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Brasileiros na mira do terror no Paraguai

10 de novembro de 2014
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Vinicius Gorczeski, Época

Uma guerrilha de esquerda inspirada nas Farc aterroriza o norte do Paraguai e mantém sequestrado há sete meses o filho de um casal de brasileiros

terror-paraguai

No dia 2 de abril, o Exército do Povo Paraguaio (EPP) sequestrou Arlan Fick, filho de brasileiros radicados no Paraguai no início da década de 1980, na fazenda onde moram, em Paso Tuya, no norte do país. ÉPOCA teve acesso exclusivo à fazenda dos Fick no fim de outubro, em duas oportunidades. Foram longas conversas, em que a família contou como foram surpreendidos com o sequestro, como viviam quando Arlan estava entre eles e o que mudou depois de 2 de abril. A reportagem completa está na edição de ÉPOCA que chega às bancas neste sábado (8). No vídeo desta matéria, ÉPOCA mostra depoimentos emocionantes dos Fick. Também relata como o terror promovido pelo EPP se espalha pelo norte do Paraguai e como o governo do país busca combater a guerrilha.

O EPP é uma guerrilha que se diz marxista-leninista. Promove sequestros e ataques a fazendeiros, à população e à polícia sob o discurso da reforma agrária, da defesa dos pobres e do ataque contra a democracia, classificada pelo EPP como “burguesa-imperial”. O EPP é uma versão paraguaia das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e do Sendero Luminoso, do Peru. Atua sob a sigla EPP desde 2008, mas suas ações violentas remontam à década de 1990. As exportações de soja e carne bovina impulsionaram o crescimento da economia do Paraguai a um ritmo de 14% no ano passado – mas trata-se de uma pujança recente num país com uma desigualdade social antiga e crônica. O Paraguai é o terceiro país mais desigual da América do Sul. Em meio à desigualdade, é notável que o discurso do EPP encontre mais eco no distrito de Concepción (mais detalhes no mapa abaixo), uma área majoritariamente rural, onde a pobreza é grande.

A maior arma do EPP é o terrorismo. O contingente do grupo não supera 26 integrantes. Mas eles são fortemente armados e se movem sob a sombra e a proteção de vastas extensões de florestas. Estão sempre por perto de rios e lagos, abundantes em Concepción. Segundo o governo do presidente Horácio Cartes, eles contam com o apoio logístico de uma rede de informantes que fornece provisões e informações e hoje é estimada em 100 pessoas. Muitos desses apoiadores são pessoas próximas das quatro famílias que compõem o EPP. “Trata-se de um clã familiar para a delinquência”, diz o tenente coronel Victor Urdapilleta, porta voz da Força de Tarefa Conjunta – órgão que reúne militares e policiais paraguaios com o único objetivo de combater as ações do EPP.

A guerrilha se sustenta por causa da relação com outros grupos armados. Urdapilleta diz que existem provas que associam o EPP às FARC. “Já se sabe que Manuel Cristaldo Mierez (um dos comandantes soltos da guerrilha) esteve na Colômbia para aprender essas táticas de guerrilha.” Com o dinheiro obtido nos seqüestros, os guerrilheiros do EPP compram armamento militar no mercado negro (M-16, de fabricação chinesa; AK-47, de origem húngara; Mouser, da Alemanha; e mini-fuzis UZI e sub-fuzis MP5 americanos) e atuam numa região dominada pelo narcotráfico. No norte do Paraguai, há extensas plantações de maconha, enviadas para o Brasil e a Bolívia.

Enquanto os combates entre as forças militares e os terroristas crescem, a família Fick só espera pelo momento em que receberá Arlan de volta. A fazenda deles tornou-se palco de missas e visitas de peregrinos de todo o Paraguai. Toda a nação se faz a mesma pergunta há 220 dias: Onde está Arlan? O mais perto que Alcido chegou da resposta veio na forma de recados misteriosos de pessoas que circulam pela vizinhança. “Vizinhos dizem que ele está bem. Pergunto quem contou a eles, mas respondem: ‘Ah, fulano disse que está bem’”, diz Alcido, sentado em sua varanda e tomando um tererê – bebida de mate gelado que é tradição nas terras quentes da região. Seus olhos azuis parecem perdidos antes de continuar: “Pergunto a eles por que não liberam meu filho, mas ninguém sabe me dizer.”

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