneidade do mundo. Vivemos o fim de um ciclo que insistiu em se alongar. Enfim, venceram as forças que parecem almejar a mudança e que se reuniram sob a liderança do novo governador, Ratinho Jr. Há de tudo, é verdade. Tucanos, liberais, sociais-democratas, socialistas antiautoritários se unem para tentar inaugurar nova época sob o signo da liberdade e da promessa de um período de expansão da economia e consequente prosperidade.

Tratou-se de escolher entre a política herdada do populismo e do estatismo e a modernidade representada pela adoção de práticas que ampliam a participação da sociedade e de respeito às instituições democráticas. Em jogo, a modernização da própria estrutura do Estado que ainda é submetida a uma burocracia esclerosada e esclerosante.

Cada povo tem o governo que merece, mas desde que tenha aprendido a lutar por ele. Não é o nosso caso. Instituições políticas equilibradas e firmes são necessárias porque os chefes de governo não podem ser sempre invariavelmente bons, competentes e justos. Nós sabemos muito bem disso, depois de longa experiência.

Na verdade, a democracia não pretende garantir a escolha invariável de bons governantes; ela apenas torna os maus menos desastrosos e fornece à sociedade os meios para defender-se eficazmente deles. Eis aí, num Paraná ansioso por mudanças, o que devia bastar para fazer burgueses, operários, intelectuais, padres e políticos pensarem duas vezes, em vez de não pensarem nenhuma.

O poder dos bárbaros
Parece simples, mas há obstáculos que não são de somenos para encerrar este ciclo e iniciar outro que nos garanta a mudança de métodos e nos livre de vez da praga populista. Para ficarem no poder, os políticos que desfrutam dos benefícios concedidos ao pessoal da terceira idade fazem qualquer negócio.

O poder, para os que lá estão há anos, é uma maravilha. Propicia emprego e oportunidades para a parentela e os amigos, socorro para outros e enriquecimento rápido para os apaniguados. Isso quando não se envolvem em escândalos que revelam fortunas escondidas no guarda-roupa e vexames tais que rebaixam o Paraná a uma das províncias mais atrasadas do país no plano político.

Curioso Paraná o nosso. Somos tidos como exemplos de eficiência e produtividade em diversas áreas, a começar pelo agronegócio. E, no entanto, temos no poder um sistema centralizador, fechado, estatista, que encontrou meios de inflar desmedidamente um agrupamento político muito parecido com ele próprio, ao menos em termos ideológicos.

Mas há esperanças. As forças modernizadoras, que devem sustentar a perspectiva da modernização, se reúnem desta vez em torno de um político jovem, experiente, claro nas ideias e nos compromissos e que começa seus discursos com a promessa de um novo jeito de governar, que é a confrontação com a maneira de governar de Requião, seu PMDB e sua família.

Só isso justificaria um novo tempo. Beto Richa representa a primeira geração de políticos formada sem as peias do autoritarismo. Seu discurso recuperou palavras e valores que ficaram esquecidos durante todo o tempo marcado pela ditadura e suas consequências. Por isso mesmo, sofre restrições da velha guarda, dos políticos que ainda dividem o mundo e as ideias em dois lados apenas e não conseguem funcionar quando há mais de uma ideia na cabeça, condição de inteligência, segundo Scott Fitzgerald.

Equívocos da esquerda
A banda conservadora, que prega o estatismo e faz do populismo sua ideologia e sua prática, procura ganhar ares de vanguarda por agregar em sua periferia a esquerda nativa ou parte dela. Acontece que a esquerda nesta área do planeta é capaz de muitos equívocos. Curte, por exemplo, a certeza de que Lula é um timoneiro da revolução socialista, líder inconteste das massas proletárias e coisas tais que só têm sentido quando traduzidas para a linguagem dos movimentos nacionalistas da primeira metade do século passado.

Além do que, negam o óbvio. Lula foi preso e condenado por corrupção. A investigação da Lava Jato devastou a esquerda tradicional que gostava de se apresentar com ares de superioridade moral. Para se recuperar vai levar muito tempo. A estultícia vai mais longe. A esquerda acredita que o voto do analfabeto ou aos 16 anos a favorece. Engana-se. A esquerda, para ser contemporânea do mundo, deve brigar por melhores salários, justa distribuição da renda e, como consequência, instrução para todos.

Quanto aos púberes, deixemos que amadureçam, como propunha Nelson Rodrigues e como se faz onde a civilização pegou e o povo deixou de apanhar há algum tempo. Para perceber, inclusive, que quem pôs fogo em Roma foi a turma do imperador, não foram os cristãos.

Tudo isso terá que acontecer ao mesmo tempo em que a reforma do estado, para modernizá-lo e reduzir custos absolutamente desnecessários em algumas áreas quando faltam em outras. A luta contra a burocracia será um capítulo à parte. “Hoje tudo indica que já temos burocracia demais para as nossas posses. Será preciso desmontar o sistema que amplia constantemente a máquina burocrática”, diz Ratinho Jr.

Como se vê, o Paraná está maduro. O momento é propício. O que falta é a compreensão da maioria de que o ciclo atual se esgotou e com ele a atual forma de governar. A partir daí, o Paraná poderia discutir e fixar livremente o seu destino. E não há razão para crer que o faria com menos tino e responsabilidade que os seus atuais preceptores.

Patinho feio
O Brasil, diz a lei, é uma República Federativa. Mas o importante não é que isso esteja posto no papel e seja ensinado às crianças nas escolas. O importante é que, entre nós, a Federação é uma consequência e uma condição da liberdade. O Paraná é o estado do Sul do país que menos recebe recursos da União. Consequência de governos como o de Requião, que jamais conseguiram articular uma frente em defesa dos interesses do Paraná. Nem mesmo para resolver as pendências onerosas da privatização do Banestado.

Ratinho Jr. terá que demonstrar em sua carreira capacidade maior para articular forças em favor de projetos que são claramente do interesse do Estado e de todos os cidadãos. Foi assim que conseguiu aprovar projetos e realizar obras com os recursos obtidos por meio do governo federal que lhe seria hostil do ponto de vista político.

O governador eleito terá que se dedicar a profundas mudanças em áreas deterioradas e que causam aflição permanente na maioria absoluta da população. A segurança é um exemplo. O governo anterior deixou que o contingente das polícias militar e civil caísse de tal forma que hoje seria necessário realizar concursos imediatos para a contratação de contingentes enormes de policiais militares.

O Paraná se transformou em rota do tráfico, a droga (especialmente o crack) corre solta em todas as camadas sociais e a criminalidade articulada com o tráfico impõe recordes de homicídios por 100 mil habitantes.

“É meu compromisso combater o tráfico de um lado, de outro criar centros de atenção para usuários de drogas, especialmente o crack, que se tornou uma praga nacional, destruindo famílias e roubando o destino de jovens e adolescentes. Em nosso governo, a saúde, efetivamente, terá 12% dos recursos do orçamento do Estado”, garante Ratinho Jr.

Relações com a República
Há muito o que fazer. E a partir de agora o governo do Paraná terá que lidar com um novo tipo de governo na República. Com um time eclético, Jair Bolsonaro chega a presidente prometendo mudar tudo. Questões ambientais, por exemplo, pouco frequentaram o programa de Bolsonaro, limitado a generalidades sobre a maior parte dos temas. O discurso do eleito também não foi muito além.

Sabe-se que ele desconfia do aquecimento global, unindo-se aos negacionistas climáticos, uma minoria de menos de 1% dos climatologistas, mas que ganhou força com a adesão de Donald Trump, de quem Bolsonaro é fã confesso. E não questionou as teses do futuro ministro de Relações Exteriores, Ernesto Araújo, para quem o combate à mudança climática é “perversão da esquerda”, marxismo puro.

Por ignorância ou má-fé, Bolsonaro confunde a proposta do Triplo A – corredor ecológico que ligaria os Andes ao Atlântico – com o Acordo de Paris, do qual o Brasil é signatário e poderá deixar de sê-lo, alinhando-se com a ruptura unilateral feita pelos Estados Unidos de Trump. Motivo para que o eleito pedisse ao presidente Michel Temer que cancelasse o compromisso do Brasil de sediar a COP-25. Um vexame internacional.

Bolsonaro quer ainda acabar com “a farra das multas dadas pelo Ibama e pelo Instituto Chico Mendes” e a “mamata” das ONGs. Para a Amazônia, diz que fará, sem dizer como, preservação e exploração econômica, adiantando o apoio à construção de novas usinas hidrelétricas na região. E pretende acelerar o licenciamento ambiental, que seria um impeditivo para o desenvolvimento regional e nacional.

Com uma estrutura de 22 ministérios, sete a mais do que anunciou durante a campanha, Bolsonaro admitiu que está difícil encontrar alguém que comungue de suas ideias para o meio ambiente. O bagre do futuro presidente é ideológico.

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